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31 DE OUTUBRO: DIA DA REFORMA PROTESTANTE (parte 5/7)

Sola Gratia

 Por Thiago Mancini
  
dia da reforma
Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.” (Ef 2.8-9).
      

Há alguns anos atrás se na sala dos professores da Universidade de Oxford estava acontecendo um debate entre estudiosos de diversas religiões, e a ideia principal do debate com os especialistas em dogmas diferentes era comparar os ensinamentos de diversas religiões. Em um determinado momento do debate estes especialistas se perguntaram se o cristianismo tinha algo em particular que não pudesse ser encontrado em nenhuma outra religião.


     Alguns dos participantes pensaram na encarnação e disseram que o cristianismo é único por ensinar que Deus se fez homem; mas imediatamente alguém objetou dizendo que outras religiões também tinham deuses em formas humanas. Então, alguns outros participantes mencionaram a ressurreição; mas imediatamente alguém protestou dizendo que outras religiões também acreditam que os mortos tornarão à vida...

     Enquanto a discussão prosseguia C. S. Lewis chega à sala e observa o debate que segue acalorado, e pergunta a um sujeito a razão de tamanha discussão.  

“Estão discutindo qual é a distinção do Cristianismo em relação às outras religiões. Estão discutindo se existe alguma contribuição única do Cristianismo que não pode ser encontrado em nenhuma outra religião do mundo!”

esclarece o homem. Muito simples, comenta Lewis sem hesitar: “A graça de Deus!

     Os especialistas tiveram que concluir que Lewis estava, de fato e de verdade, correto, que em nenhuma outra religião Deus oferece amor e salvação a pecadores completamente grátis, de forma incondicional. Isto só acontece no cristianismo. Em todas as demais religiões o pecador precisa fazer algo, algum tipo de “boas obras” para obter o favor de Deus.

     A discussão acabou ali mesmo na sala de professores. C. S. Lewis estava absolutamente certo. Sendo que a graça ocorre quando Deus nos dá o bem que não merecemos, graça significa, em suma, o favor imerecido de Deus para com os homens.

     Na fé cristã, o perdão de Deus, e, portanto a salvação do homem, é obra única e exclusiva de um Deus soberano que é benevolente e misericordioso, que outorga perdão e todas as demais bençãos às suas criaturas pela imensidão de sua graça.

     A fé cristã se edifica sobre a mensagem de que Deus enviou aos homens um Salvador, pelo simples fato de que os homens são incapazes de salvar a si mesmos. De fato, todas as religiões do mundo (à exceção do cristianismo) estão baseadas no esforço pessoal e no princípio da justiça retributiva. Somente o Cristianismo apresenta a possibilidade de um relacionamento entre Deus e os homens além das fronteiras do mérito e do demérito.

     Infelizmente as palavras de Lewis diante dos mestres na sala dos professores da Universidade de Oxford, as palavras do apóstolo Paulo em Ef 2.8-9, uma das afirmações mais categóricas e fundamentais do Novo Testamento se perderam na poeira do fenômeno chamado “religião de consumo”, onde os “deuses” disputam melhores lugares nas prateleiras do mercado religioso.

     O apóstolo Paulo escreve de maneira muito cristalina que Deus revelou que, indubitavelmente a salvação é dada pela graça:

     “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos).” (Ef 2.4-5).

     Aqui em Ef 2.4-5 está expressa a base da salvação, que é pela graça e pela graça somente; mas quando escreve a epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo escreve de forma muito simples como a graça e as obras se contrapõe quando se trata acerca da salvação:

     “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça. Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra.” (Rm 11.5-6).

     Aqui em Rm 11.5-6 o apóstolo Paulo está explicando que se as obras contribuem para a salvação, em qualquer grau e em qualquer maneira ou de qualquer forma, ainda que seja da menor e mais insignificante possível; então, a salvação deixa de ser obtida pela graça. E se a salvação, como Ef 2.4-5 e Rm 11.5-6 afirmam, é pela graça, então, as obras estão excluídas.

     O conceito cristão da graça divina em favor dos homens é talvez o mais mal e pobremente entendido dos conceitos do Cristianismo. Mesmo assim, muitas pessoas que estão dispostas a afirmar que a salvação é inteiramente pela graça, estão dispostos a conceder algum lugar às obras, como se a salvação fosse resultado da graça mais as obras.

     Por esta razão, antes de prosseguirmos, devemos primeiro aclarar o que é graça, para então poder entender como a salvação pela graça chega ao homem.

     A graça de Deus pode ser definida como as riquezas de Cristo dadas ao homem à custa do sacrifício de Cristo.

     Ao passo que misericórdia pode ser definida como não receber aquilo que é merecido, como é o inferno; a graça de Deus pode ser definida como um favor imerecido; ou seja, receber algo quando não se é merecedor, como é a glória!

     A essência da mensagem do Sola Gratia é que não existe absolutamente nada que o homem possa fazer e nem tão pouco existe um preço que o homem possa pagar para ganhar a entrada no Reino dos Céus.

     A razão pela qual não existe absolutamente nada que o homem possa fazer para ganhar a entrada no Reino dos Céus é que todas as faculdades do homem estão afetadas pelo pecado, mesmo depois da regeneração: as emoções, os pensamentos, as motivações, as ações, as intenções... De modo que, nenhuma obra humana pode passar ao escrutínio perfeito da justiça de Deus.

     Lamentavelmente, ao homem se faz muito difícil compreender que não existe nada que ele possa fazer a fim de contribuir para a sua salvação, dado que praticamente todo o que é obtido deste lado da glória, em seu entendimento, está relacionado a algum esforço humano.

     Em Las Doctrinas de La Gracia, Miguel Nuñez conta a história de um menino de 4 ou 5 anos de idade, que sempre era levado à igreja pelos pais. Nesta igreja a comunhão era celebrada uma vez ao mês, sempre no primeiro domingo do mês... E neste primeiro domingo do mês aonde era celebrada a comunhão, era norma recolher ofertas duas vezes ao invés de apenas uma vez: a primeira oferta era recolhida antes do sermão e a segunda oferta era recolhida imediatamente antes da comunhão, uma oferta reservada para o fundo de benevolência da igreja.

     Normalmente os pais davam dinheiro aos filhos a primeira vez que a oferta era recolhida, mas não na segunda vez... Em uma determinada ocasião os pais deste menino resolveram lhe dar dinheiro para contribuir as duas vezes em que a oferta fosse recolhida.

     Assim, o menino oferta a primeira vez em que a oferta é recolhida antes do sermão, e oferta também a segunda vez que em que a oferta é recolhida imediatamente antes da comunhão; e logo depois de contribuir com a oferta o menino faz algo que nunca havia feito na vida, se posiciona na fila para tomar a comunhão.

     Logo em seguida, o menino é detido pela mãe que o repreende dizendo assim: “Você ainda não pode tomar a comunhão!”; ao que o menino de imediato lhe dá uma resposta perturbadora: “Mas por que não mamãe? Eu já paguei!”.

     Nós nos parecemos muito com esta criança. Estamos tão acostumados a pagar pelas coisas, estamos tão acostumados a não receber nada de graça neste mundo, estamos tão acostumados a receber algum benefício depois de pagarmos por este benefício, que com nossas mentes finitas, afetas pelos efeitos noéticos do pecado que simplesmente, por nós mesmos, e à parte da graça de Deus não podemos conceber o conceito da salvação absolutamente gratuita...

     Gratuita para o homem por que, em relação à salvação que recebemos em Cristo, que é sem custo algum, custou a vida de Cristo, o Redentor.

     O preço mais alto jamais pago em todo a história da humanidade em todo o Universo, foi o preço do sangue de Cristo pago pela salvação dos eleitos de Deus:

     “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado.” (I Pe 1.18-19).

     A graça de Deus é soberana! Se é difícil para o homem entender o conceito de salvação pela graça, é mais difícil ainda entender o conceito de salvação soberana.

     De acordo com Mt 5.45, a graça de Deus é geral para todos os homens. Mas Deus também revelou que há uma expressão da graça divina que é especial para os eleitos: Lc 4.25-27.

     “Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.” (Mt 5.45).

     “Em verdade vos digo que muitas viúvas existiam em Israel nos dias de Elias, quando o céu se cerrou por três anos e seis meses, de sorte que em toda terra houve grande fome; e a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a Sarepta de Sidom, a uma mulher viúva. E muitos leprosos havia em Israel no tempo do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o Sírio.” (Lc 4.25-27).

     Aqui em Lc 4.25-27 está claramente estampada a graça de Deus ao enviar o profeta Elias, não às viúvas judias, mas sim a uma viúva gentia, e também mesmo havendo muitos leprosos em Israel, nenhum deles foi sarado, salvo Naamã, o sírio.

     Isto é graça soberana! É graça soberana por que uns a recebem e outros não a recebem; e uns a recebem e outros não a recebem por que Deus é soberano para outorgar a graça a quem quer.

     Qual é a resposta do homem diante da graça soberana de Deus?

     “E todos, na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira. E, levantando-se, o expulsaram da cidade, e o levaram até ao cume do monte em que a cidade deles estava edificada, para dali o precipitarem.” (Lc 4.28-29).

     Naturalmente o homem não tolera o conceito de que Deus possa eleger soberanamente; e isto por que o homem gosta de dirigir o próprio destino...

     Provavelmente, a passagem aonde se pode ver mais claramente o exercício da graça soberana de Deus é Romanos 9.

     “Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho. E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque, nosso pai; porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito da eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama). Foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú.” (Rm 9.9-13).

     O Senhor escolheu a Jacó e rejeitou a Esaú antes mesmo de Jacó e Esaú nascerem. Deus escolheu um sobre o outro antes mesmo de qualquer ação boa ou má de qualquer um dos gêmeos, para mostrar a soberania na eleição de Jacó e na reprovação de Esaú...

     Esta eleição não está baseada em “boas” obras e nem mesmo pode estar baseada em “boas” obras haja vista que Deus escolheu Jacó sobre Esaú antes de Jacó e Esaú nascerem.

     “Que diremos pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que se compadece.

     Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer.” (Rm 9.14-18).

     Com isto, o apóstolo Paulo está evidenciando que Deus não deve misericórdia a nenhum ser humano, e isto por que toda raça humana já está debaixo de juízo depois da queda de Adão. O justo seria enviar toda a raça humana para o inferno, de modo que ninguém teria direito de questionar a Deus. Mas ao invés de enviar toda a raça humana para o inferno, Deus envia para a glória um grupo de pessoas que não mereciam, e quando Deus faz isto, o faz unicamente e exclusivamente por graça.

     Agora, surge mais um questionamento então de que, já que é por graça, por que é então que Deus faz o homem responsável? O apóstolo Paulo mesmo antecipa esta pergunta e a responde logo em seguida:

     “Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: por que me fizeste assim?” (Rm 9.19-20).

     Com estas palavras, o apóstolo Paulo faz com que seus opositores e acusadores se calem sem argumentos diante da sua poderosa argumentação, permitindo ver que o homem que não criou o mundo, que não redimiu o mundo e que não entende os propósitos de Deus, não tem direito e condição além de não estar em posição de questionar o Deus que é soberano sobre toda a terra e céu.

     Sola Gratia é uma das grandes doutrinas da Bíblia, e como tal, necessita ser proclamada em cada geração tão claramente o quanto seja possível. Caso a doutrina do Sola Gratia seja abandonada, o homem será convertido em merecedor, o que é totalmente contrário a toda a revelação bíblica. Como pecadores devemos ser eternamente gratos a Deus que em sua graça providenciou um Redentor para nos livrar da condenação eterna e que por seu sangue nos deu vida estando nós mortos em nossos delitos e pecados.

Sola Gratia: A Erosão do Evangelho 1:

     A confiança desmerecida na capacidade humana é um produto da natureza humana decaída. Esta falsa confiança enche hoje o mundo evangélico – desde o evangelho da autoestima até o evangelho da saúde e da prosperidade, desde aqueles que já transformam o evangelho num produto vendável e os pecadores em consumidores e aqueles que tratam a fé cristã como verdadeira simplesmente porque funciona. Isso faz calar a doutrina da justificação, a despeito dos compromissos oficiais de nossas igrejas.

     A graça de Deus em Cristo não só é necessária como é a única causa eficaz da salvação. Confessamos que os seres humanos nascem espiritualmente mortos e nem mesmo são capazes de cooperar com a graça regeneradora.

Sola Gratia:

Reafirmamos que na salvação somo resgatados da ira de Deus unicamente pela sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando – nos de nossa servidão ao pecado e erguendo – nos da morte espiritual à vida espiritual.

Negamos que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar esta transformação. A fé não é produzida pela nossa natureza não regenerada.

     Sola Gratia é o artigo pelo qual a igreja se mantém de pé ou cai, é o resumo da doutrina cristã, é o sol que ilumina a santa igreja de Deus, é o ponto principal sobre o qual a religião cristã se sustém...

     E como Calvino escreveu: “Em todo lugar onde o seu conhecimento é apagado, a glória de Cristo é extinta, a religião abolida, a igreja destruída e a esperança de salvação subvertida.” 2






Notas:

[1] James Montgomery Boice e Benjamin E. Sasse, Reforma Hoje: Uma Convocação feita pelos evangélicos confessionais. São Paulo, Cultura Cristã, 1999, p.11-17.

[2] João Calvino, “Epístolas a Sadoleto”, in: Eduardo Galasso Faria, org., João Calvino: textos escolhidos, página 110.

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