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SE ALGUÉM CUIDA SER PROFETA - por Thiago Oliveira


     1 Coríntios 14:36-37 – Porventura saiu dentre vós a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós? Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor.

Paulo ao se dirigir aos irmãos de Corinto pergunta se eles foram responsáveis pela revelação divina. O que o apóstolo estava tentando dizer é que eles não iriam “reinventar a roda” e deveriam ter a humildade de reconhecer o quão pequenos eram, pelo fato de existirem igrejas mais antigas e o ensino deveria proceder apenas da revelação que o SENHOR transmitiu por meio dos profetas que fecharam o cânon do Antigo Testamento, e a revelação transmitida pelo Verbo Encarnado, a saber, Jesus Cristo para os seus apóstolos. Por isso a necessidade de reconhecerem que aquilo que Paulo vos escreve são mandamentos divinamente inspirados.

Acontece que os coríntios estavam se gabando de sua suposta superioridade espiritual, devido a ênfase que eles davam ao dom de línguas (idiomas humanos). No capítulo 14 da referida carta, Paulo desmistifica isso falando que maior é o que profetiza do que aquele que fala em línguas (v.5). O caráter da profecia tinha duas perspectivas: Edificava, exortava e consolava a igreja (v.3) e também julgava os incrédulos de modo que estes tinham a sua natureza pecaminosa manifesta (v. 24 e 25). Vale ressaltar também que essa profecia tem o mesmo significado de instrução ou ensino (v. 6 e 19).

Atualmente vemos um tal “mover profético” dentro dos arraiais evangélicos que destoa do ensinamento bíblico. É uma proliferação que começou com uma ala mais incauta do segmento pentecostal e ganhou força no neopentecostalismo. Temos de tudo, desde orações anotadas em um pedaço de papel e queimadas na fogueira, até fotografias de parentes benzidas com óleo, passando - é claro - pelo paletó ungido que derruba as pessoas. Os tais “profetas evangélicos” costumam fazer algo que é estritamente proibido por Deus: a adivinhação (Dt 18:10-12). Daí você pode estar se perguntando: mas os profetas não fizeram predições do futuro? Talvez seja um bom momento para entendermos o ofício profético estabelecido na lei mosaica.

Segundo Palmer¹, ser profeta torna-se um ofício após o povo ter solicitado não ouvir mais a voz do SENHOR, pois temeram quando O ouviram no monte Horebe. Vamos então a leitura de Deuteronômio 18: 15-20: 

     Deuteronômio 18:15-20 - O Senhor teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis; Conforme a tudo o que pediste ao Senhor teu Deus em Horebe, no dia da assembleia, dizendo: Não ouvirei mais a voz do Senhor teu Deus, nem mais verei este grande fogo, para que não morra. Então o Senhor me disse: Falaram bem naquilo que disseram. Eis lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. E será que qualquer que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, eu o requererei dele. Porém o profeta que tiver a presunção de falar alguma palavra em meu nome, que eu não lhe tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá. 

Atente para a advertência que há no texto: O profeta que falar aquilo que não provém de Deus morrerá. Isso é muito sério! Tem muita gente por aí falando coisas provenientes da sua própria vontade e sacralizando suas palavras como se estas fossem revelações. Ai daqueles que estão brincando com a Palavra, pois eles não serão poupados de severo juízo. Voltando para as predições, elas não são o cerne da profecia. O profetismo na história israelita sempre foi pregado para o tempo presente, alertando o povo de seus pecados que provocavam a Ira de Deus. Logo, o castigo futuro era consequência da transgressão do “agora”.

Também podemos constatar que o olhar profético estava voltado para o passado, lembrando ao povo tudo o que Deus já tinha feito (Am 2: 6-16, Os 9:10, Mq 6:1-4, Is 5:1-7, Jr 2:1-13). O motivo para esse resgate na memória coletiva servia para atenuar a acusação de que Israel se esqueceu (Jr 2:11 e Ml 1:2) dos benefícios divinos e por isso havia sido rejeitado justamente. Sendo assim, ocasionalmente uma profecia poderia ter caráter preditivo, todavia, a sua essência não era determinada por isso.

Quanto aos destinatários do oráculo de Deus, podemos observar que a regra era o povo, embora nenhum profeta tenha falado com a totalidade da população congregada em assembleia. A fração do povo que ouvia entendia que o profeta falava para a nação como um todo. Havia circunstancias em que os destinatários eram de um grupo específico (sacerdotes, realeza, ricos, magistrados), mas que possuíam uma representatividade popular. Isso desqualifica a prática atual de “profetizar” para o indivíduo, usando como métodos chavões genéricos tais, como: “Eis que te digo que o Senhor tem uma grande obra pra realizar na sua vida. Não tema que Ele é contigo”. Cá entre nós, essa “profetada” diz tudo ao mesmo tempo em que nada diz.

Agora que elucidamos um pouco do ofício profético na antiga aliança, podemos voltar para a Era Apostólica e traçar as diferenças entre os profetas de Israel e os profetas das igrejas locais. Se os primeiros recebiam a revelação direta de Deus, quer por sonhos ou por visões, os profetas a que Paulo se refere aos coríntios eram proclamadores do que já estava revelado. No contexto neotestamentário, quem recebe a revelação direta são os apóstolos, prova disso é que Paulo autoriza os profetas a julgarem uns aos outros para ver a procedência de sua mensagem, pois diferente dos apóstolos, eles não eram divinamente inspirados (v. 29).

Pedro nos adverte de que aquele que fala na congregação, que fale “segundo as palavras de Deus” (1Pe 4:11). Quando Paulo fala sobre a vantagem de ser judeu, emprega o mesmo termo “palavras de Deus”, referindo-se ao Cânon Hebraico, confiado pelo Senhor aquele povo (Rm 3:2); a mesma referência ocorre em Hebreus 5:12. Não podemos titubear na conclusão: “os profetas locais eram interpretes das Escrituras e por isso podiam ser julgados, isto é, examinados em seu conteúdo”. Mas deve existir um paradigma para que se examine a procedência de algo, certo? Obviamente que sim, e o único paradigma da Igreja sempre foi e sempre será o texto sagrado, inspirado por Deus e útil para o ensino, correção e instrução em justiça.

Assim, um questionamento pode surgir: Por que não podemos aceitar que os profetas das igrejas locais não recebiam uma revelação direta? Quem responde isso é o escritor aos Hebreus logo no início da sua epístola: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” (Hb 1:1). Cristo é o ápice da revelação divina. O Antigo Testamento embora sendo inspirado, não estava completo. É o Cristo encarnado que complementa a revelação. Quando o escritor aos Hebreus fala em “últimos dias”, ele a usa numa perspectiva escatológica, apontando para a vinda do Messias. Este veio e de uma vez por todas cessou a revelação. Como diz Heber Carlos de Campos²: “Depois de Cristo, ninguém mais revela nada a respeito de Deus”.

À guisa de conclusão, aquele que “cuida ser profeta” deve limitar-se a proclamar aquilo que a Bíblia fala a respeito do Deus Trino na forma do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sua fala deve ser para edificar a Igreja e elucidar aos perdidos que suas obras são más e que o Rei dos Reis virá como um ladrão para julgar os habitantes da Terra. O que passar disso deve ser considerado anátema (maldito), mesmo que faça “chover milagres” conforme ressaltou Lutero.  Cabe a congregação imitar os bereianos que examinavam tudo a luz das Escrituras (At 17:11) para não serem enganados pelos falsos profetas que farão muitos incorrerem ao erro (Mt 24:11), isso por desconhecerem o conteúdo da mensagem bíblica.

Sola e Tota Scriptura!



NOTAS:

1. O. Palmer Robinson. A PALAVRA FINAL. Ed. Os Puritanos.
2. Heber Carlos de Campos. FÉ CRISTÃ E MISTICISMO, Capítulo 3. Ed. Cultura Cristã.


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