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LÓGICA E FALÁCIAS (PARTE 3) - por Vicent Cheung


Olhemos outro exemplo:

1. Se chover, o chão ficará molhado.
2. Está chovendo.
3. Portanto, o chão está molhado.

O assunto é se o chão está molhado ou não, e a conclusão declara que sim.


As duas primeiras premissas nos dizem sobre que fundamentos o autor deste argumento tenta nos levar à sua conclusão. A declaração (1) afirma que se chover, o chão ficará molhado. Essa premissa pode ser ou não verdadeira. Se estamos falando de um pedaço particular de chão que tem uma cobertura, então ele pode não ficar molhado mesmo que chova. Assumindo que tanto o orador como o ouvinte estão pensando num pedaço particular de chão que não tenha uma cobertura, então podemos assumir com segurança que a primeira premissa é verdadeira. Além disso, devemos concordar também sobre a localização onde a chuva pode cair, visto que chover numa parte do mundo não molhará um pedaço de chão na outra parte do mundo. Assim, assumimos que estamos falando de um pedaço particular de chão, com a primeira premissa declarando que se chove sobre esse pedaço de chão, então ele ficará molhado.

A segunda premissa então afirma que “está chovendo”. Para os nossos propósitos, a segunda premissa poderia ser também “choveu”. Se tomarmos a última como nossa segunda premissa, então devemos assumir que a chuva não ocorreu muito antes do argumento ser apresentado, fazendo com que o chão já esteja seco. Podemos assumir que o argumento é feito imediatamente após a chuva parar, ou enquanto ainda está chovendo. Se entendemos as premissas nas formas declaradas acima, então parece inevitável a conclusão que o chão está presentemente molhado, e não seco. Esse é um argumento válido. Ele toma a forma de argumento que examinamos no começo, a saber:

1. Se A, então B.
2. A.
3. Portanto, B.

A definição das palavras e termos tais como “chovendo”, “chão” e “molhado” parece ser clara e consistente durante todo este argumento. Nas situações do dia-a-dia, as definições usadas pelo orador e o ouvinte neste caso deveriam ser bem similares. Em nome da precisão, tivemos que esclarecer que a palavra “chão” significa um pedaço de chão sem qualquer cobertura, e que o “chovendo” ocorre sobre o “chão”. O argumento é apresentado logo após a chuva, ou enquanto está chovendo. Não definimos claramente a palavra “molhado”, que para pessoas diferentes, pode significar “úmido” ou “ensopado”. 

Pode parecer excessivo escrutinizar um simples argumento dessa forma. Isso pode ser verdadeiro se estamos lidando com uma situação sem importância na qual a verdade do argumento não importa. Contudo, quando chegamos à teologia, ética, ciência, história e outras áreas importantes, precisamos ser mais cuidadosos em como usamos os argumentos. Há várias formas de entender incorretamente mesmo o mais simples dos argumentos. Podemos não considerar o exemplo acima ambíguo, mas os argumentos que ouvimos não são sempre claros, nem captamos sempre o significado pretendido pelo orador. A ambiguidade apresenta um grande obstáculo para a comunicação, e não ocorre somente em argumentos técnicos.

A seguir, analisaremos um argumento cujas premissas e conclusões estão implícitas. O argumento é curto, e se apresenta assim: “Se você é um homem, por que está chorando?” Inicialmente, parece não haver nenhuma conclusão. Visto que é declarado como uma pergunta, alguns podem nem mesmo considerá-lo um argumento. Dependendo do tom e contexto da declaração, o argumento pode ser de fato uma pergunta. Contudo, assumindo que a intenção é que ele seja uma declaração, o assunto seria se a pessoa mencionada é “um homem” ou não, e a conclusão implícita seria “Você não é um homem”. As premissas também estão implícitas. A primeira premissa pode ser, “Se você for um homem, não ficará chorando” e a segunda premissa é mais clara, qual seja, “Você está chorando”. O argumento inteiro, quando declarado de forma explícita, seria como segue:

1. Se você for um homem, não ficará chorando.
2. Você está chorando.
3. Portanto, você não é um homem.

Da forma como se apresenta, o argumento não parece ser verdadeiro. A primeira premissa declara que se o ouvinte é um homem, então ele não estaria chorando. Nossa primeira reação é rejeitar essa premissa, e assim a conclusão proposta não se segue. Se o autor ou orador insiste na primeira premissa, então o peso da prova está sobre ele, para convencer a audiência de sua verdade. As palavras e termos desse argumento são ambíguos. Quando o orador diz, “se você for um homem”, ele está se referindo a um ser humano do sexo masculino, ou ao caráter de uma pessoa, como no ser “másculo”? Também, a palavra “homem” na conclusão pode carregar um significado diferente. Assim, uma versão do argumento pode ser:

1. Se você for um ser humano do sexo masculino, não ficará chorando.
2. Você está chorando.
3. Portanto, você não é um ser humano do sexo masculino.

Chamaremos essa de versão A. Outra versão pode ser:

1. Se você for um ser humano do sexo masculino, não ficará chorando.
2. Você está chorando.
3. Portanto, você não é másculo.

Chamaremos essa de versão B.

A versão A é correta se a primeira premissa for correta. Podemos rejeitar esse argumento se tivermos razão para crer que essa primeira premissa é falsa; isto é, seres humanos do sexo masculino podem chorar. A conclusão na versão B pode ou não ser correta, mas visto que a palavra “másculo”2 é usada com um significado diferente na conclusão do que aquele usado na primeira premissa, a conclusão não segue das premissas, quer sejam verdadeiras ou não. Em todo o caso, podemos uma vez mais rejeitar a premissa (1), vendo como ela é falsa com respeito aos seres humanos do sexo masculino. Podemos criar outras versões desse argumento se alterarmos as definições da palavra “homem”. A palavra pode significar “não másculo” tanto na premissa (1) como na conclusão, em cujo caso podemos ter a melhor versão possível desse argumento, quer a conclusão seja verdadeira ou não. Ou, podemos ter a primeira ocorrência da palavra “homem” significando “másculo” e então significando seres humanos do sexo masculino na conclusão. Isso produz outro argumento pobre. Mesmo num argumento simples como esse, ambiguidade e consistência podem causar muitos problemas, e o problema é ainda maior com argumentos mais complexos. O argumento toma a forma de:

1. Se X, então Y.
2. Não Y.
3. Portanto, não X.

“Não chorando” é representado por Y, embora tenha a palavra “não” nele; portanto, “não Y” significaria “chorando”. Esse argumento nega o resultado da condição na primeira premissa; negar o consequente forma um argumento válido. Embora esse argumento não declare a conclusão ou as premissas explicitamente, esses elementos ainda estão presentes. Alguns argumentos podem ser tão longos quanto vários parágrafos e ter a conclusão e as premissas implícitas, ao invés de explicitamente declaradas. Estudaremos mais um exemplo antes de discutir falácias lógicas. Ele é como segue:

1. Se eu bato em Tom, ele ficará machucado.
2. Tom está machucado.
3. Portanto, eu bati em Tom.

O assunto é se eu bati ou não em Tom; isso é o que o argumento pretende determinar. A conclusão declara que eu de fato bati nele. As premissas apoiam essa conclusão? A primeira premissa declara que “se eu bato em Tom, ele ficará machucado”. Não há possibilidade de eu bater em Tom e ele não ser machucado. A premissa não deixa nenhuma possibilidade para alternativas. A segunda premissa declara que Tom foi machucado. As palavras e termos parecem ser claras e consistentes ao longo desse argumento, assumindo que o orador e o ouvinte não possuem definições diferentes sobre os conceitos de bater e ser machucado. Alguns podem concluir que se segue logicamente que eu bati em Tom; contudo, a primeira premissa não elimina a possibilidade de Tom ter sido machucado de outras formas. Tom pode ter caído de uma escadaria, ou outra pessoa pode ter-lhe machucado. Portanto, as premissas dadas são insuficientes para concluir que eu fui aquele que causou sua injúria. Ela é uma conclusão possível, mas não necessária. O argumento toma a forma:

1. Se A, então B.
2. B.
3. Portanto, A.

Isso afirma o consequente e gera um argumento inválido. Ele ignora explicações alternativas. Se fôssemos mudar esse argumento num válido, poderíamos alterar a primeira premissa para que o argumento ficasse assim:

1. Se e somente se eu bati em Tom, ele ficará machucado.
2. Tom está machucado.
3. Portanto, eu bati em Tom.

Dado que as premissas são verdadeiras, a conclusão deve ser verdadeira. A primeira premissa afirma que eu sou o único que poderia machucar Tom; portanto, se Tom está machucado, isso significa que eu bati nele.

Para resumir nosso procedimento sugerido para avaliar um argumento, devemos passar por esses seis passos: (1) Defina o assunto; isto é, faça a pergunta, “Sobre o que estamos falando?” (2) Avalie a conclusão; isto é, faça a pergunta, “O que esse argumento está afirmando ser verdade?” (3) Avalie as premissas; isto é, faça a pergunta, “Quais razões são dadas para apoiar a afirmação que a conclusão é verdadeira?” (4) Avalie as definições; isto é, faça a pergunta, “O significado das palavras e termos é claro e consistente durante todo o argumento?” (5) Avalie a forma de argumento; isto é, faça a pergunta, “As premissas levam inevitavelmente à conclusão?” (6) Procure falácias.

Para formar um bom argumento, uma pessoa aplica esses passos quando construindo seu caso. Ele deveria primeiro definir claramente o assunto, ou a questão que o seu argumento pretende resolver. Então, ele deve declarar a conclusão com precisão. Após isso, deve fornecer razões, ou premissas, para apoiá-la. As premissas devem estar relacionadas de tal forma que levem inevitavelmente à conclusão que ele afirma. Ele deve se assegurar que está usando as palavras e os termos clara e consistentemente durante todo o argumento, e que evita ambiguidade. Então, deverá verificar se seu argumento cometeu alguma falácia lógica. Tendo feito isso ao construir o seu caso, é provável que o argumento resultante seja muito forte. Não há necessidade de sempre declarar um argumento de uma maneira rígida ou ponto a ponto, embora essa seja a forma mais clara.

Numa situação onde a conversa demande uma expressão mais flexível, ele pode formular seu argumento de uma forma que reflita um bom estilo de escrita, no entanto, retendo a clareza e a força lógica. A pessoa deve verificar se não é difícil ou mesmo impossível descobrir a conclusão e as premissas, e que ele não altera o significado dos termos sendo usados no meio de um argumento. Agora que o leitor aprendeu alguns princípios básicos na análise e formulação de argumentos, introduzirei várias falácias comuns. Onde for possível e conveniente, também fornecerei alguns exemplos que podem lembrar algo que alguém como um cristão pode encontrar. Não-cristãos frequentemente argumentam contra o Cristianismo falaciosamente. Se o cristão está ciente disso, ele estará numa posição melhor para refutá-los.


NOTA:

2 Segundo o dicionário Aurélio, a palavra másculo tem dois sentidos [1. Relativo ao homem, ou a animal macho; masculino. 2. Vigoroso, varonil, viril]. Apenas na acepção 1 o termo tem o mesmo sentido que masculino, que não é o caso da versão B do argumento apresentado. (N. do T.)


Fonte: On Good and Evil, Vincent Cheung, p. 27-38 via www.Monergismo.com

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