CTO - CURSO GRATUITO DE TEOLOGIA ONLINE

CTO - CURSO GRATUITO DE TEOLOGIA ONLINE

FUNDO

O CONCURSOS PROVIDENCIAL DE DEUS (PARTE 1) - por Heber Carlos de Campos


Como Deus age e tudo chega exatamente onde Ele determinou? É Deus o autor dos males que há no mundo, inclusive os morais? Como podemos combinar a sua natureza santa com o que acontece de mal no mundo? Ele opera sozinho?

É necessário que entendamos o governo de Deus teleologicamente, isto é, como que objetivando um fim. Seu governo é uma presença real entre os homens e Sua atividade continuada, que tem um curso histórico, caminha para o seu cumprimento final. Deus dirige a nossa história, e nós somos os seus agentes. Deus escreve a história e nós a fazemos. Mas essas duas últimas frases poderiam levar ao conceito errôneo de que fazemos a história sozinhos. De modo algum! Deus não está ausente dos eventos e dos atos que os homens praticam. Ele participa em tudo o que fazemos. É aqui que entra o difícil problema do concursus.1  

Este assunto relacionado diretamente com a providência divina é uma expansão do aspecto da preservação e, ao mesmo tempo, o que dá suporte a toda obra providencial de Deus. Todavia, é mais prudente tratar o concursus propriamente dito não como mais uma forma de providência, mas o concursus está mais ligado ao modus operandi de Deus para que os seus propósitos providenciais sejam devidamente realizados na vida do universo em geral, e de suas criaturas em particular. Portanto, para que Deus preserve, sustente, dirija o mundo torna-se necessária a sua participação em todos os eventos e decisões, a fim de que todos os seus decretos sejam cumpridos.

Definição de Concursus

Escrevendo aos Efésios Paulo afirma categoricamente que Deus "faz todas as coisas de acordo com o conselho da sua vontade" (Ef 1.11). Isto quer dizer que nada do que acontece neste mundo é à parte do cumprimento da vontade de Deus e sem que ele esteja envolvido. A palavra grega que é traduzida como "faz" é energeo ( de onde vem a palavra portuguesa energia, que é a comunicação de poder ou o fato de Deus trabalhar), que indica o fato de Deus energizar cada obra na qual ele participa. Sem a energia ou o poder divino, nenhum evento acontece e nenhuma obra é feita. A vontade de Deus opera de modo que em todas as coisas tem participação. Nenhum evento que acontece no mundo está fora da providência de Deus. Portanto, quando tratamos da palavra concursus, estamos tratando da participação divina em todos atos e eventos da história, em cooperação com as causas secundárias, que são os seres criados. Concursus é o suporte contínuo de Deus para a operação de todas as causas secundárias (sejam elas livres, contingentes ou necessárias), para o cumprimento de Seus santos propósitos. Berkhof define-o como "a cooperação do poder divino com os poderes subordinados, de acordo com as leis pré-estabelecidas para sua operação fazendo-as atuar, e que atuem precisamente como o fazem."2 

Deve notar-se que esta doutrina implica em duas coisas:

— que os poderes da natureza não atuam por si mesmos, isto é, por seu próprio poder inerente, mas é Deus quem opera imediatamente em cada ato da criatura. Note-se que este ensino está em oposição ao ensino deísta;

— que as causas secundárias são reais, e que não devem ser consideradas simplesmente como o poder operativo de Deus. Somente assim podemos entender a cooperação da Primeira Causa com as causas secundárias. Deve insistir-se nisto em oposição à ideia panteísta de que Deus é o único agente que opera no mundo.

 A relação entre a obra de Deus e a obra do homem aparece muito fortemente vista na doutrina da salvação, mas aparece também na doutrina da providência, e podemos estudá-la de um outro ângulo. A ideia de concorrência encaixa-se perfeitamente na doutrina da salvação como na da providência. Isto significa que a atividade de Deus não exclui a participação humana no que diz respeito às coisas santas e, de modo inverso, nas atividades ímpias dos homens não há exclusão da cooperação divina, para que tudo venha cumprir os propósitos eternos de Deus. Exceto as operações absolutamente imediatas de Deus,3 todas as outras operações são efetuadas numa cooperação entre os agentes racionais livres e Deus. No concursus Deus atua com seu poder nos movimentos de todas as suas criaturas. Não há nenhum movimento independente nelas. Não há atos onde elas ajam autonomamente. Todas as criaturas são energizadas pelo poder presencial de Deus em todos os seus atos. Elas não poderiam existir nem atuar sem esse poder energizador de Deus. É desse modo que os dois, Deus e os seres humanos, participam na consecução dos planos divinos.4

Concursus  exige que haja duas partes ativas
Quando tratamos da matéria do concursus, não podemos falar apenas numa causa para os movimentos e atividades neste mundo, seja dos homens, dos animais ou dos elementos da natureza. Sempre há duas causas que movem uma ação. A causa primária é sempre divina e a secundária a criatura. É um erro pensar que quando Deus age, as suas criaturas ficam passivas. Nesse caso, só há um agente. A ilustração para este caso é a de um violinista que toca o violino por meio do arco. Na verdade, o arco é só instrumento, mas ele é totalmente passivo. Somente o violinista age nesse caso. No caso da cooperação entre Deus e os animais ou homens, temos que enfatizar a ação dos dois. Tem de haver uma cooperação de movimentos. Mesmo que Deus use as criaturas como meios na execução dos seus propósitos, elas têm os seus movimentos nascidos nelas, como se elas tivessem feito tudo o que fazem. Elas não são meros instrumentos passivos. As criaturas são as causas secundárias ativas. Elas são as causas de seus atos.

Se os seres humanos fossem passivos em todos os seus movimentos, eles não poderiam ser considerados como responsáveis. Por conseguinte, não poderiam ser punidos pelos erros que cometeram nem apreciados pelos seus acertos. Todavia, a Escritura é abundante em textos que tratam da responsabilidade humana em todos os seus atos, mesmo embora esses atos tenham tido a cooperação divina, como a causa primária. Homens e mulheres são punidos e recompensados pela justiça distributiva de Deus. A base disto está no fato deles serem ativos e conscientes em todas as coisas que fazem.

Se os seres humanos são passivos nas suas ações, Deus então seria o culpado direto e único dos males morais deste mundo, um praticante do mal e responsável direto por todos os males físicos, sociais e espirituais do mundo. Não podemos admitir uma causa única dos atos e eventos acontecidos neste mundo. Deus e os seus agentes secundários são ativos, de modo que a ação de Deus nunca o torna um praticante do mal, nem o homem é isento de sua responsabilidade. Se os seres humanos são passivos diante da soberania divina, então não haveria pecado dos homens. Eles nunca poderiam ser acusados de serem idólatras, assassinos, ladrões, desobedientes e coisas semelhantes a essas. Não podemos atribuir aos bens e aos males deste mundo apenas a uma única causa. Todos os eventos na história do mundo e dos indivíduos têm duas causas. A causa primária, que é Deus, e a causa secundária, que são as suas criaturas.

Concursus da Causa Primária com a Secundária
A matéria da relação entre a causa primária e a secundária, isto é, a concorrência entre a ação de Deus e a ação dos homens, não é fácil de ser explicada. Não sabemos exatamente como esse concursus acontece, mas sabemos que ele é real. Temos que nos reportar à lei da causalidade, que é um dos assuntos mais complexos em teologia e em filosofia. Sproul diz:

"Podemos fazer múltiplas distinções na arena da causa, tais como as descritas como causas formais: causas finais, causas eficientes, causas materiais, e coisas semelhantes. Essas distinções são úteis, mas não são exaustivas. Uma outra distinção importante é a distinção entre causalidade primária e causalidade secundária.5

Talvez essa última distinção seja a mais familiar a todos nós por causa do uso delas nos padrões de fé reformados. A Confissão de Fé de Westminster, quando trata do Decreto de Deus e da sua Providência, ensina essa distinção:

"Desde toda eternidade, Deus, pelo seu mui sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas." (III,1)

"Posto que, em relação à presciência e ao decreto de Deus, que é a causa primária, todas as coisas acontecem imutável e infalivelmente, contudo, pela mesma providência, Deus ordena que elas sucedam conforme a natureza das causas secundárias, necessárias, livre ou contingentemente." É muitíssimo importante que os cristãos aprendam a fazer a distinção entre as duas causas, a primária e a secundária, porque já no tempo da confecção da Confissão havia começado um descrédito nas obras providenciais de Deus por causa da descoberta da lei natural. Hoje, mesmo tendo um clima filosófico diferente, sofremos dos mesmos males onde persiste a dúvida da intervenção divina neste mundo em forma de providência.

Há vários pontos que devem ser observados das citações da Confissão de Fé de Westminster:

— Tudo o que acontece neste mundo é produto do decreto divino. Todas as obras providenciais de Deus fazem parte do decreto.

— Esses eventos acontecerão infalível e imutavelmente. Não há como fugir deles, mesmo os atos maus.
— Deus nunca pode ser considerado o autor do pecado;

— O homem nunca perde a sua liberdade que consiste no fato de nunca ser forçado no que faz. Ele sempre faz o que quer, conforme as disposições da sua natureza interior.

— Todas as causas secundárias agem livremente, conforme a natureza da causa, seja ela física, animal, humana ou angélica.

Não há ato humano que seja feito contra a vontade humana e nunca a liberdade humana é tirada. Todavia, os atos do ser humano não são independentes, mas sempre conectados a uma vontade maior que é a divina, a causa primeira. Esta matéria também não é fácil de ser digerida mesmo no meio cristão. Há razões para isso,  especialmente por causa do conceito vigente de liberdade que, quase que sempre, possui a conotação de autonomia ou de independência. Várias pessoas que estudam a matéria são sempre influenciadas por um libertarismo presente em nosso tempo, mas que já é bem antigo. Porque Deus tem estado fora do pensamento dos homens, estes pensam muito frequentemente na ideia da liberdade de independência. Porque os homens são seres racionais e livres, eles são contados como seres que realizam suas vontades autonomamente. Para eles, liberdade é sinônimo de autonomia. Do contrário, não é liberdade. Não há que lhes incline para um ato, seja de fora ou de dentro. Mesmo que uma pessoa seja inclinada para um lado, ela sempre pode escolher de forma contrária, porque não existe liberdade sem a capacidade de escolha contrária, segundo os libertários.

Como cristãos que creem na vontade soberana de Deus sobre todas as coisas, não podemos permitir tão estranho conceito em nosso meio. Cremos na lei da causa e efeito, não por causa da lei em si mesma, mas porque Deus é a causa primeira de todos os fenômenos que acontecem neste seu (e nosso) universo. É universo dele porque ele o criou e o sustenta. É universo nosso porque ele nos botou aqui e nos ordenou que cuidássemos dele, como agentes secundários na execução da sua vontade. Em qualquer evento ou ação das criaturas neste mundo criado Deus sempre deve ser considerado como a causa primária e os seres racionais as causas secundárias. Não existe nenhum caso onde um ser humano ou angélico age independentemente de uma ação divina. Não existe nenhum ser autônomo, exceto Deus, porque este pode agir imediatamente em qualquer coisa, sem depender de ninguém.

Há algumas verdades que não podemos esquecer quando estudamos a relação entre Deus, a causa primária, e os seres racionais, como as causas secundárias.

1.    Todas as criaturas racionais agem espontaneamente, sem que sejam coagidas nas suas ações. Elas possuem um poder de ação e de decisão, todavia, não poderes autônomos.

2.    As criaturas são sempre instrumentos de Deus para a execução das obras dele. Portanto, as causas secundárias são sempre subordinadas à Causa primária.

3.    Deus é sempre o energizador e o iniciador de uma ação nas criaturas. Estas sempre dependem dele para executarem uma ação, porque não há movimento da criatura que não seja iniciado por ela, todavia, não um movimento independente da ação primeira de Deus.

4.    Quando Deus age nos seres humanos, ele o faz numa esfera em que eles não têm acesso, que é o próprio coração deles. As suas vontades sempre haverão de obedecer aos impulsos do coração deles, onde Deus trabalha.

5.    Temos que entender que o homem é aquilo que é o seu coração. Quando o homem age ele está obedecendo aquilo que ele próprio é.

6.    Por essa razão, as criaturas, como as causas secundárias de uma ação, são sempre responsáveis pelo que fazem, porque elas nunca as fazem levadas ou inclinadas por coisas que não sejam elas próprias.
Isto posto, afirmamos que a distinção entre a primeira causa e as causas secundárias ajudam a explicar as relações entre a ação de Deus e as ações dos seres criados. A causa secundária diz respeito "à força comunicada para as criaturas físicas. A causalidade primária refere-se ao poder causal exercido por Deus no curso dos eventos cósmicos.6 Nenhum de nós tem o direito de negar que as causas secundárias realmente existem. Todavia, temos que admitir que nenhuma força é exercida neste mundo sem depender do poder da causa primária, que é Deus.

Paulo ensinou a respeito da relação entre as duas causas, a primária e a secundária. Ele disse que em Deus "vivemos, nos movemos e existimos" (At 17.28). Os efeitos dessas duas causas neste mundo tem o seu movimento primeiro em Deus e, depois, em nós. Então, o resultado da ação cooperadora das duas causas aparecem. Deus é a causa primeira e última de tudo o que acontece. Essa causa é independente. A causa secundária e derivada, é a dos seres criados, sendo dependente da primeira. "Deus é uma causa, a fonte de todas as causas e de todas as séries causais. Nenhuma causa precede ou está acima dele.7 Nossa ação é porque Deus nos move a agir. Deus é a causa primeira; os homens são a causa secundária, que resulta num ato ou evento neste mundo. Por isso podemos dizer que "todas as causas fora de Deus e sua causação não são meramente parciais mas absolutamente condicionadas por ele...8 Deus é o iniciador, ou a causa última de toda ação que nós fazemos.

"A criatura é também uma causa. Ele é pressuposta absolutamente por Deus. Sem Deus ela não poderia nem existir nem ser uma causa. Como uma causa secundária a criatura é tanto condicionada por outras causas assim como é condicionadora de outras coisas. Ela é ambas, causa causans ecausa causata, uma causa que causa e uma causa que é causada". 9

Nessa matéria de primeira causa e causas secundárias têm que ser resguardas a soberania absoluta de Deus nos seus decretos e a nossa liberdade condicionada à nossa própria natureza. Contudo, é preciso lembrar que o modo como essa relação entre a causa primária e as causas secundárias se processa é ainda um mistério para nós. Nos a chamamos concursus, mas não sabemos com muita propriedade o modus operandi de Deus. Não temos como explicar o âmago dessa relação, mas ela é um fato que não podemos negar.



NOTAS:

1. É uma palavra latina que significa “concorrência” ou “cooperação”.
2. Berkhof, p. 202.
3. Como as da criação natural e criação espiritual, por exemplo, onde Deus age sem o concursus de Suas criaturas racionais.
4. Ver ainda à Brakel, The Christian´s Reasonable Service, vol. 1, (Soli Deo Gloria Publications, edição 1992), 336-337.
5. R.C. Sproul, The Invisible Hand, 100.
6. Sproul, The Invisible Hand, 104-105.
7. Benjamin W. Farley, The Providence of God, 40. 
8. Ibid.
9. Ibid.

Trecho extraído do livro do autor - O Ser de Deus e Suas obras - A providência - capítulo 10 
Via monergismo

0 comentários :

Postar um comentário

OBSERVAÇÃO:
NEM TODAS AS POSTAGENS TRADUZEM, NECESSARIAMENTE, A OPINIÃO DO SITE MATÉRIAS DE TEOLOGIA

Soli Deo Gloria