CTO - CURSO GRATUITO DE TEOLOGIA ONLINE

CTO - CURSO GRATUITO DE TEOLOGIA ONLINE

FUNDO

O CONCURSUS PROVIDENCIAL DE DEUS (PARTE 3) - por Heber Carlos de Campos


CONCURSUS DE DEUS NO ESPÍRITO HUMANO

Deus tem domínio sobre todos os eventos nos quais os homens são ativos justamente porque ele tem domínio direto sobre os espíritos deles, mas de um modo que as ações deles são livres, isto é, as ações deles são feitas sem qualquer compulsão externa. Os seres humanos não agem independentemente da ação de Deus na vida deles. Deus tem poder para penetrar o interior deles e de lhes mudar as disposições interiores de tal forma que eles passam a agir de acordo com essas disposições que são deles e, assim, os planos de Deus são realizados. Se Deus não agisse no interior deles, inclinando-lhes as disposições para cumprirem os planos previamente traçados por Deus, ninguém poderia garantir que os seus planos seriam cumpridos. Nem o próprio Deus poderia predizer coisa alguma. A Escritura mostra alguns exemplos onde Deus opera no interior dos homens de uma forma imediata, direta, sem o uso de quaisquer instrumentos ou meios. Deus opera pela sua onipotência, que não é separada da sua onisciência ou onipresença.

Nesse caso, Deus não opera com qualquer força física, mas unicamente por persuasão moral, mudando as disposições mais íntimas das pessoas, mas sem que lhes tire qualquer responsabilidade. Todas as coisas que essas pessoas vierem a fazer, elas as farão de acordo com as próprias disposições dominantes do seu ser interior. Essa ação interior de Deus na vida dos seres humanos é motivada por motivos éticos antes do que por força física. Quando Deus age sobre o ser interior dos homens, ele nunca os força a fazer nada do que não querem fazer. A ação divina afeta uma esfera que está por detrás da faculdade humana da vontade, de modo que a ação deles sempre será voluntária, isto é, nunca eles agirão contrariamente à sua vontade. Nunca a ação divina destrói a responsabilidade humana, porque a sua ação atinge uma esfera que subjaz a inteligência, aos sentimentos e as volições humanas.

O Espírito divino age no espírito humano de uma forma altamente misteriosa e direta. É assim de um ser pessoal sobre outro, devidamente considerando que o primeiro seja muito superior em natureza ao segundo. Não é a ação de um ser sobre um outro seu igual. Eles são iguais apenas porque são pessoais, mas muito diferente em sua natureza. Todavia, é perfeitamente possível que o maior interfira no menor, sem anular o aspecto da personalidade deste último. Isso é o que chamamos uma ação livre, sem interferência externa de alguém. Quando Deus age, ele age numa esfera onde o ser humano não tem acesso, que é o próprio espírito humano. O ser humano obedece, portanto, aos impulsos de sua própria natureza.

AÇÃO MEDIATA DE DEUS SOBRE O ESPÍRITO HUMANO

Deus age na vida dos seres humanos através da agência de outros seres humanos, a fim de construir o caráter deles e de elevar o seu comportamento. Os profetas foram os instrumentos de Deus através dos quais Deus agiu nos espíritos dos homens. Obviamente, esse tipo de influência indireta, opera conforme as leis da natureza do objeto influenciado, agindo de fora, através da linguagem ou outro meio que atinja os sentidos humanos. Todavia, nem sempre esse tipo de influência é eficaz. Muitas vezes os homens se rebelaram contra esse modus operandi de Deus e desobedeceram as suas palavras.

A ação de uma pessoa sobre outra, de forma indireta, pode ser obstada de tal forma que ela não ocorra. O espírito humano pode tornar-se impermeável quando a influência vem de fora. Isto se dá freqüentemente no caso de seres humanos quererem influenciar uns aos outros. Acontece também quando Deus quer influenciar através da palavra da pregação profética. O homem ser torna impermeável ou empedernido diante da mensagem. É nesse sentido que ele resiste ao Espírito Santo, como mencionou Estevão em Atos 7.51 (cf. Zc 7.12). Houve um bloqueio do espírito humano à mensagem, porque a influência vinha de fora. Por essa razão, eles resistiram a palavra que vinha do Espírito.

AÇÃO IMEDIATA DE DEUS SOBRE O ESPÍRITO HUMANO

Os seres humanos só podem exercer uma influência indireta sobre os seus pares, e isto é fácil de perceber. Contudo, Deus não age somente indiretamente, mas também diretamente, sem o uso de meios. Todavia, a ação imediata de Deus não vem de fora, através do uso de palavras, mas é uma ação no interior do homem. Deus age numa esfera mais profunda do ser humano (que é o seu coração) de forma que ele não pode e nem percebe quando Deus age, senão quando ele começa a refletir externamente (em pensamentos, palavras e atos), a influência já acontecida. O Espírito Santo age no ser mais interior dos seres humanos mudando as disposições contrárias ou retirando as indisposições, quando isto lhe apraz. Sua ação se dá numa esfera onde o homem não tem acesso, que é o seu coração.

A ação de Deus independe da permissão humana

Deus não precisa pedir licença ao homem para agir dentro dele. Essa é uma obra divina que não deixa o homem ser autônomo nem independente. Infelizmente, mesmo em meios evangélicos, há aqueles que insistem no fato de o homem deixar Deus agir em sua vida, nas mais variadas áreas. Deus tem que ter a licença humana para poder trabalhar na sua criatura. Essa teologia fica expressa em vários hinos e cânticos que nossas igrejas cantam. Essas igrejas são educadas na fé pelas músicas que cantam e, muitas vezes, as que prevalecem são as que ensinam coisas erradas. E uma das coisas erradas é a de que Deus age com a condição de nós o deixarmos agir.

Todavia, não é esse o ensino das Escrituras a respeito da ação divina no espírito humano. Há uma ação imediata do Espírito de Deus dentro do coração (ou espírito) humano. Deus age numa esfera em que o homem não tem domínio, que é o seu próprio coração. Deus inclina o coração das pessoas para o que é santo e, dessa forma, a pessoa pode agir fazendo o que é agradável a Deus. Quando você pratica um ato santo é porque os impulsos para esse ato vêm de dentro do coração, onde Deus agiu. Se Deus não agir no seu interior dispondo-o para o que é santo, você nunca praticará o que é santo. Por essa razão, é que Paulo diz que Deus, agindo em nosso ser interior, “opera em nós tanto o querer como o realizar” (Fp 2.13).

A ação de Deus independe da comunhão do homem com ele

Além do que vimos acima, temos que entender que a ação divina não é somente nos crentes, mas também nos incrédulos. Não é necessário o homem ser crente para Deus atuar nele. Deus atua independente da comunhão do homem com ele. Isso é patente naqueles a quem ele vai regenerar. A regeneração é um ato instantâneo de Deus onde ele trabalha no mais profundo do ser humano implantando o princípio vital. Essa obra Deus faz quando o homem está morto nos seus delitos e pecados. É uma ação imediata de Deus. Foi assim que Deus fez com Lídia, a vendedora de púrpura, em Atos 16. Ela era uma mulher sem qualquer entendimento do evangelho, mas o Senhor abriu o coração dela a fim de que ela pudesse entender a pregação de Deus. Essa foi uma obra imediata de Deus no ser mais interior de Lídia. Assim ele faz com todos os que ele regenera.


Deus também faz uma obra direta no coração dos que estão mortos quando dispõe o coração deles para realizar atos que cumprem os desígnios divinos. É o caso de sua ação direta no espírito de Ciro, rei da Pérsia, e de todos aqueles a quem Deus inclina o coração para executarem os seus propósitos.

CARACTERÍSTICAS DO CONCURSUS DIVINO

CONCURSUS DE DEUS É MEDIATO E IMEDIATO

Como já estudamos anteriormente, para governar o mundo Deus emprega todas as classes de meios para a realização de seus propósitos. Quando Deus usa os meios, ele não fica passivo esperando para ver o que acontece. Ele concorre para que a ação seja feita eficazmente.

A concorrência diz respeito ao modus operandi de Deus e nele Deus usa meios para executar tudo o que planejou. Alguns citam o cinzel como exemplo de um meio que fica entre o escultor e a pedra que está sendo trabalhada. Esse exemplo não ajuda a entender porque, nesse caso, somente o escultor trabalha. O cinzel é inconsciente e não faz nada livremente. Somente o escultor. Na relação entre Deus e o homem, a situação é diferente. Deus energiza as criaturas vivas por seu próprio poder e, então, elas agem livre e conscientemente. Todavia, se o concursus de Deus é relacionado com um evento na natureza, então o emprego de meios é mais fácil de ser entendido, porque não há a necessidade da participação consciente e livre de um agente da natureza. Quando Deus destruiu as cidades de Sodoma e Gomorra com fogo, pudemos ver um ato da ação providencial de Deus em que ele empregou meios, o fogo e o enxofre. Mas ao mesmo tempo, ali está a sua concorrência imediata porque ele usou um fogo que não existia, mas que ele trouxe à existência imediatamente, pelo qual ele faz com que caísse e destruísse aquela terra.

CONCURSUS DE DEUS NOS ATOS DOS HOMENS É PRÉVIO E DETERMINANTE

A expressão "prévio" aqui não dever ser entendida no sentido temporal, mas lógico. Não existe nenhuma criatura que pratique uma ação que parta exclusivamente de si mesma. Em todos os casos o impulso para a ação e para o movimento procede de Deus.  Tem que haver uma influência da energia divina antes da criatura atuar. Deus faz  com que tudo coopere na natureza e que se mova em direção a um fim predeterminado. Desta maneira Deus também impulsiona e capacita todas as suas criaturas racionais, que são as causas secundárias, para que atuem. Deus não somente as dota com energia, mas dá-lhes também vigor para fazerem ações específicas. Deus faz tudo em todos (1 Co 12.6), e opera todas as cousas segundo o conselho da sua vontade (Ef 1.11). Deus deu vigor a Israel para conseguir riquezas (Dt 8.18) e opera nos crentes tanto o querer como o fazer, segundo a sua boa vontade (Fp 2.13). É bom lembrar que os arminianos também admitem que a criatura não pode atuar sem o influxo do poder divino, mas sustentam que esse influxo não é tão específico ao ponto de determinar o caráter da ação em sentido algum.

CONCURSUS ENTRE DEUS E O HOMEM É SIMULTÂNEO

Não há um só momento em que a criatura opere absolutamente sozinha, independentemente da vontade e do poder concorrente de Deus. A atividade de Deus sempre acompanha, sustenta e conduz a atividade do homem. Atos 17.28 diz: "Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos." - Toda atividade nossa está, de alguma forma, associada a uma ação assistida por Deus para a consecução de um plano divino. Todos os nossos movimentos estão amarrados à sua vontade soberana e sua ação que penetram nossas ações. A atividade de Deus acompanha a dos homens em todas as suas direções, mas nunca o homem fica despojado de sua responsabilidade. Os dois, Deus e homem, trabalham simultaneamente, embora o homem nem sempre percebe que as coisas funcionam assim.

    Nesse concursus simultâneo, uma ação é sempre o resultado da combinação do ato dos homens e da participação divina. Mas o homem é sempre responsável por sua ação, seja ela boa ou má, e Deus é a causa última dela, embora ele seja sempre o primeiro a disponibilizar o homem para a execução daquilo que ele faz sem qualquer tipo de coação externa. Essa combinação de ação é também chamado em teologia de compatibilismo.


Trecho extraído do livro do autor - O Ser de Deus e Suas obras - A providência - capítulo 10 
Via monergismo



0 comentários :

Postar um comentário

OBSERVAÇÃO:
NEM TODAS AS POSTAGENS TRADUZEM, NECESSARIAMENTE, A OPINIÃO DO SITE MATÉRIAS DE TEOLOGIA

Soli Deo Gloria