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OBJEÇÕES ÀS DOUTRINAS DOS DECRETOS E DA PREDESTINAÇÃO DE DEUS (parte 1) - por Samuel Falcão


A doutrina dos decretos de Deus e especialmente a da pre­destinação têm enfrentado muitas objeções. Vamos considerar as mais importantes.

1. A primeira e mais importante objeção contra estas doutri­nas é a que se refere à harmonia entre a soberania de Deus e o livre arbítrio ou livre agência do homem. 

Antes de prosseguir, é necessário definirmos o sentido de liberdade. De acordo com o ponto de vista arminiano ou indeterminista, liberdade significa a capacidade de escolha contrária. Os arminianos ensinam que, para ser responsável como ser mo­ral, o homem precisa ser livre em suas decisões. Ensinam, igualmente, que, por causa do pecado, o homem precisa do auxílio da graça divina, para levá-lo a aceitar a Deus, porém até neste caso Ele tem o poder de dizer “Não” a Deus, resistir à atuação de Sua graça e anulá-la, de modo que, se for condenado, é o único culpado. 

O ensino de Calvino, a este respeito, é que foi somente antes da Queda que o homem teve esse poder de escolha contrária en­tre o bem e o mal; que foi somente então que ele teve livre arbí­trio, no sentido arminiano ou indeterminista. Ensina que depois da Queda o homem perdeu esse livre arbítrio. Por causa disto ele prefere não usar o termo livre arbítrio para descrever a livre agência do homem. Afirma que o homem ainda tem uma vontade, porém não livre, em vista de estar escravizado à sua natu­reza corrompida. Não tem mais poder de escolha entre o bem e o mal e, portanto, não tem poder de escolher a Deus, o céu, e a santidade. Leiamos o que ele escreveu sobre o assunto:

“Admitido isto, ficará fora de qualquer dúvida que o homem não possui livre arbítrio para boas obras, a não ser que seja assistido pela graça, e essa graça especial concedida aos eleitos na regeneração”.1 

E mais: 

“Dir-se-á que o homem possui livre arbítrio neste sen­tido, não o de ter capacidade de escolher livre e igual­mente o bem e o mal, mas porque faz o mal voluntaria­mente, e não por coação. Isto, com efeito, é muito ver­dade. Mas que adianta enfeitar uma coisa tão diminuta com um título tão pomposo? Bonita liberdade, esta: o homem não é compelido a servir ao pecado, mas é um escravo por tal forma voluntário que sua vontade se mantém na servidão, agrilhoada por esse pecado”.2

Como vemos, Calvino abstêm-se de empregar o termo livre arbítrio com referência ao homem caído, porque embora seja certo que esse homem não é coagido em sua vontade, fazendo o mal “voluntariamente”, “sua vontade se mantém em servidão, agrilhoada pelo pecado”. 

A mesma posição é mantida por Lutero, em seu livro O Cati­veiro da Vontade. Disse ele: 

“Quando se admite e estabelece que o Livre Arbítrio, havendo uma vez perdido sua liberdade, é compelido ao serviço do pecado, e nada pode querer de bom, poço compreender daí que Livre Arbítrio é nada mais do que uma expressão oca, cuja realidade se perdeu. E liberdade perdida, de acordo com a minha gramática, não é absolutamente liberdade”.3

Calvino, entretanto, não negou que o homem, depois da Queda, ainda tivesse vontade, não porém vontade livre (livre arbítrio). Disse ele: 

“À vontade, conseguintemente, está presa por tal for­ma à escravidão do pecado que não pode desvencilhar-se dela, muito menos dedicar-se a qualquer bem. Porque tal disposição é o começo de conversão a Deus, a qual as Escrituras atribuem exclusivamente à graça divina... Não obstante, ainda resta a faculdade da vontade, a qual com gosto fortíssimo inclina-se e corre para o pe­cado. Porque, submetendo-se o homem a essa força ine­vitável, não se priva de sua vontade, senão que da sa­nidade da mesma. Bernardo observa com propriedade que todos nós temos um poder de querer; mas querer o bem é vantagem, querer o mal é defeito. Por isso, o simples querer pertence ao homem; querer o mal per­tence à natureza corrompida; querer o bem pertence à graça”.4

Podemos ver, pois, que a definição que Calvino apresenta de livre arbítrio é indeterminista. Para ele livre arbítrio é o po­der de escolha contrária, e esta, somente Adão teve, antes da Queda. Agora o homem é livre apenas no sentido de não ser coa­gido por força externa, nas suas decisões, agindo voluntariamente segundo as inclinações de sua natureza corrompida. 

A Confissão de Westminster e alguns calvinistas mais re­centes, porém, fazem um conceito diferente de livre arbítrio, atribuindo-o ao homem, mesmo em seu estado de queda. Veja­mos o que diz a Confissão sobre o assunto: 

“Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e san­to conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou con­tingência das causas secundárias, antes estabelecidas”. (Cap. III, § 1).

E ainda: 

“Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para p mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza”. (Cap. IX, § 1).

Em confirmação dessa declaração, a Confissão cita Dt.30:19; Jo.7:17; Ap.22:17; Tg.1:14 e Jo.5:40. Tanto a declaração acima transcrita como as citações bíblicas parecem in­dicar que a Confissão de Fé entende livre arbítrio no sentido de poder de escolha contrária, atribuindo-o ao homem, mesmo em seu estado de queda. Por causa disto alguns teólogos pensam que a Confissão é dialética em sua teologia sobre o assunto em foco. Mas o teor geral da Confissão mostra não querer dizer que o homem tem liberdade no sentido de ter poder de escolha con­trária, mas no sentido de não ser coagido por força externa em suas decisões. Ele age de acordo com a sua natureza e suas in­clinações e, portanto, é livre e responsável no que faz. Citando Tiago 1:14, nesta conexão, a Confissão indica ser este o sentido em que emprega o termo livre arbítrio. “Cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz” (Tg.1:14). De­mais disso, a Confissão sustenta claramente esta posição no § III do Cap. sobre o Livre Arbítrio (Cap. IX): 

“O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio po­der, converter-se ou mesmo preparar-se para isso”. (Cap. IX § 3). 

O sentido da Confissão a respeito deste assunto é apresen­tado pelo Dr. A. A. Hodge, como segue: 

“Quanto ao presente estado ao homem, nossos padrões ensinam (1) que ele é um agente livre, e capaz de que­rer como de um modo geral quer. (2) Que é igualmente capaz de desobrigar-se de muitos de seus deveres que decorrem de suas relações com o próximo. (3) Que sua alma, em razão da queda, estando moralmente corrompida e espiritualmente morta, e seu entendimento estando espiritualmente cego e seus afetos pervertidos, ele ficou “totalmente indisposto, incapacitado e adverso a todo o bem e inteiramente inclinado a todo o mal”. Conf. de Fé. Cap. VI, § 4, e Cap. XVI § 3; Cat. Maior, Pergunta 25).”5 

Concordamos com esta interpretação e, por consequência, toda vez que empregamos o termo liberdade ou livre arbítrio significamos, com referência ao homem em seu estado de queda, liberdade de agência. O homem age sem coação, naquilo que faz, de acordo com a sua natureza e tendências, e portanto é responsável. 

Consideremos o que Paulo diz sobre isto em Fp 2:12,13. No v.12: “Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só a minha presença porém muito mais agora minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor”. É verdade que ele aí fala de obediência e, portanto, de santificação, isto é, salvação do domínio de nossos pecados, na qual precisamos cooperar com o Espírito de Deus. Mas o fato é que ele apela para a vontade e ação daqueles crentes. "Desenvolvei a vossa salvação". Se Paulo tivesse parado aí, pensaríamos que essa obediência dependia inteiramente da vontade e esforços deles. No verso seguinte, no entanto, imediatamente depois de declarar o que acabamos de ler, o apóstolo acrescenta, “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”. Isto mostra que, em última aná­lise, nossa vontade, quando bem dirigida, está sob o controle do poder de Deus. A mesma coisa se ensina em Hb 13:20,21, onde lemos, “Ora, o Deus da paz... vos aperfeiçoe em todo bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele”. De acordo com a exortação de Paulo, na passagem de Filipenses, precisamos desenvolver nossa sal­vação do domínio do pecado, e nesta luta contra nossas tendên­cias herdadas e contra nossos velhos hábitos, precisamos natu­ralmente de depender de nossa vontade. Não podemos realizar nada se não queremos, a não ser que sejamos coagidos. Temos, porém uma natureza corrompida, nosso velho homem ainda está em nós, e assim nossa vontade naturalmente nos compele e ar­rasta em direção errada. Quando, pois, contra nossa natureza pecaminosa, queremos o bem e o realizamos, é realmente Deus que opera em nós “tanto o querer como o realizar”. Como Paulo disse em Rom. 8:2, “A lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte”. Ora, se depois de nossa regeneração e conversão ainda precisamos que Deus exerça seu poder sobre a nossa vontade, para que façamos “o que é agradável à sua vista”, que pode fazer o homem antes que o milagre da regeneração se opere em sua alma? 

Antes da regeneração éramos “filhos da desobediência”, e então o “príncipe das potestades do ar” era quem operava em nós (Ef.2:2). O mesmo verbo que Paulo emprega em Fp.2:13 relativamente à atuação de Deus sobre a vontade do crente, emprega em Ef.2:2 concernente à atuação de Satanás sobre o incrédulo. Antes que a pessoa se converta, sua vontade está sob a direção de Satanás, sob o poder do mal. Depois de sua con­versão, está sob a direção do Espírito de Deus. 

Cremos que a vontade do homem é produto de seu caráter, e desde a Queda esse caráter é pecaminoso. Pecado é rebelião contra a vontade de Deus, ou desobediência às suas leis, que são expressões de sua vontade. Paulo chama esta natureza pe­caminosa do homem “carne”, e afirma que “ela não se sujeita à lei de Deus, nem de fato é possível que se sujeite”. Portanto, visto como a vontade do homem é por natureza contrária à de Deus, a salvarão, um de cujos aspectos é reconciliação com Deus (2Co.5:18-20), não se pode realizar enquanto Deus não modifique nossa natureza e faça que a nossa vontade entre em acordo com a sua. É interessante observar que Paulo fala de reconciliação com Deus depois de afirmar que “se alguém está em Cristo, é uma nova criatura”. Ao mesmo tempo vale notar que o processo dessa reconciliação parte de um apelo de Deus ao homem, a toda a sua personalidade, inclusive naturalmente sua vontade, que é uma expressão dessa personalidade. “De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus” (2Co.5:20). 

Jesus disse, que “todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34). Todos os homens são pecadores: portan­to, todos são escravos do pecado. Somente Cristo pode libertá-los mediante o conhecimento de sua verdade. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” (Jo 8:32,36); Antes da Queda o homem podia escolher entre o bem e o mal. É este o sentido da prova pela qual passou depois de haver sido criado. Deus colo­cou diante dele duas alternativas, chamadas na Bíblia “o conhe­cimento do bem e do mal”. Há dois métodos de se conhecer o bem e o mal: é o método de Deus e o método de Satanás. O mé­todo divino de se conhecer o bem é a experiência, e o de se co­nhecer o mal é o contraste. O método de Satanás é de se conhe­cer o mal pela experiência, e o bem pelo contraste. Escolhendo o método de Satanás de conhecer o bem e o mal, o homem de­cidiu qual séria a inclinação de seu caráter, que desde então se tornou pecaminoso, isto é, contrário a Deus e a todo o bem. O céu, para o homem sem regeneração, seria um inferno. Se a pessoa nenhum prazer sente em ir à igreja, aqui na terra, se não experimenta nenhuma alegria em adorar a Deus agora, tal prazer ela não terá no céu. 

O ensino calvinista, portanto, acerca da liberdade é que o homem é livre no sentido de ser capaz de escolher o que está de acordo com a sua natureza corrompida. E isto ele faz vo­luntariamente, espontaneamente, sendo por isso responsável pelo que pratica. Se Deus é livre quando, de acordo com a sua natu­reza, só escolhe o bem, o homem é também livre no sentido de­terminista, e conseguintemente responsável quando, de acordo com a sua natureza corrompida, só escolhe o mal. Um porco é livre na escolha da lama, mas não o é para escolher o que é limpo, porque isto vai de encontro à sua natureza. E assim, quando um pecador, que aparentemente se converteu, volta permanentemente à sua vida velha de pecado, é como “a porca lavada” que volta “a revolver-se no lamaçal” (2Pe 2:22). 

Com referência a este fato Calvino escreveu: 

“Portanto, se uma força inevitável de fazer o bem não enfraquece a liberdade da vontade divina em fazer o bem; se o demônio, que só pode fazer o mal, apesar disso peca voluntariamente; quem pois afirmará que o homem peca menos voluntariamente por estar sob uma força inevitável de pecar?”6 

Escrevendo sobre Liberdade e Determinismo em seu livro Nature, Man, and God, o Dr. William Temple alude à doutrina de Agostinho sobre a vontade, nos seguintes termos: 

“Santo Agostinho, tanto quanto eu saiba, foi o primeiro a perceber esta verdade (isto é, que a vontade é a expressão da personalidade completa) e sua influência na Europa, que mais frutos produziu, teve sua origem nessa percepção. Numa passagem sua muito conhecida, a que já fiz alusão, ele pergunta por que é que quando quero mover minha mão, esta imediatamente se move, ao passo que quando desejo querer o bem minha vontade fica paralisada. Sua resposta é que no segundo caso eu não quero de modo completo, porque se eu já queria o bem não preciso desejar querê-lo; se eu desejo querê-lo, isso prova que eu não quero de modo completo. Noutras palavras, embora a vontade possa em larga escala dirigir meu corpo ela não pode em dado momento dirigir-se a si mesma. Ela é o que é. Se ela se entrega a ambições egoísticas ou a prazeres carnais, este mesmo fato impede-a de mudar de direção; ela não pode mudar porque não quer mudar; se o quisesse, isso em si já seria a mudança. Naturalmente pode haver uma vontade muitíssimo sincera de mudar, pias isso é diferente; é algo que se pode tornar uma parte integrante de uma vontade para o bem; mas enquanto estiver também presente qualquer forma de; desejo de gozar o mal, com força propulsora aproximada do desejo do bem, há apenas dois desejos incompatíveis. e nenhuma vontade real ou eficaz”.7 

Se isto é correto, como creem os calvinistas, o homem pre­cisa experimentar uma transformação completa de seu caráter e, pois, em sua vontade, antes de poder aceitar a Cristo e seguí-LO. Esta transformação é o que a Bíblia chama regeneração ou novo nascimento. E quando Deus cria o homem novamente, para a nova vida, faz que ele deseje o bem, sem constranger sua natureza, porém dando-lhe realmente uma nova natureza com novos impulsos e desejos. É a esta experiência que Pedro se refere, quando diz, “Pelo seu divino poder nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conheci­mento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas pre­ciosas e mui grandes promessas para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo” (2Pe 1:3,4). 

Antes da Queda o homem era, por assim dizer, neutro. Tendo escolhido o mal, deu certa direção ou tendência à sua natureza e, portanto, à sua vontade. Ora, pela regeneração, Deus imprime nova tendência à natureza do homem e, por con­seguinte, à vontade dele, de sorte que quando o crente peca, por causa da fraqueza da carne, peca contra a vontade, e na reali­dade não precisa sujeitar-se mais ao pecado, se vive na nova esfera da vida espiritual. Como Paulo disse, “Se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e, sim, o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, te­nho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisio­neiro na lei do pecado que está nos meus membros” (Rm.7:20,23) Dentro de nós lutam entre si o homem velho e o homem novo. Mas um dia o crente ficará completamente livre da presença do pecado, e será como Cristo que não pode pecar. “Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, por­que havemos de vê-lo como ele é” (1Jo 3:2). 

Nesta conexão vale a pena citar a seguinte declaração de Mozley: 

“O mais alto e perfeito estado da vontade é um esta­do de necessidade; e o poder de escolha, longe de ser essencial a uma verdadeira e genuína vontade, é sua fraqueza e defeito. Que maior sinal pode haver de um imperfeito e imaturo estado da vontade do que, ante o bem e o mal, ter de ficar hesitante entre um e ou­tro?”8

Como já foi declarado, os arminianos reconhecem que a vontade do homem necessita da assistência da graça de Deus, para ajudá-lo em escolher e seguir a Cristo. Mas ensinam tam­bém que a vontade do homem é capaz de se opor a essa influ­ência da graça de Deus e de vencê-la, de modo que, em última análise, é o homem quem decide seu destino eterno. É verdade que o homem sempre resiste à influência do Espírito de Deus, e isto por causa de sua natureza pecaminosa. Foi esta a lição do mundo antediluviano. O Espírito de Deus contendia com aque­la gente, mas eles o resistiam, de modo que por fim Deus de­clarou, “Meu Espírito não contenderá para sempre com o ho­mem” (Gn 6:3). E por que resistiam? Por causa da natureza deles corrompida, assim descrita, “Era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn.6:5). Através das eras o Espí­rito de Deus vem lutando com o homem, e o homem sempre a Ele resistiu. Todavia assim não acontece com os regenerados, porque estes, mediante uma intervenção miraculosa de Deus, são criados de novo para a vida espiritual. Os irregenerados re­sistem porque têm uma natureza pecaminosa, avessa a todo o bem. Os regenerados não podem resistir porque recebem de Deus uma nova natureza que aprecia o bem e a santidade. A essa nova natureza, que em nós luta continuamente contra o velho homem, João se refere, ao dizer, “Todo aquele que é nas­cido de Deus não vive na prática do pecado pois o que perma­nece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecan­do, porque é nascido de Deus” (1Jo 3:9). João não está falan­do aí do nosso velho homem, que não é nascido de Deus, e sim do nosso novo homem, nascido de Deus. Este “homem interior”, como Paulo lhe chama, não é criação nossa, mas criação do Es­pírito de Deus. Esta é a razão por que os calvinistas distinguem entre graça comum e graça especial. O homem sempre resiste a graça comum de Deus, mas, não pode resistir sua graça especial pela qual é feito nova criatura. Significa isto que o homem é constrangido a aceitar a Deus? Absolutamente não. Ele não podia aceitá-LO por causa de sua cegueira. Deus, porém restaurou-lhe a visão. Não podia aceitá-LO por se achar morto espiritualmente. Deus, porém fê-lo reviver. E depois dessa trans­formação maravilhosa, ele aceita e segue a Deus espontanea­mente. Foi isto exatamente o que Cristo ensinou, quando dis­se, “Vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como vos disse. Minhas ovelhas ouvem minha voz e eu as conheço, e elas me seguem”, e naturalmente O seguem voluntária e ale­gremente. 

“O poder pelo qual a obra da regeneração se efetua não é de natureza externa ou compulsória. O homem não é tratado como se fosse uma pedra ou um pau. Nem como se fosse um escravo, compelido contra sua própria vontade a procurar a salvação. Antes sua mente é iluminada, e todos os seus conceitos a respeito da Deus, de si, do pecado, são mudados. Deus envia o Seu Espírito e, de um modo que para sempre redundará no louvor de sua misericórdia e graça, suavemente constrange a pessoa a render-se. O homem regenerado vê-se governado por novos motivos e desejos, e coisas que antes aborrecia agora as ama e procura. Esta mudança não se efetua por nenhuma compulsão externa, mas por um novo princípio de vida que lhe foi criado na alma e que procura o único alimento que pode satisfazê-la”.9 

Assim como Deus não constrange a vontade do homem na regeneração, do mesmo modo não a constrange quando leva o ímpio a cumprir seus planos. Este fato já foi provado quando consideramos o caso de José, filho de Jacó; o caso dos assírios e babilônios; o caso de Ciro; e especialmente o caso dos assas­sinos de Cristo. Estes últimos, por exemplo, foram livres e responsáveis pelo que fizeram, de modo que Pedro os acusou. Mas ao mesmo tempo realizaram o que fora decidido “pelo de­terminado desígnio e presciência de Deus” (At 2:23). Eles “se ajuntaram... para fazer tudo” o que a “mão” de Deus e o seu “propósito” “predeterminaram” (At 4:27,28). Como pode Deus fazer que o homem proceda livre e espontaneamente nes­tes e noutros casos? Não o sabemos bem. Sabemos, porém, que Deus compreende o coração humano melhor do que nós, e sabe exatamente como agimos em certas circunstâncias. Sabemos, outrossim, que é Deus quem cria as circunstâncias. Há na Bí­blia um texto que dá uma idéia do método de Deus dirigir o homem a fazer o que Ele tem determinado, sem constrangê-lo, e portanto sem torná-lo irresponsável. “Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina” (Pv.21:1). Note-se que o coração do rei é comparado aí a “ribeiros de águas”. A água, por natureza, flui de um nível mais alto para outro mais baixo. Quando que­remos levá-la para algum lugar mais baixo, a única coisa a fa­zer é cavar uma vala, e então a água corre naturalmente para o lugar que desejamos. Não a obrigamos a correr; é de sua natureza fazer assim. É isto o que Deus faz com o coração do homem. Conhecendo-lhe a natureza, cria as circunstâncias nas quais ele toma determinada direção, sem nenhuma coação. Mas isto é apenas uma ilustração. O fato é que não compreendemos de modo completo este assunto misterioso. 

“A onipotência divina combinada com a onisciência de um lado, e o livre arbítrio humano do outro, pare­cem de fato idEias incompatíveis à razão do homem. Contudo, somos compelidos a tornar em consideração ambas as coisas — uma à base não apenas do ensino bíblico, mas igualmente do conceito que fazemos do Ser Divino; a outra à base não somente do nosso con­ceito de Justiça Divina, mas igualmente de nossa per­cepção íntima, irresistível e do ensino bíblico tam­bém. Essa dificuldade de reconciliação de duas idEias aparentemente necessárias não é peculiar à teologia. A filosofia tem-na também. Há necessitários entre os filósofos, tanto quanto predestinacianistas entre os teó­logos, igualmente a contradizerem a percepção ínti­ma, irresistível do homem de possuir o poder de es­colha. Só podemos considerar os conceitos em choque como apreensões parciais de uma grande verdade que, de um modo geral, está além de nosso alcance. A apa­rente contradição entre eles pode ser devida ao fra­casso de seres finitos compreenderem o infinito. Têm sido comparados a duas linhas retas paralelas, que de acordo com a definição geométrica nunca se encontram e, contudo, segundo teoria matemática mais ele­vada, encontram-se no infinito. Ou podemos ilustrá-los com uma assíndota, que de um ponto de vista finito jamais pode atingir uma curva, e todavia, em geo­metria analítica, atravessa-a a uma distância infini­ta”.10 

Como já foi declarado, a Bíblia tanto afirma a soberania de Deus como a livre agência do homem. Por exemplo, em Dt.10:16 apela-se ao povo de Israel para que circuncide seus cora­ções, quando em Dt.30:6 lemos que é Deus quem circuncida ou regenera seus corações. Cf. Jer.4:4 e 24:7. Temos boa ilustração deste fato na cura do paralítico junto ao tanque de Betesda (Jo.5:1-9). Ao lado do tanque estava “uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos”. Jesus, no entanto, não curou todos, mas escolheu um dos paralíticos para esse fim. Isto é eleição. Contudo, não o curou contra a vontade dele. Antes de curá-lo, perguntou, “Queres ser curado?” Foi um apelo à vontade do homem. 

A regeneração, por exemplo, tem dois aspectos — um pas­sivo e outro ativo. O aspecto passivo é o que chamamos propria­mente regeneração; ao ativo chamamos conversão. O Dr. Strong escreve: 

“Faz-se necessário distinguir entre o aspecto passivo e o ativo da regeneração, como veremos, devido ao método duplo de a Escritura representar essa mudança. Em muitas passagens ela é atribuída inteiramente ao poder de Deus. A mudança opera-se na disposição fun­damental da alma; não se faz uso de meios. Em ou­tras passagens encontramos essa verdade referida co­mo agência do Espírito Santo, e o espírito age em face da mesma. A distinção entre estes dois aspectos da regeneração parece sugerida em Ef.2:5,6 — “deu-nos vida juntamente com Cristo” e “com ele nos res­suscitou”. Lázaro precisou primeiro ser vivificado, e nisto ele não cooperou; mas precisou também sair do túmulo, e nisto ele exerceu atividade” 11 

Encerremos esta secção com palavras do Dr. Archibald Alexander: 

“O Calvinismo é o sistema mais vasto. Encara a sobe­rania divina e a liberdade da vontade humana como os dois lados de um teto, que se encontram na cumeeira acima das nuvens. O Calvinismo aceita ambas as ver­dades. Um sistema que negue uma delas tem só uma banda do teto sobre sua cabeça”. 12 

Continua nos próximos dias...

NOTAS:

1. João Calvino, Inst. da Relig. Cristã, Livro II, Cap. II, § 6. 
2. Ibidem, Livro II, Cap. II § 7, II, III. 
3. Martinho Lutero, The Bondage of Will, p. 125, apud Boettner, Op. Cit. p. 213. 
4. João Calvino, Op. Cit., Livro II, Cap. III, § 5. 
5. A. A. Hodge, Commentary on the Confession of Faith, p. 224. 
6. João Calvino, Op. Cit., Livro II, Cap. III, § 5. 
7. William Temple, Nature, Man, and God, p. 234. 
8. Mozley, The Augustinian Doctrine of Predestination, apud L. Boettner, op. cit., p. 216 
9. L. Boettner, op. cit., p. 178
10. J. Barby, Commentary on Romans, In the Pulpit Commentary, Series Additional Notes on Romans ch. 8, v. 29. 
11. A. H. Strong, Op. Cit., p. 364. 
12. Archibald Alexander, apud A. H. Strong, op. cit., p. 369. 


Fonte: FALCÃO, Samuel. Escolhidos em Cristo. 5º Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. pgs.: 131-145.  


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