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PROGRAMA ACADEMIA EM DEBATE CAUSA POLÊMICA - Notícias

A gravação do programa Academia em Debate - promovido pela Universidade Presbiteriana Mackenzie – causou bastante polêmica em uma de suas edições, que foi ao ar há alguns dias atrás.

O apresentador, Reverendo Augustus Nicodemus Lopes, conversou com os Reverendos e filósofos Jonas Moreira Madureira e Filipe Costa Fontes, sobre o tema Teologia da Missão Integral (TMI).

O também respeitado e conhecido pastor  Ariovaldo Ramos, um dos maiores defensores no Brasil da  TMI, postou em seu Facebook uma carta aberta, criticando aquilo que chamou de “falta de profundidade nas considerações sobre o assunto”. Em seguida, o Rev. Nicodemus também publicou em seu Facebook uma resposta à carta.


Assista ao vídeo do Programa Academia em Debate e leia logo abaixo, as respostas de Ariovaldo, Augustus, Jonas e Felipe, respectivamente:





CARTA ABERTA DE ARIOVALDO RAMOS AO PROGRAMA ACADEMIA EM DEBATE:


teólogoRaramente me presto a tecer considerações sobre as tentativas de análise à chamada Teologia da Missão Integral, feitas em território nacional, porque, na maioria das vezes, tais intentos são pautados pela ignorância, pela má fé, pela desonestidade intelectual, pela ausência de rigor acadêmico e pelo mero preconceito.

Desta feita, entretanto, por se tratar de interlocutor que merece audição, posto uma carta aberta ao programa "Academia em Debate", do Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper, apresentado pelo Rev. Doutor Augustus Nicodemus, que priva do respeito de todos os seus pares, entre os quais me incluo.

O programa convidou dois pastores e filósofos: Rev. Jonas Madureira e Rev. Filipe Fontes para tecerem comentários à TMI. Apesar de entender que os comentadores foram, possivelmente, traídos pela tempo escasso que lhes foi concedido, por força do limite natural ao veículo da comunicação; gostaria de tecer algumas impressões sobre o conteúdo das exposições. .

Celebro a intenção do programa, porém, os comentários não manifestaram análise técnica, uma vez que as afirmações não foram sustentadas por referencial teórico, não deixando aos espectadores outra opção, senão, a de crerem na veracidade das falas, pela suposição de estarem diante de autoridades competentes, embora não tenha sido apresentada nenhuma credencial dos mesmos como estudiosos do tema em questão, o que não tolda a qualidade dos mesmos nas áreas em que tenham se especializado.

As colocações dos convidados não elucidaram o tema, suas críticas, de fato, por falta de rigor, mais pareceram meros ataques, e soaram como opiniões pessoais, acabando por correr o risco de ter prestado um desserviço ao debate teológico, sempre tão necessário, principalmente, neste momento da Igreja brasileira, tão vilipendiada por causa de maus exemplos, principalmente, midiáticos, e acossada por tantos ventos doutrinários.

À guisa de contribuição, como simpático ao conteúdo veiculado pelos teólogos proponentes dessa reflexão teológica, a TMI, dos quais destaco, por antigüidade, Renê Padilla, Pedro Arana e Samuel Escobar, faço as seguintes e próprias menções sobre as ênfases da TMI:

1- A TMI nasce das reflexões, principalmente, dos teólogos citados, nas décadas de 50 e de 60, e que foram apresentadas nos CLADEs, Congressos Latino-Americanos de Evangelização, realizados em Bogotá - Colômbia (1969), Huampani - Peru (1979), Quito - Equador (1992 e 2000), Tais reflexões foram iniciadas e propostas antes do que veio a ser conhecido como Teologia da Libertação (Gustavo Gutierrez, 1971), também latino-americana.
2- O que há de coincidente entre ambas teológicas latino-americanas é o fato de serem teologias da Práxis, isto é, reflexões teológicas sobre a ação da igreja, como propagadora do Evangelho, no cotidiano da sociedade em que está incrustada.
3- A ênfase da reflexão da TMI, sobre a prática da Igreja, voltada para o cotidiano, parte da proposição do Prof Padilla, de que a evangelização não desconsidera o contexto do evangelizando.
4- A proposição de Padilla se sustenta no declaração do Senhor Jesus, de que o Evangelho é do Reino (Mt 24.14; Lc 4.43), portanto, tendo como conteúdo as boas notícias da chegada de uma nova ordem mundial (Dn 2.44), manifesta pela Igreja, porém, só implantada na volta visível e triunfal do Cristo. Daí há pecado pessoal e pecado estrutural. E para ambos pecadores a Igreja propõe arrependimento.
5- Só será possível participar dessa nova ordem pelo novo nascimento, que é sempre pessoal, porém, graças às boas obras, que são a luminosidade da Igreja, a sociedade, em geral, será beneficiada, e levada a dar graças a Deus (Mt 5.16).
 6- O chamado Pacto de Lausanne é fruto do Congresso Mundial de Evangelização realizado, em 1974, na cidade de Lausanne, na Suíça; graças ao trabalho de John Stott, reconhecido teólogo Anglicano, já falecido, que promoveu o encontro entre a teologia dos irmãos do Norte, com a contribuição missiológica da reflexão teológica latino-americana, denominada de TMI, e com as contribuições africanas e asiáticas, cujo resultado foi sintetizado na frase: "O Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens".
Onde "o Evangelho todo" é compreendido como o poder de Deus para a Salvação de todo o que crê, assim como o poder de Deus para interferir na estrutura da sociedade, para dar sobrevida à humanidade, pela promoção da justiça. Como se pode verificar na irrupção da chamada modernidade, a era dos direitos humanos, iniludível fruto do cristianismo.
Onde "o homem todo" é a compreensão do ser humano como ser complexo, com potencial cognoscente, religioso, fabril, econômico, social, político, comunitário, lúdico, artístico - que a tudo afeta e por tudo é afetado - portanto, alcançado pelas boas notícias do Reino, quando os sinais da presença do Reino se manifestam nele, e em tudo o que o afeta e por ele é afetado.
Onde a proposição "todos os homens" compreende a totalidade das nações humanas, que devem ser alcançadas pelo anúncio do evangelho do Reino de Deus, tanto no âmbito pessoal-familiar, como no âmbito da organização sócio-política, e que serão julgadas por suas práticas no trato do ser humano, frente a forma como se organizaram, e construíram os relacionamentos internacionais e intersociais (Mt 25.31-46).
7- A TMI é Ortdoxa, sustentando os paradigmas histórico-bíblicos da fé protestante, porém, ampliando a compreensão missiológica da Igreja como agência da "Missio Dei", uma vez que toda a iniciativa é do Altíssimo Deus Trino. Talvez, nessa compreensão, seja melhor intitular a reflexão de "A Teologia Com Missão Integral".
8- A TCMI faz exegese histórico-gramatical; e sua hermenêutica parte da sacralidade, inerrância e infalibilidade da Bíblia, na busca pelo mais próximo possível do sentido original, porém, no afã de aplica-lo da forma mais compreensível, relevante e provocadora de transformação ao contemporâneo; sua abordagem fática serve-se da interdisciplinariedade, uma vez que, o que chamamos de realidade demanda muitos e distintos observadores para poder ser proposta como tal. E procuramos discerni-la para entender as perguntas a que devemos responder, nunca para nortear ou compor com o kerigma, a proclamação.
9- O referencial teórico da TCMI é a doutrina da presença (Lc 17.21) e da iminência do Reino de Deus, onde o Reino é compreendido como o Governo do Ungido pela implantação da sua Justificação e Justiça. A Igreja, então, se vê, no cotidiano, como anunciadora da justificação, e sinalizadora da presença e do princípio do Governo do Ungido, pela busca por fazer manifesto e aplicado o conceito judaico-cristão de justiça.
10- A priorização do pobre não é vista como uma opção, mas, como demanda do Cristo, que apresentou a pregação do evangelho aos pobres como uma de suas credenciais messiânicas (Mt 11.5).
Sem mais, no anseio de colaborar com o debate teológico, que desejo, um dia, se instaure,

Ariovaldo Ramos



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RESPOSTA DE AUGUSTUS NICODEMUS AO ARIOVALDO RAMOS:

Caro Pr. Ariovaldo Ramos,

Muito obrigado por sua resposta irênica, tranquila e respeitosa. Saiba que o respeito e a consideração são mútuos. Permita-me uma ou duas palavras à guisa de interação com sua “Carta Aberta”.
teólogo presbiterianoPrimeira, com relação ao programa “Academia em Debate”, seu nome e seu formato. Já por mais de cinco anos apresento este programa, que durante este tempo tem tratado de diversos assuntos que considerei relevantes para a academia secular e cristã, como você poderá facilmente verificar por uma pesquisa no YouTube.

O nome “Academia em Debate” significa simplesmente que vamos conversar sobre temas que estão sendo debatidos na academia. O formato do programa sempre foi o de apresentar pontos de vista mediante o sistema de perguntas e respostas a pessoas convidadas, e não promover um programa com dois debatedores de posições opostas. O debate que queremos gerar é este que está acontecendo agora. Você publicou uma resposta pensada, respeitosa e estudada, o que dificilmente aconteceria num confronto de 30 minutos. Agora, os que estão clamando por “debate,” podem ler sua resposta e tirar suas próprias conclusões.

É assim que o debate acadêmico se processa, e não pela “briga de galos” em público, que acaba gerando mais calor do que luz e serve para satisfazer ao desejo de muitos que estão mais interessados na competição dos intelectos do que na consecução da verdade.

Dito isto, passo ao conteúdo de sua “Carta Aberta”. Qualquer pessoa que assistiu ao programa e leu sua carta com atenção verificará a concordância em muitos pontos: a sustentação das Escrituras como a Palavra de Deus, o desejo de obedecer ao Evangelho, a consciência de que cuidar dos pobres e promover a justiça faz parte do Evangelho, entre outros. Os pontos de controvérsia são relacionados ao referencial teórico da TMI e sua relação com a Teologia da Libertação – por sinal, você não tocou na “Carta Aberta” na questão do uso do marxismo, sim ou não, pela TMI, que é uma das críticas mais feitas ao movimento. Eu sei que numa “Carta Aberta” que visa responder rapidamente a uma situação, não houve tempo para dar uma resposta a estas indagações, especialmente àquela da relação da TMI com o marxismo. Quem sabe você escreverá sobre isto mais adiante.

O debate continua, de forma educada e acadêmica. Veja, por exemplo, o que escreveu Filipe Fontes e o Jonas Madureira em atenção à sua respeitosa "Carta Aberta":

Filipe Fontes: http://goo.gl/D6mOrd   Jonas Madureira: http://goo.gl/cBntGs

Numa nota final, para mim “o Evangelho todo para o homem todo” encontra uma de suas melhores expressões na cosmovisão reformada, refletida nas conhecidas palavras de Abraham Kuyper, primeiro ministro da Holanda e pastor reformado, “Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’” Os seguidores desta linha abriram universidades, hospitais, escolas, abrigos e orfanatos, e se engajaram nas artes, ciência e academia – o “homem todo”, muito antes do surgimento da TMI.

Termino. Mais uma vez, obrigado pela resposta tranquila e que atendeu ao objetivo do programa, que é gerar debate acadêmico de bom nível.
Desejo-lhe um dia abençoado. Em Cristo,

Augustus Nicodemus


Fonte: Facebook - Augustus Nicodemus


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RESPOSTA DE JONAS MADUREIRA AO ARIOVALDO RAMOS:

teólogo filosofiaNOTA DE ESCLARECIMENTO SOBRE A MINHA PARTICIPAÇÃO NO PROGRAMA "ACADEMIA EM DEBATE", EDIÇÃO n° 37

1. Primeiro esclarecimento. Não foi da noite para o dia que eu comecei a ler sobre a TMI e, por conseguinte, a falar sobre as minhas impressões da TMI. Para efeitos formais, em 2010, tivemos a oportunidade de receber em nossa 7a. edição do Congresso Vida Nova de Teologia, em Águas de Lindóia, a presença do Dr. C. René Padilla, como carro-chefe da conferência (http://www.vidanova.com.br). Naquela ocasião, tive a incrível oportunidade de apresentar, pela primeira vez, as minhas impressões da TMI para o próprio Dr. Padilla. A propósito, elas foram ditas e respectivamente ouvidas tanto por Dr. Padilla, que, como já foi dito, era um dos nossos palestrantes, como por Ariovaldo Ramos, que estava participando do congresso. O que é interessante é que tudo o que eu disse no programa “Academia em Debate” foi dito na palestra de 2010 (É claro que, na conferência de 2010, tive mais tempo para expor os meus argumentos com mais clareza!). Após a palestra, o Dr. Padilla me procurou e fez as suas ponderações e reações. Inclusive, disse para mim que o livro que eu usei para fundamentar a minha palestra (“Missão Integral: ensaios sobre o Reino e a igreja”) já não mais representava a sua atual perspectiva sobre a missão integral. Lembro-me, também, de ter recebido a crítica do Ariovaldo, que me disse: “Jonas, concordei com a primeira parte da sua palestra, mas a segunda parte revelou uma falta de leitura da bibliografia elementar da TMI! Também não concordei com a justaposição que você estabeleceu entre a TdL e a TMI”. Recordo-me bem que recebi essas críticas numa boa. Falamos de nos encontrar em algum dia para conversarmos sobre o assunto, mas esse dia ainda não chegou. Portanto, o que eu disse no programa “Academia em Debate” não é nenhuma novidade, antes é o que venho dizendo ao longo de cinco anos! O cômico de tudo isso é que a primeira vez que tornei pública as minhas impressões da TMI foi curiosamente na frente do Dr. Padilla e do Ariovaldo Ramos.

2. Segundo esclarecimento. Dr. Augustus Nicodemus, a quem muito admiro, fez-me um convite para falar sobre as minhas impressões sobre a TMI no programa “Academia em Debate”, um programa que ele vem fazendo ao longo de seis anos. O programa já tem um formato reconhecido tanto por aqueles que gostam como por aqueles que não gostam. O que fiz, e não me arrependo de forma alguma, foi aceitar ao convite que vinha, sobretudo, de um amigo. Até hoje nunca recebi um convite do Ariovaldo Ramos ou de qualquer outro teólogo ou instituição vinculada aos ideais da TMI para uma conversa ou até mesmo para um debate. Quero dizer, publicamente, que não me nego a aceitar ao convite para conversar ou debater sobre a TMI com quem quer que seja. Estou completamente aberto ao diálogo e ao debate, plenamente aberto para corrigir e rever, se preciso, as minhas possíveis imprecisões, contanto que seja em um ambiente irênico, de respeito, de cordialidade, de educação, de elegância, de honestidade intelectual e de tolerância. Sinceramente, não vejo problema nenhum em um programa midiático convidar apenas as pessoas que a produção do programa deseja trazer! Afinal, em nosso país, pelo menos por enquanto, ainda vivenciamos a prática da liberdade de expressão!

3. Terceiro esclarecimento. Apenas lamento a reação beligerante e intolerante de alguns defensores da TMI, inclusive alguns que me conhecem. É incrível, mas a beligerância, a rudeza e a falta de educação que mais tenho criticado em alguns reformados e evangélicos conservadores, eu pude ver também do lado dos evangélicos progressistas e defensores da TMI. Realmente, ainda não aprendemos a conversar… Foi enorme a quantidade de mensagens virulentas, indelicadas, grosseiras, que questionaram a minha dignidade como homem, marido, pastor e professor. É muito triste viver em um contexto que se diz cristão, mas cujo vínculo do amor é só um mero discurso que se desfaz como uma fumaça ao vento. Nessas horas, louvo a Deus pela bênção que ele me deu de ter vivido, pensado e estudado nos departamentos de filosofia da PUC-SP e da USP. Com pensadores ateus, agnósticos e católicos consegui travar inúmeros debates sem esse coitadismo, personalismo e pessoalismo tão presente entre os “intelectuais evangélicos”. Assim, me recuso veementemente a responder interações que sejam baixas e pequenas. Em contrapartida, terei um enorme prazer em interagir com as críticas que chegarem seguindo o padrão da decência. Em nenhum momento a minha intenção foi ofender ou ser desrespeitoso com os integrantes da TMI. Apenas critiquei ideias, pois acredito que ideias influenciam, sim, a Práxis. Se alguém se sentiu ofendido, peço perdão. De forma alguma desejei tirar a paz de seu coração.

“acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição” (Efésios 3.14)



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RESPOSTA DE FELIPE FONTES AO ARIOVALDO RAMOS:

 Ultimas palavras, por enquanto...
teólogo filosofia
Tenho optado por não entrar em debates pela internet. Além da falta de tempo que assola a todos nós, me sinto incomodado pelo fato de que debates teológico-acadêmicos se transformam muito rapidamente em troca de acusações neste veículo. Lamentavelmente, já tenho visto isto acontecer neste debate também, embora não generalizadamente. A carta aberta escrita pelo Pr. Ariovaldo Ramos – a quem agradeço pela maneira tão gentil e fraterna com que escreveu – apresenta, por exemplo, um tom bem diferente.

Este post não é, definitivamente, uma mudança de postura. Não pretendo desenvolver um debate virtual. Não por que não seria agradável participar de uma conversa gentil, mas por que o tempo e esforço exigido, e as brigas que provoco sem querer me cansam em demasia para as atividades ministeriais. Se eu continuar entendendo ser relevante, publicarei sobre o assunto no futuro em algum lugar – é assim que concebo o debate acadêmico. Este post tem apenas o objetivo de fazer considerações que gostaria de ter feito no programa, mas que não pude fazer pela exiguidade de tempo e pelas limitações do veículo. Possivelmente serão minhas últimas no momento.

1) Há um esforço por relacionar a ideia de “Missão Integral” com uma teologia ortodoxa. Mas, na prática teólogos de várias tendências diferentes se apropriaram e fazem uso dela no Brasil atualmente; desde teólogos que defendem a inspiração, inerrância e infalibilidade da Bíblia, até aqueles que duvidam da possibilidade de qualquer conhecimento objetivo de Deus, reputando-o como autobiográfico, o que é próprio do liberalismo clássico. Por isso, creio que definir MI é hoje uma tarefa bastante difícil.

2) Esta apropriação por parte de tendências teológicas tão diferentes somente é possível pela falta de comprometimento radical da MI com uma tradição teológica de pensamento. Guilherme de Carvalho, no artigo intitulado A missão integral na encruzilhada: Reconsiderando a tensão no pensamento teológico de Lausanne, na obra Fé cristã e cultura contemporânea, publicada em 2009 pela Ultimato, já denunciou esse problema. Ao que parece, a MI parece ser uma postura prática que tem recebido conteúdo teológico a posteriori. Ou seja, ao invés de caminhar da teologia para a prática, promove um movimento inverso.

3) Embora carregue o adjetivo integral, a MI tem se mostrado pragmaticamente reducionista. Até mesmo alguns de seus proponentes no Brasil reconhecem isso, ao mesmo tempo em que procuram defender que esse reducionismo seria uma espécie de desvio. Para mim ele parece ser consequência natural de seu método dialético (apontado por Ricardo Gondim em sua tese de doutoramento publicada em 2010 pela Fonte editorial, com o título: Missão Integral: Em busca de uma identidade evangélica), sobretudo da escolha do materialismo histórico como parceira de diálogo.

4) Se a MI nasce marxista, eu não estou totalmente à vontade para afirmar. Se a MI é toda marxista, também não. Mas que há traços de marxismo em seu desenvolvimento e que o que temos recebido mais recentemente no Brasil e tem se tornado mais popular está marcado por tal influência, creio ser facilmente perceptível. Como eu afirmei no programa, vejo 4 relações entre as duas coisas:

a) Semelhança histórica: A MI surgiu no período de profundo florescimento do pensamento esquerdista na América Latina e foi desenvolvida no seio de movimentos e organizações que forjaram também perspectivas teológicas claramente comprometidas com um ideário materialista histórico, como a Teologia da Libertação. Por exemplo: FTL (Fraternidade Teológica Latino Americana) e ISAL (Igreja e Sociedade na América Latina).

b) Semelhança metodológica: Constantemente se ouve, atrelado à MI o discurso da necessidade de uma teologia regional, brasileira, tupiniquim, à parte da tradição teológica europeia-norte americana que recebemos. Esse discurso antitradicionalista de rompimento com a tradição é muito semelhante ao do próprio Marx, que nas Teses contra Feuerbach, incluídas depois na Ideologia Alemã, afirma que os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; enquanto o que importa é transformá-lo.

c) Semelhança terminológica: Proponentes da MI no Brasil costumam aplicar ao Novo Testamento, de maneira mais direta ao ministério de Cristo, termos academicamente cristalizados como marxistas, como alienação, revolução, ideologia, subversão, dentre outros.

d) Semelhança de ênfase conceitual: Não é incomum também encontrarmos em textos e falas dos proponentes mais conhecidos da MI no Brasil atualmente, uma ênfase nos impactos econômicos da obra de Cristo e de seu reino. Em algumas ocasiões a ideia de que o Reino produz transformações de cunho econômico é quase que uma constante exclusiva.

5) Embora eu não negue momentos de verdade no marxismo, ele é fundamentalmente antagônico ao cristianismo, enquanto cosmovisão. Primeiramente, por que é materialista. Isto é, ignora qualquer dimensão transcendente. Segundo, por que sendo materialista, reduz a dinâmica da vida humana às suas relações socioeconômicas, localizando nesse nível: criação, queda, e redenção. Correndo o risco de imprecisões: enquanto o cristianismo localiza a origem do homem em Deus, o marxismo a localiza na produção. Enquanto o cristianismo localiza a queda na quebra da relação do homem com Deus, o marxismo a localiza na opressão de um modelo econômico. Enquanto o cristianismo localiza a redenção na reconciliação com Deus por meio de Cristo, o marxismo a concebe como a instauração revolucionária de um modelo econômico. Qualquer tentativa de síntese do cristianismo com uma perspectiva tão religiosamente comprometida, dificilmente passa ilesa. É aqui que, na minha opinião, nasce o reducionismo.

6) Criticar um determinado paradigma não significa ignorar eventuais problemas que ele tenha levantado, nem mesmo eventuais contribuições que ele tenha a oferecer. Creio que a MI levanta um problema real: precisamos de uma concepção de missão que tenha um impacto mais abrangente. Creio também que a MI tem uma contribuição efetiva: chamar nossa atenção para a necessidade de considerar dentro dessa concepção de missão o papel social da igreja e a preocupação com o pobre – isto é legítimo. Mas, pela razão apresentada acima, não creio que ela poderá nos fornecer uma concepção efetivamente integral, pelo menos nos caminhos trilhados mais recentemente no Brasil.

7) Creio que nós, cristãos tradicionais, devemos ser não apenas reativos, mas também propositivos. Sendo assim, defendo que precisamos pensar numa alternativa para essa questão da missão da igreja e seu impacto cultural. Primeiramente, precisamos de uma perspectiva evangélica, ou seja, que considere a centralidade do evangelho na missão da igreja. Em segundo lugar, precisamos fazer isso dentro de um escopo teológico mais amplo. Precisamos da tradição! Por fim, precisamos de criatividade. Creio que não daremos respostas satisfatórias simplesmente reproduzindo modelos. Nossa realidade é muito específica, e requer que façamos um exercício criativo de aplicação dos princípios do evangelho e de uma tradição de pensamento. Minha sugestão é de que bons insights podem ser encontrados no neocalvinismo holandês – movimento liderado por Abraham Kuyper no fim do século XIX. Creio que ele conjuga bem tradição e aplicação criativa e pode ser muito útil enquanto inspiração pra nós.

8) Dentre as perguntas que recebi ontem, alguém mais prático me perguntou: você acha que uma igreja deve abrir uma creche? Segue a resposta:

Para mim, nenhuma igreja (comunidade local) deve sentir-se tão culpada por não ter aberto uma, quanto por não preparar bem seus membros no poder do Evangelho para viver a vida cristã de modo impactante em todas as esferas da vida. E nenhuma igreja deve sentir-se satisfeita simplesmente por ter uma, se esta não estiver a serviço de sua tarefa primeira: a de proclamação do evangelho de Cristo. Uma igreja deve fazer mais do que abrir uma creche. Ela deve fazer assistência social evidenciando por que faz e transformando o modo de fazer. Deve mais que abrir uma escola. Deve usar sua escola como meio de submeter a educação ao senhorio de Cristo. Deve mais que ter um grupo de teatro. Deve transformar o modo como a arte é feita e experimentada no lugar onde ela está inserida.

A todos os leitores, meu grande abraço.

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