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UMA ANÁLISE DA PRÁTICA DA UNÇÃO COM O ÓLEO UNGIDO - por Leonardo Dâmaso


Obs: A análise da questão a lume se limita apenas no âmbito pentecostal e neopentecostal.

Conforme sabemos, é bem comum vermos no meio evangélico, especialmente nas igrejas neopentecostais e pentecostais, onde faz parte da liturgia e doutrina destas igrejas/seitas, o hábito de ungir pessoas, objetos, casas, carros dentre outras coisas como uma espécie de “ato profético” ou algo semelhante. Via de regra, para corroborar esta prática como liturgia e doutrina na igreja, tanto os pastores, seguidores e adeptos da unção com o óleo utilizam como base na Escritura várias passagens do Antigo Testamento e, em adição, no Novo Testamento, especificamente as passagens de (Mc 6.7, 13; Tg 5.14). Vamos analisar cada uma delas:

Marcos 6.7, 13 – Chamando os Doze para junto de si, enviou-os de dois em dois e deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos. Expulsavam muitos demônios, ungiam muitos doentes com óleo e os curavam. NVI

Tiago – 5.14 Entre vocês há alguém que está doente? Que ele mande chamar os presbíteros da igreja, para que estes orem sobre ele e o ungiam com óleo, em nome do Senhor. NVI

Na primeira passagem descrita no Evangelho de Marcus, é dito que os discípulos foram enviados por Jesus a pregarem o evangelho nas cidades circunvizinhas de Israel, tendo recebido também poder e autoridade de Jesus para expulsar demônios, curar os doentes e ressuscitar os mortos (Mt 10.8). No caso de curar os doentes, vemos mencionado no texto um elemento utilizado pelos discípulos – ou seja, eles ungiam as pessoas doentes com óleo e elas eram curadas. Porém, vemos um fato interessante na narrativa de Marcus acerca disso. Ao recomendar os discípulos sobre o modus operandi de como curar os doentes, Jesus mencionou apenas “a oração com imposição de mãos”.

Marcos 6.18c – imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados.
NVI 

O próprio Jesus, em todo o seu ministério sequer usou a unção com óleo como complemento para curar os enfermos ou ungiu alguma pessoa demonizada, algum objeto ou alguém simplesmente por ungir, como vemos nas igrejas neopentecostais e pentecostais. Não há nenhum relato nos evangelhos, nas cartas apostólicas e nem em escritos dos pais da igreja que sucederam os apóstolos mencionando que Jesus ungiu Pessoas ou objetos.

João 9.6 – Tendo dito isso, ele “cuspiu” no chão, misturou terra com “saliva” e aplicou-a aos olhos do homem. 
NVI

É importante observar que não podemos utilizar “alegorizar” e aplicar esta passagem como base para apoiar que a saliva foi um tipo de óleo que Jesus usou para ungir os olhos do cego. Isto seria cometer um erro pífio de interpretação. Entretanto, não é visto em todo o livro de Atos que os apóstolos, após o pentecostes e nem Paulo utilizaram deste hábito de “ungir” os enfermos com óleo. Antes, os apóstolos tinham seguido o ensinamento de Jesus orando pelos doentes com imposição de mãos. (veja At 5.16; 8.7; 19.12; 28.8-9 etc...).

Acerca do texto de Tiago 5.14, que poderia mostrar o contrário do que fizemos até aqui confirmando a unção com o óleo, Augustus Nicodemus Lopes afirma com muita propriedade em seu comentário expositivo da carta de Tiago que "não sabemos ao certo se era uma prática geral nas igrejas apostólicas orar pelos enfermos ungindo-os com óleo ou se Tiago aqui introduziu essa prática entre os deveres dos presbíteros das igrejas Judaico cristãs. Essa possibilidade pode ser a mais correta”. Mais adiante, Nicodemus diz: "Tiago não explica a relação que vê entre a unção com óleo e a oração em favor do enfermo”.  

Não obstante, existem duas sugestões acerca do que realmente Tiago queria ensinar nesta instrução a igreja de sua época e para nós hoje. Alguns estudiosos dizem que o óleo era um tipo de remédio que era um complemento com a oração pela cura do enfermo. Por outro lado, outros acreditam que o óleo era e é apenas o símbolo da ação do Espírito Santo curando a pessoa doente. Todavia, esta segunda sugestão tem como base algumas passagens do Antigo Testamento que atestam o uso do óleo como a ação do Espírito Santo.

O óleo da unção no Antigo Testamento era um símbolo da ação do Espírito Santoainda não operando em sua plenitude. Porém, no Novo testamento, após o pentecostes, o Espírito Santo passou a operar em sua plenitude não sendo mais necessário ou uma regra o ato de ungir pessoas devido a estarmos na nova aliança da graça. (veja Ex 29.7; Lv 8.12; 1Sm 10.1-3; 16.13; Zc 4.3). Portanto, a segunda sugestão de que o óleo é símbolo da ação do Espírito Santo curando o doente é a mais plausível. Esta é a interpretação de Calvino dessa passagem, onde ele diz: "Não posso concordar com aqueles que pensam que o óleo era usado como remédio nestes casos".

Contudo, apesar do ato de ungir o doente ser apenas um símbolo, conforme os adeptos desta prática ratificam, todavia, não há objeção em todo o contexto da carta de Tiago, nos evangelhos, em Atos e nas cartas de Paulo em se permitir o ato de ungir. Porém, esta prática é “restrita somente a pessoa doente”. Sendo assim, três pontos de vital importância são destacados explicitamente na carta de Tiago 5.14. Senão vejamos:

1) Tiago não diz que “se deve ungir todas pessoas, objetos, casas, carros” etc.

2) Tiago não diz que “todas as pessoas devem ungir o doente, mas que a unção deve ser feita somente pelos presbíteros ou pastores”. 

3) Tiago não diz que se deve “ungir a pessoa doente na igreja ou em qualquer outro lugar [como, por exemplo, no monte]. Obviamente, a pessoa, por estar doente, estaria impossibilitada de ir a igreja, portanto, a unção era restrita e deveria ser feita na casa da pessoa doente”. 

Tiago 5.14b – Que ele (o doente) mande chamar os presbíteros (ou pastores) da igreja, para que estes orem sobre ele e o unjam com óleo, em nome do Senhor. NVI

Finalmente, mesmo que não seja proibido o presbítero ou o pastor ungir os doentes, contudo, devido ao exagero e aos abusos que as igrejas neopentecostais e pentecostais e muitos cristãos cometem a despeito do óleo em ungir pessoas não doentes, casas, e objetos em geral, seria melhor não aderirmos a tal prática que, sobretudo, foi e é muito mistificada no meio evangélico. 


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