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FUNDO

UMA IGREJA INDIFERENTE - por Leonardo Dâmaso



 TEXTO BASE: Ap 3.14-22

INTRODUÇÃO

 A carta de Jesus a igreja de Laodicéia é a carta mais severa de todas as outras cartas às igrejas da Ásia Menor. Esta carta não contém um elogio sequer de Cristo. Há somente críticas e duras palavras de exortação.

Michael Wilcock diz que a indiferença de Laodicéia é a pior condição em que uma igreja pode cair. A situação de Laodicéia é pior que a de Sardes onde, pelo menos, existia um fio de vida. A única coisa boa em Laodicéia é a opinião da igreja sobre si mesma e, ainda assim, completamente falsa.1

A igreja de Laodicéia representa duas verdades essenciais: 1) É a igreja que, na doutrina ou na prática, vive como se não tivesse a Cristo como Senhor. 2) É a igreja num todo, a igreja contemporânea, isto é, especificamente a igreja dos últimos dias que será apóstata e antecederá a segunda volta de Cristo (1Tm 4.1;  Tm 4.3-4; 1Pe 2.1-3).

EXPLANAÇÃO

1. INTRODUÇÃO A CARTA A IGREJA DE LAODICEIA (3.14)

a) O remetente e o destinatário da carta (vs.14a)

A palavra “anjo, no grego, άγγελος (aggelos) significa mensageiro, aquele que anuncia ou ensina algo. Neste caso se refere ao pastor da igreja em Laodiceia”.2 Conforme é descrito na passagem, Jesus instruiu João a escrever uma breve carta destinada ao pastor da igreja em Laodicéia.

APLICAÇÃO PRÁTICA 

Foi o Senhor Jesus que instituiu o pastor a responsabilidade de ser o líder da igreja (Ef 4.11). O pastor deve ser o exemplo eminente de um homem de Deus para que igreja possa nortear a sua vida cristã no temor do Senhor (Hb 13.7). Se o pastor falha em ser um bom exemplo, tanto ele quanto a igreja estão à mercê de grande ruína.  Esta carta é destinada primeiramente ao pastor da igreja de Laodicéia e também aos pastores hodiernos. Como líder de um povo, o pastor tem maior responsabilidade e precisa urgentemente rever os seus conceitos, as suas falhas, seus pecados, se arrepender amargamente deles e se consertar com Deu. Em seguida, depois de restaurado, convocar a igreja ao arrependimento e a se consertar também

b) O contexto da cidade de Laodiceia (vs.14a)

No mundo antigo, havia seis cidades que se chamavam Laodicéia, e a que se menciona no Apocalipse, para distingui-la das outras, se chama Laodicéia sobre o Licus (que era um rio onde esta cidade ficava as suas margens).

Esta cidade foi fundada cerca do 250 a.C. por Antíoco da Síria, que dera o nome de sua esposa Laodiceia a cidade.3 Laodiceia era importante pela sua localização. Ficava no meio das grandes rotas comerciais. Era uma cidade rica e opulenta. 

Laodicéia era uma das cidades mais ricas do mundo antigo. Era o lar dos milionários. “Na cidade havia teatros, um estádio e um ginásio equipado com ba­nhos. Era a cidade de banqueiros e transações comerciais. William Hendriksen diz que esta cidade era tão rica que chegou a rejeitar a ajuda do governo após ter sido parcialmente destruída por um terremoto no ano 61 d. C”.  

Laodicéia era um grande centro de indústria de tecidos. Lá se produzia uma lã especial famosa no mundo inteiro. As ovelhas que pastavam nos arredores de Laodicéia tinham sua lã suave, de cor violeta escura. Se produzia lá mantos muito baratos. Uma de suas especialidades era uma túnica chamada trimita, pela qual alguns chamavam Trimitaria à cidade.

Havia também lá um centro médico muito famoso. Fabricava-se ali dois unguentos quase milagrosos para os ouvidos e os olhos. O pó frígio para fabricar o colírio era o remédio mais importante produzido na cidade. Esse colírio era exportado para todos os centros populosos do mundo.6

O nome Laodicéia é mencionado somente uma vez em todo o Novo Testamento em Colossenses 4.13. Por ser próxima da cidade de Colossos, há uma grande possibilidade de Epafras ter sido o fundador desta igreja (Cl 1.7; 4.12-13). Se observarmos ainda Colossenses 4.12-13, notamos que Paulo havia enviado uma carta à igreja de Laodiceia.

Não obstante, o apóstolo orienta aos colossenses para que a carta destinada a eles, (a igreja de Colossos) também fosse lida na igreja de Laodicéia, e, a de Laodicéia, também fosse lida na igreja de Colossos, fazendo, assim, um rodízio destas duas cartas nas igrejas.

Todavia, não há descrito em nenhuma das cartas de Paulo de que ele teria visitado a igreja de Laodicéia. É bem provável que após ter sido solto da sua prisão, em Roma, o apóstolo tenha visitado Colossos (Fm 22) e até mesmo Laodicéia, pois ambas eram cidades vizinhas.         

c) O caráter do Cristo glorioso (vs.14b)  

Jesus se apresenta a igreja de Laodicéia através de três aspectos que expressam a sua grandiosidade. A primeira expressão utilizada pelo Senhor para descrever a si mesmo é o amém. Simon Kistemaker ressalta que o amém traz a ideia daquilo que é verdadeiro e fidedigno.

É o “sim” enfático como uma resposta afirmativa a uma oração ou a conclusão de uma doxologia (Rm 1.25; 9.5; 11.36; 16.27; Gl 618; Ap 1.7; 5.14; 7.12; 19.4). O amém veio a ser personificado no texto hebraico como o “Deus do Amém”, pela tradução, o “Deus da verdade” (veja Is 65.16; 2Cor 1.20).7 

A segunda expressão – a testemunha fiel e verdadeira são traduções do mesmo termo hebraico Amém. “As letras que formam esta palavra em Hebraico simbolizam três palavras: EL MELECH NEEMÁN, que traduzido é DEUS, REI, FIEL, a testemunha fiel e verdadeira”.8 Por fim, a terceira expressão que Jesus utiliza para descrever a si mesmo é o princípio da criação de Deus.

Via de regra, não devemos entender com esta afirmação que Jesus foi um ser criado por Deus como declara o arianismo . “A palavra grega αρχή (arche), traduzida como princípio, refere-se literalmente a Cristo como o iniciador ou a causa da criação”.9

Indubitavelmente, o que Jesus está enfatizando aqui é simplesmente a sua soberania na criação de todas as coisas na qual Ele tem todo controle (Jo 1.1-3; Cl 1.15-18; Hb 1.2). Portanto, a melhor tradução desta passagem seria a tradução das versões:

(NVI): Estas são as palavras do Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o soberano da criação de Deus.

(BJC): Eis a mensagem do Amen, a testemunha fiel e verdadeira, o governante da criação de Deus.

(NTLH): Esta é a mensagem do Amém, da testemunha fiel e verdadeira, daquele por meio de quem Deus criou todas as coisas.

2. A DESCRIÇÃO QUE CRISTO FAZ DA IGREJA DE LAODICÉIA (3.15-16)

Jesus aqui avalia e apresenta a condição espiritual em que a igreja de Laodicéia se encontrava. Senão vejamos:

a) Apatia espiritual (vs.15)

Jesus detecta indiferença na igreja. O termo obras, em suma, denota a condição espiritual da igreja em geral. Este termo aparece também nas outras seis cartas (2.2, 19; 3.1, 8). Não obstante, aqui, ele tem o mesmo significado que na carta à igreja de Sardes (vs.1), ou seja, expressa as obras pífias e insignificantes dos crentes da igreja de Laodiceia. Tanto para a igreja de Sardes e Laodicéia, Jesus acentua uma premente reprovação. George Ladd escreve:

A carta não menciona perseguições por funcionários romanos, dificuldades com os judeus ou qualquer tipo de falsos mestres dentro da igreja. Laodicéia era muito parecida com Sardes: um exemplo de Cristianismo nominal e acomodado. A maior diferença é que em Sardes ainda havia um núcleo que tinha preservado a fé viva (3.4), enquanto que toda a igreja de Laodicéia estava tomada pela indiferença. Provavelmente muitos membros da igreja participavam ativamente da alta sociedade, e esta riqueza econômica exerceu uma influência mortal sobre a vida espiritual da igreja.10
  
Simon Kistemaker complementa enfatizando que os poucos fiéis em Sardes eram como pedaços de lenha meio queimada sobre cinzas; os de Laodicéia não eram nem frio nem quente.11

b) Um contraste insofismável (vs.15-16)

O abastecimento de água em Laodicéia vinha das cidades vizinhas Hierápolis e Colossos por meio de um sofisticado sistema de arquedutos,12 que são tubos conectados a uma fonte distante.13 Hierápolis era famosa pelas primaveras quentes, e Colossos, pelo córrego de água fria, pura e refrescante vinda da montanha.14

Hierapólis, fornecia águas de qualidade medicinal para Laodicéia.15 Porém, quando as águas chegavam a Laodicéia "em seu curso sobre o planalto, tornava-se morna. Tanto as águas quentes de Hierápolis, como as águas frias de Colossos eram terapêuticas, mas as águas mornas de Laodiceia eram intragáveis".16

Vemos, aqui, que Jesus se utiliza da geografia da cidade de Laodicéia e elucida um contraste "entre as águas quentes medicinais de Hierápolis e as águas frias e puras de Colossos".17 Note que Jesus descreve a vida espiritual em três adjetivos: Morno, quente e frio.

William Barclay corrobora que a palavra morno, no grego ζεστός (jliaros), traz a idéia de algo que provoca náuseas. A palavra frio κρύο (psujros) significa frio ao ponto de congelamento. E a palavra quente καυτό (tsestos), significa quente até o ponto de ebulição.18 

O problema da igreja de Laodicéia não era teológico nem moral. Não havia falsos mestres, nem heresias. Também não há menção na carta de perseguidores. O que faltava à igreja era fervor espiritual. A vida espiritual da igreja era morna, indefinível e apática, diz Hernandes Dias Lopes.19

John Macarthur acentua que a igreja de Laodicéia não era nem fria, rejeitando abertamente a Cristo, e nem quente, cheia de zelo espiritual. Em vez disso, seus membros eram mornos, hipócritas que professavam conhecer a Cristo, mas que não pertenciam verdadeiramente a Ele.20

Champlin salienta que a mornidão dos Laodicenses se dava ao fato que sua fonte de satisfação e razão de vida estava fora de Cristo, embora também não se dispunham em rejeitá-lo aberta e decisivamente.21

Portanto, devido ao estado lastimável da igreja, Jesus diz que está a ponto de vomitá-la da sua boca. Ele não diz que vai vomitá-la, mas que está prestes ou irá vomitá-la. Vemos com isto a expressão da bondade, paciência e misericórdia de Jesus. Antes de vomitar a igreja, que indica executar o seu juízo, Ele espera que, após a leitura desta carta, os Laodicenses se arrependam de sua indiferença e decidam mudar. 
      
APLICAÇÃO PRÁTICA

 A vida cristã tépida provoca náuseas em Jesus! A indiferença espiritual é pior do que a frieza.22 Existem muitos cristãos que são ateus na prática. Agem como se Deus não existisse vivendo a vida tibiamente como a igreja de Laodicéia. Creem que Deus existe, mas o negam com suas vidas não praticando sua palavra. É bem mais autêntico ser um ateu frio e declarado, do que ser um cristão apático e incrédulo dentro da igreja.

Alguém que nunca fez uma profissão de fé e tem a consciência de sua completa falta de vida moral é muito mais fácil de ser ajudado do que alguém que se julga cristão, mas que não tem uma verdadeira vida espiritual.23 Um cristão morno não tem vida de oração. É inconstante. Não estuda as Escrituras. É pouco presente nas reuniões da igreja e não é ativo no serviço cristão. Este é o retrato do cristão que não é frio ou quente, e sim, morno!

3. A CENSURA DE CRISTO A IGREJA DE LAODICÉIA (3.17-18)

Depois de avaliar e apresentar a condição espiritual da igreja de Laodicéia, Jesus, agora, a reprova severamente.

a) Uma falsa confiança (vs.17-18)

Vemos aqui um Jesus inflexível com a igreja. Não obstante Ele a reprova asperamente por tamanha presunção e soberba. A igreja de Laodicéia era uma igreja rica. Eles pensavam que pelo fato de serem ricos materialmente, também eram ricos espiritualmente. Eles consideravam-se uma igreja grandemente abençoada!

Laodicéia era o lar das pessoas felizes e auto satisfeitas. Tinham tudo que o dinheiro pode proporcionar e não possuíam necessidade alguma, pois diziam: Somos ricos, estamos bem de vida e temos tudo o que precisamos(NTLH)

Parafraseando, era como se eles dissessem: Nós conquistamos tudo por nós mesmos! Porém, Jesus diz que esta felicidade e auto satisfação que possuíam eram falsas, e que, na verdade, eles eram infelizes e miseráveis, isto é, dignos de pena.  
     
Laodicéia tinha orgulho de sua riqueza por ter o maior centro bancário de toda Ásia Menor situado na cidade, que por sinal rendia muito dinheiro a cidade, ao comércio e aos trabalhadores em geral pelas importantes transações comerciais que ali eram feitas.

No entanto, diante de toda esta opulência, Jesus diz que os Laodicenses estavam enganados a respeito de si mesmos e que, na verdade, eram pobres espiritualmente. Eles não tinham Jesus como a sua riqueza! Laodicéia se orgulhava da mega indústria de tecidos que possuía e da roupa que fabricava, que era exportada para o mundo inteiro, mas, espiritualmente, diz Jesus, eles estavam nus.

Laodicéia tinha também um imenso orgulho do famoso colírio que produzia e exportava para todo o mundo como o remédio mais eficaz para doenças nos olhos. “No Oriente, as doenças nos olhos eram muito freqüentes, e eram causadas pela forte irradiação solar, por constante poeira, pela escassez de água e pela falta de higiene. Por isso havia muitos cegos naquela época”.24

Todavia, Laodicéia era cega, pois não via a luz de Cristo. Tinha o remédio para curar os outros, mas não podia curar a si mesma. Laodicéia não enxergava a sua própria desgraça diante de Cristo! Michael Wilcock escreve:

Em outras cidades da Ásia temos observado que o estado da igreja geralmente corresponde ao estado da cidade. Em Laodicéia, entretan­to, isso não se repete; há um contraste entre a cidade e a igreja. A igreja é a imagem da cidade revertida como em um negativo. Financistas, médicos e fabricantes de tecidos se encontram entre os cidadãos mais notáveis da cidade; porém a igreja é considerada infeliz, miserável, pobre, cega e nua.25

APLICAÇÃO PRÁTICA

O auto engano e a auto satisfação são uma tragédia. “Laodiceia considerava-se rica e era pobre. Sardes considerava-se viva e estava morta. Esmirna considerava-se pobre, mas era rica. Filadélfia tinha pouca força, mas Jesus colocará diante dela uma porta aberta. A igreja de Laodicéia enfrentou a tragédia de não ser o que se projetou ser e ser o que nunca se imaginou ser.”26  
     
Um cristão morno é assim. Ele pensa de si algo que não é diz: Sou um exemplo de cristão; quando, na verdade, está cego quanto a sua real condição. Um cristão assim está ao mesmo tempo iludido, enganado e satisfeito com aquilo que não é e com uma falsa realidade que não existe (Rm 12.11; 1 Ts 5.19).

Um cristão assim precisa nascer de novo; ser regenerado! Muitos no dia do juízo vão estar enganados quanto a si mesmos e serão surpreendidos pelo Senhor acerca da sua verdadeira identidade (Mt 7.21-23).

4. A DESCRIÇÃO DE CRISTO COMO UM MERCADOR ESPIRITUAL (3.18)

Laodicéia fora descrita por Cristo, agora, Ele descreve a si mesmo como um mercador espiritual. Senão vejamos o que esta seção tem a nos ensinar.
  
a) Um conselho amoroso (vs.18)

Após reprovar severamente a igreja de Laodicéia pela sua auto-suficiência, Jesus agora lhes dá um sábio e amoroso conselho. Cristo, utilizando a linguagem de mercado, se apresenta como um mercador espiritual. Jesus nesta passagem faz alusão a Isaías 55.1, que diz:

Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro e sem custo(NVI)

Jesus aqui está demonstrando a sua graça bendita a pessoas que diziam que não precisavam de nada, mas sobre a ótica do Senhor, não tinham nada e precisavam de tudo. Os Laodicenses eram na verdade mendigos espirituais. “Cristo, porém, está aconselhando as pessoas irem até Ele e comprarem.”27

Entretanto, Jesus oferece a sua mercadoria gratuitamente. Os Laodicenses não precisavam ter dinheiro para comprar o ouro, as roupas e o colírio para os olhos que Jesus estava vendendo, mas precisavam de um coração quebrantado, arrependido e convicto de seus pecados. Este era o “preço a pagar” para se obter estas mercadorias.

Hernandes Dias Lopes corrobora que o ouro que Cristo tem é o reino do céu. A roupa que Ele oferece são as vestes da justiça e da santidade. O colírio que Ele tem abre os olhos para o discernimento. Cristo está conclamando os crentes a não confiarem em seus bancos, em suas fábricas e em sua medicina. Só Cristo pode enriquecer a nossa pobreza, vestir a nossa nudez e curar a nossa cegueira.28 

APLICAÇÃO PRÁTICA

Os cristãos apáticos de hoje precisam comprar ouro, roupas e colírio, isto é, “comprar a salvação” genuína. Indubitavelmente se converterem! Hendriksen afirma que a salvação é ouro que enriquece (2 Co 8.9); é veste branca que cobre a nudez ou nossa culpa e reveste-nos com justiça, santidade e alegria no Senhor; é colírio que, quando possuído, não mais nos deixa cegos.

A salvação tem de ser com­prada, isto é, precisamos obter a justa posse dela. 29 Mas como nós, pessoas tão pobres, desprovidas e incapacitadas espiritualmente de buscar a Deus podemos comprar a salvação?

Isaías 55.1 – Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro e sem custo(NVI) A salvação é de graça e pela graça! Paulo diz em Romanos 10.9 que se confessarmos o Senhor Jesus (com genuíno arrependimento pelos pecados) e crermos de todo o coração que (Ele é o Senhor e que devemos viver para Ele) e que Deus o ressuscitou dentre os mortos, somos salvos(NVI)      

5. OS IMPERATIVOS DE CRISTO A IGREJA DE LAODICÉIA (3.19-20)

a) Um chamado ao arrependimento (vs.19)

Jesus aqui chama a igreja de Laodicéia a uma mudança de vida. Antes de executar o seu juízo vomitando a igreja, o Senhor demonstra a sua misericórdia repreendendo e disciplinando-a.

A expressão eu repreendo e disciplino aqueles a quem amo é um paralelo com Provérbios 3.12 e Hebreus 12.6, e indica que o amor e a disciplina caminham juntos para que sobrevenha o arrependimento.

“A palavra repreendo επίπληξη (elencho) significa aquela classe de repreensão que obriga necessariamente a reconhecer o erro e corrigi-lo. É falar com o pecador de tal maneira que este não tenha mais saída do que reconhecer e admitir o seu erro e corrigir sua vida e conduta”.30

Um exemplo clássico deste tipo de repreensão foi quando Natã confrontou Davi acerca do seu pecado de adultério e por ter planejado a morte de Urias para ficar com sua mulher, Bate-Seba (2Sm 12.1-14).

Em vista disso, Jesus repreende e disciplina a igreja com amor para que, depois do arrependimento, ela se voltasse com zelo amoroso para Deus. “A repreensão de Deus não é um castigo, mas sim uma iluminação”.31    

b) Um chamado a comunhão profunda (vs.20)

A igreja de Laodicéia era uma igreja excluída de vida espiritual. Se observarmos atentamente os versículos 18-20, e todo o contexto que abrange as outras cartas às outras igrejas (2.1-28; 3.1-22), perceberemos que estas palavras de Cristo são dirigidas especificamente a não cristãos. Não existia sequer um remanescente fiel de verdadeiros cristãos em Laodicéia!

A expressão eis que estou à porta e bato denota que Cristo estava do lado de fora desta igreja, isto é, do lado de fora do coração de cada Laodicense. O Senhor quer entrar nessa igreja. Ele chama o pecador a abrir a porta do seu coração. “Ele bate persistentemente para chamar a atenção, de modo que ninguém jamais será capaz de dizer que o Senhor deixou de chamá-los. (Mt 23.37)”32

A segunda expressão – se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta enfatiza que Cristo não somente bate na porta do coração de cada um individualmente, mas que também Ele fala ao coração da pessoa chamando-a ao arrependimento e a fé. Note aqui o duplo contraste entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana no âmbito da salvação.

Entretanto, apesar de Jesus tomar toda a iniciativa de estar à porta e bater no coração do pecador, todavia, é o próprio Jesus também que faz com que o pecador abra a porta do seu coração para que Ele entre em sua casa, ou seja, na sua vida.

Podemos chamar este ato de abrir o coração de regeneração. A responsabilidade de ouvir Cristo bater é da pessoa. Porém, é somente o Espírito Santo que capacita o homem a ouvir e responder com arrependimento e fé a voz do Senhor batendo na porta do seu coração. Não obstante, somente a pessoa regenerada abre a porta e recebe a Cristo. E o abrir dessa porta é o que chamamos de conversão (At 16.4; Jo 14.23).

A terceira expressão – entrarei na sua casa e cearei com ele, e ele comigo tem um profundo significado. O verbo cear υποστήριξη (deipneo) se refere à refeição do fim do dia, isto é, o jantar, que é a principal refeição do dia.33 Simon Kistemaker elucida:

Na mente oriental, a hospitalidade nas horas da refeição demonstra a confiança e o respeito pelo hóspede (Sl 41.9), pois o anfitrião já abriu a porta da sua casa para o hóspede e parte o pão com ele. Mas aqui é Jesus que assume o papel de anfitrião, pois Ele diz que entrará e ceará com o seu hóspede a principal refeição do dia. Essa refeição por ser já no final do dia, após o período de trabalho, é uma atmosfera de lazer e comunhão íntima. Esse era o momento onde havia o desfrutar de uma boa conversa e até de brincadeiras saudáveis entre as pessoas. Essa passagem fala da união com Cristo e do caminhar diário com Ele.34    

APLICAÇÃO PRÁTICA
     
A igreja de Laodicéia é o retrato da igreja hodierna! Uma igreja que, na sua maioria esmagadora, é composta de falsos cristãos que pensam serem verdadeiros cristãos. É uma igreja que estampa uma falsa aperência sendo aquilo que não é!

É uma igreja soberba que pensa estar cheia de vida, mas que, na realidade, é perdida e necessita de salvação! Cristo através desta carta chama a igreja hodierna ao arrependimento e a comunhão profunda com Ele.

Arrepender-se é dar as costas a esse cristianismo de aparências, de faz de conta, de mornidão. A piedade superficial nunca salvou ninguém. Não haverá hipócritas no céu. Devemos vomitar essas coisas de nossa boca, do contrário, Cristo nos vomitará. Devemos trocar os anos de mornidão pelos anos de zelo.34

CONCLUSÃO 

6. A PROMESSA DE CRISTO A IGREJA DE LAODICÉIA (3.21-22)

a) Um privilégio glorioso (vs.21)

Esta sublime promessa não é restrita somente a igreja de Laodicéia, caso se arrependesse e vencesse, mas, também, abarca toda a igreja de todos os tempos. Jesus diz aqui aos vencedores (os cristãos genuínos) que eles terão o direito sentar-se no trono com Ele, que é símbolo de conquista e autoridade.

Para dar peso a esta premissa, como exemplo para os cristãos serem perseverantes (Hb 10.35-39), o próprio Jesus traz alume o seu sofrimento, morte e ressureição, ao dizer que venceu e sentou-se com seu Pai no seu trono (Hb 1.3; 8.1; 12.2).

Os cristãos glorificados desfrutam da honra e do dever de julgar as doze tribos de Israel, o mundo e os anjos (Mt 19.28; Lc 22.28-30; 1Cor 6.2-3) e governarão com Cristo (2Tm 2.12; Ap 5.10; 20.4, 6; 22.5). Tal promessa está descrita em

Daniel 7.27 – Então a soberania, o poder e a grandeza dos reinos que há debaixo de todo o céu serão entregues nas mãos dos santos, o povo do Altíssimo. O reino dele será um reino eterno, e todos os governantes o adorarão e lhe obedecerão.35 (NVI)  

Quem tem ouvidos, (espirituais) para ouvir, ouça o que Cristo fala pelo Espírito as igrejas!




 NOTAS:

1. Michael Wilcock. A mensagem de Apocalipse, pág 24.
2. Dicionário do Novo Testamento Grego James Strong, pág 2029.
3. William barclay. Apocalise pág 161.
4. Hernandes Dias Lopes. Ouça o que o Espírito diz as Igrejas, pág 82.
5. William Hendriksen. Mais que Vencedores, pág 55.
6. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 139.
7. Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 225.
8. Rubens Szczerbarcky. Revelando os Mistérios do Apocalipse, pág 75.
9. James Strong. Dicionário do Novo Testamento Grego, pág 2094.
10. George Ladd. Apocalipse, pág 30.
11. Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 226.        
12. Rubens Szczerbarcky. Revelando os Mistérios do Apocalipse, pág 76.
13. Bíblia de Estudo Genebra. Notas de Rodapé, pág 1725.
14. Bíblia de Estudo Macarthur. Notas de Rodapé, pág 1784.
15. Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 227.
16. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 139.
17. Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave Linguística do Novo Testamento Grego, pág 611.
18. William Barclay. Apocalipse, pág 167.
19. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 140.
20. Bíblia de Estudo Macarthur. Notas de Rodapé, pág 1784.
21. Russel Norman Champlin. Apocalipse, pág 431.
22. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 141.
23. Ibid.
24. Adolph Pohl. Apocalipse, pág 79-80.
25. Michael Wilcock. A mensagem de Apocalipse, pág 24.
26. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 141.
27. Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 230.
28. Hernandes Dias Lopes. Ouça o que o Espírito diz as Igrejas, pág 86-87.
29. William Hendriksen. Mais que Vencedores, pág 56.
30. William Barclay. Apocalipse, pág 171.  
31. Ibid.
32. Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave Linguística do Novo testamento Grego, pág 612.
33. Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 235.
34. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 144.

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