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A MULHER PODE PREGAR? (parte 2)

Mulheres Pregadoras: Uma Resposta a John Piper



Por Andrew Wilson

     Poucas semanas atrás, como parte do excelente podcast “Pergunte ao Pastor John”, John Piper foi perguntado sobre se as mulheres são permitidas a pregarem sermões, e se estariam fazendo isto sob a autoridade dos oficiais do sexo masculino da igreja. Sua resposta foi não.

     Bem, eu tenho o maior respeito e afeto por John Piper, que não apenas tem sido uma grande benção para mim teologicamente como também um grande encorajamento para mim pessoalmente.

     Mas nós temos mulheres pregando sermões aqui na Kings Church Eastbourne, e isto é algo a respeito do qual eu tenho argumentado a favor e defendido publicamente em vários contextos. Então eu creio que vale a pena explicar aqui aonde é que eu e John Piper diferimos neste assunto.


     Simplificando, nesta resposta do podcast, eu creio que John Piper na verdade está mendigando a questão. A questão é se I Tm 2.12 proíbe a pregação de um sermão por uma mulher em uma igreja local sob a autoridade dos anciãos da igreja.

     Em resposta, ao invés de demonstrar que a mulher não pode pregar, Piper assume que a mulher não pode pregar, e então explica por que apelar para a autoridade dos anciãos não nos permite contornar a autoridade das Escrituras.

     Colocando isto de forma diferente, Piper não dá razões para a sua crença de que “pregar sermões na igreja local sob a autoridade dos anciãos” necessariamente envolve desobedecer a I Tm 2.12.

     Isto, até aonde eu posso ver, é o ponto específico do problema. (Pode valer a pena dizer que nesta etapa: isto parece ser comum em círculos complementaristas nos EUA. Poucos meses atrás eu tiver um jantar para discutir esta questão com Jim Hamilton e Denny Burk, ambos bastante conhecedores da interpretação bíblica e sobre o debate de gênero na América, e nenhum deles sequer ouviu falar de um argumento complementar que “pregar um sermão em uma igreja local” não está necessariamente proibida em I Tm 2.12. A próxima hora foi muito divertida.)

     Eu não sei quem perguntou a questão original, nem o que a pessoa tinha em mente quando fez a pergunta ao pastor Piper. Mas o meu palpite é que a pessoa não estava perguntando se era permitido contornar a autoridade da Bíblia dizendo que nós estamos “sob a autoridade dos anciãos.”

     Eu suspeito que a pessoa estava perguntando se I Tm 2.12 realmente proíbe de qualquer forma as mulheres de pregar em uma igreja local, sob a autoridade dos anciãos.

     John Piper, obviamente acredita que proíbe, mas não oferece razões para esta crença. E existem pelo menos três bons argumentos – não argumentos irrefutáveis talvez, mas bons argumentos, e bons o suficiente para merecer uma resposta ponderada – para sugerir que I Tm 2.12 não proíbe as mulheres de pregar em uma igreja local.

     Em primeiro lugar, pregar um sermão em uma igreja local não é a mesma coisa que “ensinar”. Em muitos contextos contemporâneos estas duas coisas podem parecer as mesmas, mas biblicamente falando, elas não são necessariamente idênticas.

     De modo algum, todos os discursos públicos nas igrejas do Novo Testamento era “ensinamento”: poderia ser descrito como “palavra de exortação”, como ambos os sermões de Paulo em Antioquia da Psídia e a carta aos Hebreus (At 13.15; Hb 13.22), ou as “profecias” (como em I Co 14, aonde isto é definido como “falar com as pessoas para sua edificação, encorajamento e consolação”), ou como evangelismo (que, como John Piper tem dito corretamente em outros contextos, é muito do que realmente é sobre a “pregação”), ou a ligeiramente misteriosa “palavra de sabedoria” ou “palavra de conhecimento” (como em I Co 12).

     Não há proibições no Novo Testamento sobre as mulheres darem palavras de encorajamento, de conhecimento ou de sabedoria, ou sobre a pregação do Evangelho, e nós sabemos com certeza que no Novo Testamento, as mulheres profetizavam na igreja (At 2.17; At 21.9; I Co 11.2-16; etc).

     Então, a proibir alguém de “ensinar” não é necessariamente a mesma coisa que proibi-las de pregar o Evangelho, pregar um sermão, falar ininterruptamente à igreja da Bíblia por 30 minutos, ou o que quer que seja.

     Em segundo lugar, a palavra “ensinar” (grego didaskein) pode ter uma referência muito mais específica do que Piper implica, ou até mesmo do que eu impliquei no parágrafo anterior.

     Este é o argumento de John Dickson em “Hearing Her Voice”: “ensinar” tem muito a ver com a preservação e com a transmissão das autênticas testemunhas apostólicas de Jesus, na era anterior ao Novo Testamento foi escrito, ao invés de (como nós geralmente utilizamos isto) um termo genérico para falar sobre a Bíblia em uma reunião na igreja.

     O livro de Dickson, e em particular sua experiência de pensamento sobre a adoração da igreja primitiva, valem a pena serem consideradas. Isto levanta questões importantes sobre a noção de que I Tm 2.12 proíbe o que a pessoa que perguntou a questão ao pastor Piper chamou de “pregação”.

     Em terceiro lugar, há vários lugares nos quais Paulo fala sobre “ensinar” sem restringir isto a homens e/ou líderes credenciados, e na verdade, incentiva toda a igreja a fazê-lo, como Tom Schreiner aponta.

     “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração.” (Cl 3.16).

     “De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino.” (Rm 12.6-7).

     “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação.” (I Co 14.26).

     Esta é a principal razão para a minha crença de que Paulo usa a palavra didaskein de duas formas sutilmente diferentes, as quais eu tenho chamado Grande E e pequeno e de ensino: as vezes ele encoraja todos a participarem do ensino ao outro (o que eu assumo que significa “explicar as Escrituras aos outros de uma forma pessoal, de acordo com o dom”), e as vezes, notavelmente nas cartas pastorais, ele está falando sobre o Ensino (o qual é mais parecido com “a definição e a defesa da Doutrina Cristã, pelos líderes credenciados da Igreja”).

     No nosso contexto, aliás, nós resolvemos isto pedindo aos não anciãos de nossas igrejas que pregam a submeterem os seus sermões à um presbítero, obter dele algum comentário, e somente então, o entregar à igreja; e desta forma, o orador está fazendo o pequeno e de ensino, e o presbítero está fazendo o grande E de ensino.

     Em outras palavras, eu creio que existem muitas boas razões para acreditar nisto, quando Paulo diz didaskein de guanaik ouk epitrepō oude authentein andros (I Tm 2.12), ele não está necessariamente proibindo as mulheres de pregarem na reunião semanal de uma igreja local, sob a autoridade dos presbíteros. E é por isto que nós fazemos isto, de qualquer forma.

     Uma deturpação interessante em tudo isto é que o próprio Piper, em um episódio anterior do mesmo podcast, explicou por que ele pensou que isto não seria um problema para os homens escutarem as mulheres pregando como Beth Moore ou Elisabeth Elliot.

     A sua explicação, com a qual eu concordo inteiramente, foi que há uma diferença entre pregar às pessoas ocasionalmente e funcionar como seu presbítero ou pastor.

     Isto pode, em face disto, parecer como uma contradição sobre o que ele acabou de dizer sobre as mulheres pregarem aos domingos. Mas o meu palpite é que, por causa da sua eclesiologia e da sua visão acerca do que representa uma reunião de domingo, Piper considera a pregação de domingo com uma qualidade diferente de pregações em outros dias da semana e em conferências, de modo que este não é um território dos anciãos, mas o primeiro sim. (Novamente Jim Hamilton e Denny Burk também vêem o ministério de palavra no domingo como algo principalmente restrito aos oficiais da igreja do sexo masculino.)

     Pessoalmente, eu discordo – eu não vejo esta distinção no Novo Testamento, e esta distinção não é aplicada em nossa igreja, um pouco mais carismática, no contexto do domingo – mas eu posso ver a consistência da posição de John Piper.

     De qualquer forma: eu discordo da resposta do John Piper.

     Eu creio que as mulheres podem (e devem) pregar sermões na igreja local, assim como eu sustento que são os anciãos que devem guardar e proteger a igreja do mal (e garantir que a doutrina permaneça fiel) são destinados a homens qualificados. Eu creio que o apóstolo Paulo pensava isto também. Mas eu não quero que ninguém tome a minha palavra sobre este assunto (ou até mesmo a palavra do John Piper). Pense sobre estas coisas.
  

Andrew Wilson se tornou um ancião em dezembro de 2008 e é responsável pelo ensino e treinamento na Kings’ Church. Andrew tem formação teológica em Cambridge e LST, e atualmente está fazendo PhD na faculdade da Kings’ Church em Londres, e também publicou quatro livros: Deluded by Dawkins, Incomparable, GodStories e If God, Then What? Ele e sua esposa vivem em Roselands, Eastbourne com seu filho Zeke e sua filha Anna.

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