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FUNDO

DOIS MODOS DE VIDA - por Leonardo Dâmaso



TEXTO BASE: Romanos 7


INTRODUÇÃO

O texto de Romanos 7 que vamos analisar expositivamente “é um dos textos mais complexos e difíceis desta carta; talvez um dos mais densos de todo o Novo Testamento. Existe uma gama de opiniões dos estudiosos acerca da sua real interpretação. Todavia não há unanimidade entre os muitos exegetas quanto ao seu significado primário”.Devido as várias linhas de interpretação que tentam caracterizar Romanos 7, contudo, existe a opinião dominante que a igreja cristã na sua maioria e também entre os reformados aderiu como a mais coerente.


No entanto, eu quero elucidar não a posição majoritária, mas outra posição que é a mais admissível pela minoria dos estudiosos, e que, em minha opinião, está mais de acordo e se harmoniza com todo o contexto em geral de Romanos e do tema proposto, que é a santificação. Senão vejamos os pontos difíceis que se encontram neste capítulo. 

Não obstante percebemos que estão inseridos alguns detalhes de vital importância que fazem toda a diferença para nós compreendermos realmente o que este texto representa. Se fizermos uma leitura desatenta dos versículos 9-25, podemos entender o oposto do significado real da passagem e, assim, termos uma visão equivocada de Romanos 7 num todo. O primeiro detalhe importante que devemos notar é a mudança no tempo verbal.

Anteriormente, no versículo 9 Paulo diz: Outrora sem a lei eu vivia; mas sobrevindo o preceito, reviveu o pecado, e eu morri. No versículo 11 ele resslata: Porque o pecado, prevalecendo-se do mandamento, pelo mesmo mandamento, me enganou e me matou. E no versículo 13b o apóstolo conclui descrevendo que o pecado para revelar-se como pecado por meio de uma coisa boa [a lei] (vs.12), causou-me a morte, a fim de que pelo mandamento se mostrasse sobremaneira maligno.  

Todavia, vemos que todos estes versículos estão no aoristo segundo indicativo ativo, exceto o versículo 11, que está apenas no aoristo indicativo ativo.2 Noutras palavras, todos estes verbos fazem referência a um tempo passado, isto é, a fatos que já aconteceram como: Enganou, matou e causou.

O segundo detalhe que encontramos em Romanos 7 é o uso freqüente dos pronomes pessoais eu e mim nos versículos 7-25. No versículo 7b observamos que Paulo diz: Mas eu não conheci o pecado senão pela lei, porque eu não conheceria a concupisciência, se a lei não dissesse: Não cobiçaras. No versículo 8 ele salienta que O pecado tomando ocasião pelo mandamento despertou em mim toda a concupiscência. No versículo 10 ele continua: E o mandamento que era para a vida, achei eu que me era para a morte. E finalmente, o versículo 11 fala que o pecado tomando ocasião pelo mandamento, me enganou e, por ele, me matou. Desse modo, todo o restante do capítulo 7 de Romanos, nos versículos 13-14, 17-18, 20- 21, 23-25  está contido o uso destes pronomes eu e mim.

Apesar desses dois detalhes importantes que vimos estar presente em  Romanos 7, isso nos remonta a três dúvidas e a três perguntas distintas sobre o texto analisado:

“(1) Paulo está se referindo a si mesmo devido aos pronomes (eu e mim) como cristão experimentando batalhas atuais contra o pecado. (2) Como um antigo fariseu antes da sua conversão a Cristo, ou (3) referindo-se a pessoas em geral que estão tentando separar-se da obra do espírito Santo para obter justiça com sua própria força”?3

Se analisarmos atentamente estas três principais linhas de interpretação e algumas outras, veremos que elas não condizem com o contexto em geral de Romanos, do que sabemos sobre a vida de Paulo e o que ele diz acerca da vida cristã em outras de suas cartas.

Contudo, a minha opinião doravante a Romanos 7 é que, o tema vigente que sobressai é a questão da lei e do pecado. A vida na carne debaixo da lei, ou seja, de uma pessoa não cristã. Calvino Chegou a declarar que, se atingirmos uma verdadeira compreensão quanto a essa epístola, teremos uma porta aberta para todos os tesouros mais profundos das Escrituras.4
  
EXPLANAÇÃO
  
Paulo, no capítulo 6.1-23 trata sobre a questão da libertação do pecado através da graça e a santificação pela fé; a lei e o pecado no capítulo 7.1-25 conforme foi mencionado a guisa de introdução e a nova vida em Cristo no capítulo 8.1-17.

Agora, vamos analisar Romanos 7 num todo e extrair as verdades indizíveis que o texto nos ensina.

1. DOIS MODOS DE VIDA (7.1-6)

Ao expor a questão da lei, Paulo vai usar nestes versículos “primeiro um principio (vs.1), segundo uma ilustração (vs.2-3) e em terceiro nos apresenta uma aplicação (vs.4-6)”5 para esboçar os dois modos de vida. Senão vejamos:

a) A vida sobre o domínio da lei (vs.1)

O objetivo de Paulo aqui é trazer a memória dos seus leitores tudo o que eles haviam aprendido a respeito da lei e suas implicações, haja vista que no capítulo 6.6-23 ele traça um paralelo entre a escravidão no pecado debaixo do jugo da lei e a libertação e santificação pela fé mediante a graça.

Paulo está se referindo necessariamente a lei moral, os 10 mandamentos que “os gentios, bem como os judeus da igreja em Roma, podiam ser tidos como conhecedores do Antigo testamento”;6  “Como conhecedores em geral de toda a lei”7 (vs.1a), e que o domínio da lei sobre nós é valido somente enquanto formos vivos (vs.1b).  

Em outras palavras, era como se o apóstolo dissesse: “Meus irmãos, será que vocês que conhecem a lei ainda não compreendem (ou “esqueceram” ênfase minha) que, quando uma pessoa morre, a Lei (“não o pecado” ênfase minha) não tem mais nenhum poder sobre ela? (NBV)8 Que a lei tem autoridade sobre alguém apenas enquanto está viva? (NVI)9

b) A metáfora do casamento (vs.2-3)

Paulo se utiliza da ilustração do casamento como um exemplo aos Romanos afim de que eles compreendessem melhor o que ele acabará de ressaltar no versículo 1.

Aqui vemos descrito que “uma mulher casada é legalmente unida ao seu marido (pela lei) enquanto ele vive”.10 Mas, se porventura esta mulher casar-se com outro homem, estando vivo o seu marido, será considerada adúltera. Contudo, se o marido morrer, ela estará livre para casar-se novamente, não cometendo, assim, adultério. “A morte rompeu a relação de casamento e liberou a mulher”.11   

No entanto, a esposa mencionada aqui nunca consegue agradar o seu marido exigente e implacável, pois ela “é imperfeita, carnal e rendida ao pecado”.12 Ou seja, cheia de debilidades e “sempre frustra as expectativas do seu marido”.13 A lei simboliza o marido perfeccionista que condena a mulher por qualquer falha que porventura venha a cometer. “A mulher [que somos nós] não pode divorciar-se desse marido. O contrato é claro: a lei a prende ao marido enquanto ele viver.

Só a morte do marido pode tirar essa mulher desse jugo conjugal, pois a morte muda não apenas as obrigações da pessoa morta, mas também as obrigações dos sobreviventes que com ela mantinham algum contrato”.14
     
c) A vida sobre o domínio de Cristo (vs.4)
     
Deus livrou os cristãos da escravidão do pecado não tirando o pecado de dentro de nós, mas fazendo com que nós morrêssemos para o pecado na cruz com Cristo (6.6). Portanto, o Senhor nos livra da lei também da mesma forma, não anulando a lei, “pois ela continua a governar sobre os homens”15, mas nos tirando do domínio dela assim como nos tirou do domínio do pecado (6.14). Isso não quer dizer que os cristãos não precisam mais observar a lei. Antes, eles fomos libertos da condenação da lei, mas não da obrigação da lei.

Via de regra somos livres da lei e escravos para servir ao Rei dos Reis (1.1). Warren Wiersbe corrobora que estar morto para a lei não significa levar uma vida sem Lei. Quer dizer apenas que a motivação e a dinâmica de nossa vida não vêm da Lei, e sim da graça de Deus por meio de nossa união com Cristo.16

Foi assim que esse casamento com a lei acabou, por isso não somos mais condenados por ela. Viúvos da lei, vivemos agora um novo casamento com Cristo Jesus debaixo da maravilhosa graça de Deus (8.1). Não vivemos sem a lei, mas agora somos capacitados pelo Espírito a obedecê-la, dando bons frutos que glorifiquem a Deus (Jo 14.21a), demonstrando, assim, todo o nosso amor em agradar ao novo marido tão rigoroso como o antigo, mas compassivo e benigno com sua esposa.

d) O contraste entre os dois modos de vida (vs.5-6)
           
A expressão vivíamos segundo a carne, no grego, denota “o homem que está no controle de sua própria vida, e a dirige de modo contrário a vontade de Deus”17, sendo, assim, inimigo de Deus (8.7). Quando éramos casados com a lei, isto é, antes de sermos regenerados, estávamos sobre o controle e domínio do pecado como marionetes em suas mãos (6.16).

Dessa forma, “a perfeição do nosso primeiro marido realçava ainda mais nossos erros e paixões pecaminosas”.18 Os desejos pecaminosos internalizados e ativos em nós eram despertados e estimulados pela lei, como se estivessem dormindo, levando-nos a ter vontade e fazer tudo aquilo que desagrada a Deus.

William Barclay acentua que a lei produz pecado, porque o próprio fato de uma coisa estar proibida pela lei presta ao pecado certa atração. O fruto proibido tem uma fascinação por si mesmo; e, portanto, a própria proibição da lei despertava o desejo de pecar.19

Nessa mesma linha de pensamento, Adolph Pohl salienta que a lei na verdade não produziu o pecado, mas fez funcionar o pecado existente. A natureza antidivina explodiu, foi flagrada instantaneamente pela lei e, com essa característica, podia ser submetida a julgamento.20 Noutras palavras, as nossas atitudes pecaminosas resultariam em morte física e eterna (6.21-23, 7.5).
     
Parafraseando o versículo 6, Paulo conclui a sua premissa enfaticamente, dizendo: “Agora [expressão se referindo à nova vida em Cristo debaixo da graça] (8.1) estamos livres da lei porque já morremos (o velho homem, o eu do cristão não regenerado) para aquilo que nos mantinha prisioneiros.  

Por isso somos livres para servir a Deus não da maneira antiga, obedecendo à lei (aquele velho código da lei escrita e externa que produz hostilidade e condenação) mas da maneira nova, (livre das exigências da lei) obedecendo ao Espírito de Deus” (servindo a Cristo sobre a perspectiva de vida produzida pelo Espírito, caracterizada por um novo desejo de manter a lei de Deus e a capacidade para cumpri-la). (NTLH) 21  

David H. Stern sintetiza que “fomos libertados: (1) de nossa própria propensão para recorrer a uma estrutura de legalismo, (2) de sentimentos de culpa irremediáveis e (3) de penalidades e maldades da lei por desobedecermos a ela. Três formas pelas quais a lei antes nos dominava”.22

2. A RELAÇÃO ENTRE A LEI E O PECADO (7.7-13).

Lutero disse que a função básica da lei é nos conduzir a Cristo, ao passo que Calvino apegava-se ao que se tornou muito conhecido como sua tríplice função da lei. A lei tem essa tríplice função: 1) revelar o caráter santo de Deus, 2) Repreender ou colocar limite ao pecado da sociedade e 3) revelar e despertar o pecado em nós (3.20).23

Nesta seção, Paulo vai refutar e expandir o assunto que outrora ele começou a tratar acerca dos dois modos de vida, a vida debaixo da lei e a vida debaixo da graça. Indubitavelmente, o apóstolo aqui vai mais além, enfatizando que a lei é boa e que ela não é culpada pelos nossos pecados, mas a natureza irregenerada do homem morto espiritualmente é que o faz viver na prática do pecado (Ef 2.1-3).

a) O propósito da lei é revelar o pecado (vs.7)

Depois de havermos morrido para o pecado e para a lei, será que estou dizendo que a lei é pecado? Paulo começa seu argumento com esta pergunta. Daí ele responde de modo insofismável: De modo nenhum, “é claro que não”! (NTLH) 24 “A lei não é responsável pelo pecado e pela morte”25, antes ela tem como função revelar o pecado existente em nós (3.20).

Hernandes Dias Lopes diz que a lei é como um raio x que diagnostica os tumores infectos da nossa alma. A lei é um espelho que revela o ser interior e mostra como somos imundos”.26

Ao caracterizar a lei pelo décimo mandamento, Paulo nos remete para o monte Sinai (Êx 20.17), onde a lei fora dada aos judeus sem lei que haviam acabado de sair do Egito rumo a Canaã, a terra prometida. A partir daí, a nação de Israel que não conhecia o pecado toma conhecimento dele através dos dez mandamentos. É importante destacar que o pecado não se forma por meio da lei, mas o que surge pela lei é o reconhecimento dele.27  

b) O propósito da lei é despertar o pecado (vs.8)

A expressão tomando ocasião, no grego (aphorme), significa oportunidade e era usada com referência a uma base de operações militares, o ponto de partida ou base de operações para uma expedição.28 Ou seja, o pecado encontra no mandamento uma porta aberta, uma oportunidade para entrar e suscitar em nós toda sorte de desejos (vs.8a).

Conforme já foi mencionado anteriormente, no (vs.5), a lei não somente expõe o pecado, mas também tem como objetivo despertar e estimular todo o tipo de “desejo cobiçoso”, (NVI) 29 “desejo proibido” (NBV).30 Para que o impulso em fazer algo proibido seja ativado em nós, é necessário que exista aquilo que nos proíba de fazê-lo. Portanto, as proibições da lei, em outras palavras, os nãos é que são o ponto de partida a fim de despertar o desejo de pecar. Se não existe a proibição ou o mandamento para não pecar não haveria a possibilidade de pecado.     

Assim, vale a pena enfatizar que o uso do pronome eu aqui e no restante do capítulo é uma figura de linguagem, é retórico, hipotético. Paulo usa esse termo não para relatar uma experiência individual, mas como exemplo para mostrar o povo de Israel bem como judeu que era.

Em contrapartida, a história do povo de Israel é retratada aqui. Uma trajetória conturbada de 40 anos no deserto marcada pela desobediência, pelas murmurações, pela ingratidão a Deus e pela constante vontade de voltar para o Egito. Eles quebraram todos os mandamentos já conscientes da lei que lhes fora dada.

Mesmo antes do povo de Israel receber a lei por intermédio de Moisés, eles tinham pecado, porém, o pecado contra a lei da consciência (2.14-15) e contra a revelação natural (1.20,21). Mas ele não era “levado em conta” sem lei (5.13; 2.12). “Sem a lei o pecado não é caracterizado juridicamente, somente pelo encontro com a lei o pecado se torna passível de ação judicial (5.13)”.33

“Os israelitas não transgrediram mandamentos objetivos como Adão transgrediu no Éden, comendo do fruto que Deus o proibira de comer, mas pecaram deixando de agir de acordo com a luz recebida”.34 “Foi somente na esfera da lei que a culpa podia ser desmascarada e reputada como inimizade contra Deus, e, assim, tornar-se algo consciente”.35 Mas agora, depois que veio a lei, começa o conflito entre ela e o pecado.  

c) O propósito da lei é condenar o pecado (vs.9-13)

No texto em tela, Paulo começa com uma afirmação dizendo que antes, em algum tempo no passado, ele vivia sem o conhecimento da lei (vs.9a). A palavra ele que Paulo usa como se estivesse referindo-se a si mesmo, descrevendo uma experiência passada em que viveu sem o conhecimento da lei, não encontra respaldo no contexto de Romanos e das outras cartas Paulinas.

Mediante o que sabemos de Paulo pelo Novo Testamento, principalmente em Filipenses 3.4-10, é descrito que ele era circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu (vs.5). Quanto ao zelo, perseguidor da igreja, quanto à justiça que há na lei, irrepreensível (vs.6).

Celeremente, Paulo nunca viveu em tempo algum sem a lei, desde muito cedo ele já fora instruído no judaísmo aos pés de Gamaliel, perseguiu os Cristãos em nome de Deus e do zelo pela religião, pois achava estar fazendo um favor a Deus em assolar a igreja, considerada por ele uma seita herege (At 22.3-5, 26.9-12, Gl 1.13).  

Por isso, de acordo com o contexto anterior nos versículos 7-8, o apóstolo aqui também está fazendo alusão à experiência nacional de Israel no Egito antes de receber a lei no monte Sinai (vs.9a). Após receberem a lei (vs.9b), o pecado já existente (vs.9c, 5.14) despertou, foi estimulado (vs.9d) e houve a consciência da perda da comunhão com Deus por causa do pecado.  

Daí, os israelitas “enganados pelo pecado que se aproveitou da lei (vs.11), cujo objetivo era produzir vida”36 logo descobriram que era para a morte e condenação (vs.10).  John Stott ressalta que: a lei é boa (vs.12), mas também é fraca. Em si ela é santa; contudo é incapaz de nos tornar santos.37  

A lei é perfeita, porém não santifica. Ela não tem o poder de operar em nós aquilo que ela exige a obediência total, mas a lei tem como objetivo caracterizar o pecado de Adão que se tornou a herança de todos nós e deixar claro o que o pecado representa e o castigo para ele (vs.13).

3. O CONFLITO ENTRE A LEI E O PECADO (vs.14-25)

Depois de fomentar a relação entre a lei e o pecado, Paulo agora vai tanger o tenso conflito que existe entre a lei e o pecado. O apóstolo vai enfatizar a tentativa do judeu piedoso não cristão que vive debaixo da lei, e que tenta obedecê-la a parte da obra regeneradora do Espírito e concluir com a nova vida em Cristo Jesus (8.1).

Podemos notar que essa descrição é feita por alguém que agora é cristão, mas olha para trás, no sentido de contar uma experiência que viveu no passado antes de se converter, no caso em pauta, o conflito entre tentar obedecer a lei na carne. Por isso vemos agora a mudança do tempo verbal no passado (vs.8-13) para o presente (vs.14-25).

a) A lei e a natureza irregenerada (vs.14, 18, 22-23)

Percebemos mais uma vez que antes de expor o conflito entre a lei e a natureza irregenerada, Paulo vai mostrar outro detalhe sobre a lei – que ela é espiritual (vs.14a). Por espiritual no sentido de que “trata do ser interior, da parte espiritual do ser humano bem como de suas ações exteriores.

A Lei dada em Êxodo era referente às ações exteriores. Mas, ao repetir a Lei em Deuteronômio, Moisés sintetizou a qualidade interior dela com respeito ao coração do homem (Dt 10.12-13). A repetição do termo amor em Deuterenômio também mostra que a interpretação mais profunda da lei diz respeito ao ser interior (Dt 30.6)”.38 (vs.22). 

Não obstante Paulo diz agora [no tempo presente] que é carnal, vendido à escravidão do pecado (vs.14b). O apóstolo está querendo dizer que a dificuldade em obedecer não está na lei, mas, sim, nele mesmo, pois o estado em que se encontra como escravo do pecado, preso a sua vontade pecaminosa o impossibilita de obter êxito.
       
Delineando esta condição de Paulo evidenciada aqui e ao analisar o contexto anterior – o capítulo 6 e o posterior – capítulo 8 de Romanos 7, vemos que esta passagem não é autobiográfica. O versículo 14b ressalta a vida na carne (sarkinos) de uma pessoa irregenerada, necessariamente do judeu não convertido a Cristo que vive debaixo da lei.

Se fosse Paulo que estivesse nesta situação, ele estaria em total contradição com o que ele próprio escreveu no capítulo 8.4b, 6, 7, 9a. Seria o mesmo que ele dizer assim: “Irmãos, eu não sou cristão, sou um irregenerado, pois ainda vivo na carne, no pecado”!

Também vemos no versículo 18 onde ele diz que na sua natureza humana pecaminosa não habita bem nenhum. Por um lado é verdade, mas a idéia de que não há nada de bom habitando no cristão entra em contraste com a questão da regeneração e da nova vida em Cristo (veja 8.15).

No versículo 23 Paulo diz que é prisioneiro da lei do pecado, contradizendo novamente, tudo o que ele disse anteriormente no capítulo 6.6,11a, 18, 22, que pela morte de Cristo fomos libertos da lei e da escravidão do pecado. Estas, portanto, são algumas das dificuldades contidas no texto, mas se analisarmos minuciosamente cada versículo entenderemos o seu real significado.

b) Uma vida de Derrota (vs.15-25b)  
       
O quadro pintado por Paulo aqui nestes versículos não é uma experiência de vida cristã volúvel ecoada por altos e baixos, onde às vezes se faz o bem e, às vezes, se faz o mal. Um dia está firme e santo, e, no outro, está fraco e em pecado. Como alguns acham base através dessa passagem, o apóstolo também não está se referindo aqui ao crente carnal (1Cor 3.1-4).  

O que temos pintado aqui é um quadro de derrota constante. Esta pessoa está em crise porque nunca faz o bem. Aqui é descrito um ciclo continuo de derrota onde se tem o conhecimento do bem, o querer fazê-lo, porém, sem sucesso. Por mais que a pessoa tente, haverá sempre a frustração por não conseguir obedecer à lei.

Via de regra o judeu que tinha recebido a lei sabia o que era certo e errado, mesmo não se vendo assim neste conflito pelo o orgulho, mas reconhecia e aprovava a lei de Deus (vs.22). Do ponto de vista de Paulo em Romanos, é impossível o homem morto espiritualmente obedecer à lei.

No entanto, se esta for uma experiência de vida cristã, existe algo errado. Talvez o cristão que viva isso não tenha nascido do Espírito ainda. A vida cristã normal está baseada nos capítulos 6 e 8.6,7, 8, 10,15 pela libertação do pecado, o trilhar da santificação pela fé e a vitória sobre o pecado.

Por outro lado, não estou dizendo que a vida cristã é caracterizada pelo perfeccionismo e vitória constante sobre o pecado, e que não exista conflitos. Pelo contrário, todo cristão passa por inúmeras dificuldades devido às fraquezas e limitações, mas não por um conflito deste nível aqui descrito eivado em completa derrota.

c) A nova vida em Cristo (vs.25a e 8.1)

Em virtude da frustração de não conseguir obedecer a todos os preceitos que a lei ordena, o judeu reconhece a sua miserabilidade diante de Deus e a sua incapacidade de cumpri-la com esta enfática declaração no versículo 24. Assim, era como se Paulo sussurrasse no ouvido do Judeu no versículo 25a que é antecipação do capítulo 8.1, mostrando a saída da prisão do pecado e da lei, que é Cristo Jesus, o nosso Senhor.   

CONCLUSÃO

Quais as lições que Romanos 7 nos ensina?

Devido ao pecado de Adão, a humanidade em geral recebeu esta herança como consequência – a perda da comunhão com Deus. Todos pecaram e morreram com Adão. Estávamos lá sendo representados por ele (5.19), e, portanto, carecemos da glória de Deus a fim de nos libertar da lei e do domínio do pecado (3.23).


Pela lei estamos condenados à morte e não podemos retornar ao caminho de Deus, a não ser que Ele, o Pai, nos escolha levar até Cristo Jesus (Jo 5.44) e opere em nós tanto o querer bem como o efetuar (Fp 2.13).  Somente Jesus pode transformar por completo o nosso ser, nos regenerando, perdoando, justificando, santificando e nos tornando filhos do Deus altíssimo por Cristo Jesus o nosso Senhor. 




NOTAS:

1. Hernandes Dias Lopes. Comentário Expositivo de Romanos pág 256.
2. Novo Testamento Interlinear. Grego/Português.
3. Wayne Grudem. Comentário de Romanos na bíblia de Estudo Plenitude.
4. João Calvino. Epístola a los Romanos, pág 8.
5. John Stott. Romanos, pág 56.
6. John Murray. Romanos, pág 267.
7. Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave Línguistica do Novo testamento Grego, pág 266- 267.
8. NBV.
9. NVI.
10. A mensagem. Bíblia em linguagem contemporânea.
11. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo, pág 697.
12. Hernandes Dias Lopes. Comentário Expositivo de Romanos pág 260.
13. Ibid.
14. Ibid.
15. Warren Wiersbe. Comentário bíblico Expositivo, pág 697.
16. Ibid.
17. Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave Línguistica do Novo Testamento Grego, pág 266- 267.
18. Hernandes Dias Lopes. Comentário Expositivo de Romanos pág 262.
19. William Barclay, Romanos, pág 103.
20. Adolph Pohl. Comentário Esperança de Romanos, pág 68.
21. NTLH.
22. David H. Stern. Comentário Bíblico Judaico, pág 411.
23. R.C. Sproul. Romanos, pág 195-196.
24. NTLH.
25. Comentário Bbíblico Africano, pág 1396.
26. Hernandes Dias Lopes. Comentário Expositivo de Romanos pág 264.
27. Adolph Pohl. Comentário Esperança de Romanos, pág 69.
28.  Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave Linguística do Novo Testamento grego, pág 267.
29. NVI.
30. NBV.
31. Novo Testamento interlinear. Grego/português.
32. NTLH.
33. Adolph Pohl. Comentário Esperança de Romanos, pág 70.
34. Hernandes Dias Lopes. Comentário Expositivo de Romanos pág 227.
35. Adolph Pohl. Comentário Esperança de Romanos, pág 56.
36. Comentário bíblico Africano, pág 1396.
37. John Stott. Romanos, pág 228.
38. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo, pág 699.


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