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INTRODUÇÃO À 1 PEDRO (Parte 4) - Por Leonardo Dâmaso




     
5. OS DESTINATÁRIOS DA CARTA (1.1c)

    Pedro escreve a sua carta a um grupo de cristãos denominados forasteiros que estavam dispersos nas regiões do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1.1c). Estas cinco regiões faziam parte do império romano e eram localizadas na Ásia Menor (nos dias de hoje na Turquia). Os cristãos, na qual esta carta foi endereçada, era um grupo misto composto tanto de cristãos gentios conforme o próprio conteúdo da carta atesta (veja 1.3, 12, 14, 18, 22-23, 25; 2.9-10; 4.3) e judeus.

     Todavia, estes cristãos gentios e judeus viviam espalhados especificamente nas regiões norte e oeste da Ásia Menor que Paulo não evangelizou na sua primeira viagem missionária sendo impedido pelo Espírito de Jesus de entrar nessas regiões. Era da vontade de Deus que Paulo evangelizasse a Macedônia (Europa), por isto, através de uma visão à noite, Deus confirma a sua vontade a Paulo que, obedecendo, parte juntamente com os seus cooperadores rumo à macedônia (veja At 16.6-10).
     Não obstante, após a cidade de Roma ter sido incendiada pelo imperador Nero, os romanos ficaram completamente arrasados. Eles perderam suas casas e a esperança. Os templos religiosos, os relicários e até os ídolos pessoais deles foram destruídos. Contudo, este incidente teve uma grande repercussão religiosa por parte dos romanos. Eles acreditaram que os seus “deuses” não foram capazes de impedir essa calamidade porque também haviam sido vítimas dela. 

      Em vista disso, percebendo a dor e a indignação dos romanos, Nero decide redirecionar esta situação. O insensato imperador decide pôr a culpa do incêndio de Roma nos cristãos.

       John Macarthur escreve:

   O bode expiatório que o imperador escolheu foram os cristãos, que já eram odiados porque estavam associados com os judeus e porque eram vistos como pessoas hostis à cultura romana. Nero espalhou rapidamente o boato de que haviam sido os cristãos que tinham colocado fogo na cidade. Consequentemente, uma terrível perseguição começou e logo se espalhou pelo Império Romano, chegando ao norte das montanhas de taurus, como Ponto Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1.1), e impactando os cristãos a quem Pedro chama de peregrinos.23

       Senão vejamos as três palavras que Pedro utiliza para descrever os seus destinatários:

     a) Peregrinos. Esta palavra vem do grego προσκυνητής (paroikois) e significa “exilados”. Denota uma pessoa que mora num país estrangeiro. A melhor tradução seria “estrangeiros residentes”. Um cristão paraikoi “é alguém que está longe de seu lar, em terra estranha e cujos pensamentos sempre retornam à sua pátria”.24 Este termo também descreve a classe social destes cristãos espalhados por estas regiões da Ásia menor. Ênio Mueller diz que Paroikois é um termo especifico e técnico para designar uma classe da população que, embora residente no lugar, não tinha plenos direitos de cidadania. Este grupo de cristãos tinha seus direitos sociais restritos em vários aspectos, como casamento com pessoas de outras classes, comércio com qualquer um, participação e voto nas assembleias públicas, nos direitos de propriedade dentre outras coisas. Em tudo isso eram menos que cidadãos, sendo-lhes impostas restrições às vezes bastante penosas.25
       Por fim, os leitores de Pedro pertenciam a uma das classes sociais mais baixas da época. Havia entre eles súditos (2.13-17) e servos, isto é, pessoas que trabalhavam como domésticos (para a sociedade superior em suas mansões), artesãos, rurais dentre outras profissões (2.18-21).
   
      b) Dispersão. Esta palavra no grego διασπορας é (diáspora). William Barclay ressalta:

      Dispersão é o termo técnico usado para referir-se aos judeus dispersos por todos os países fora dos limites da Palestina. Às vezes, em sua agitada história, os judeus tinham que sair forçados de sua terra natal; em outras ocasiões emigravam por vontade própria para trabalhar cujo intuito era de prosperar em outros lugares. Esses judeus emigrados eram chamados à diáspora, a dispersão. Mas agora a verdadeira diáspora não é a nação de Israel, mas sim a Igreja cristã espalhada por todas as províncias do Império Romano e por todas as nações do mundo. Numa época, o povo diferente de todos os outros povos tinham sido os judeus; agora o povo diferente eram os cristãos. Estes constituem o povo cujo rei é Deus, e cuja pátria é a eternidade, e são estrangeiros, peregrinos no mundo 26 (Hb 13.14).

      c) Eleitos. Esta palavra vem do grego εκλέκτος (eklektos) e significa escolhido. Hernandes Dias Lopes com muita propriedade escreve:

      Os cristãos foram eleitos por Deus desde a eternidade, antes da fundação do mundo. Foram eleitos em Cristo para a salvação, mediante a fé na verdade e a santificação do Espírito. Foram eleitos para a santidade e a irrepreensibilidade (Ef 1.4). Não fomos nós quem escolhemos a Deus, foi Deus mesmo quem nos escolheu (Jo 15.16). Não  fomos nós que amamos a Deus primeiro, foi ele quem nos amou e nos atraiu com cordas de amor (1 Jo 4.19). Não fomos escolhidos porque cremos em Cristo; cremos porque fomos escolhidos (At 13.48). Não fomos escolhidos porque éramos santos, mas para sermos santos (Ef 1.4). Não fomos escolhidos porque praticávamos boas obras, mas para as boas obras (Ef 2.10). A eleição divina é eterna e incondicional.27      

6. A DATA EM QUE A CARTA FOI ESCRITA

      Alguns estudiosos dizem que esta primeira carta de Pedro foi escrita antes da perseguição de Nero aos cristãos, enquanto outros afirmam que ela foi escrita após o incêndio de Roma em julho do ano 64 d.C. É diametralmente improvável, conforme vimos anteriormente, que Pedro tenha escrito esta primeira carta durante o governo de Domiciano, em meados dos anos 90, ou posteriormente no governo de Trajano, entre o ano 110 e 111 d.C. porque já estava morto nessa época.   
    Não obstante, é bem provável que Pedro tenha chegado a Roma depois que Paulo foi solto da sua primeira prisão, por volta do ano 62 d.C; portanto, ele estava lá na época em que houve o incêndio. Todavia, se fizermos uma leitura atenta desta primeira carta, iremos notar no seu conteúdo algumas referências às cartas de Paulo. Sendo assim, concluímos que Pedro escreveu a sua primeira carta depois de Paulo ter escrito algumas de suas cartas. A carta aos Romanos, por exemplo, foi escrita no ano 58 d.C. após a sua terceira viagem missionária. A carta aos Efésios e aos Colossenses foram escritas entre os anos 61-63 d.C., quando Paulo estava em Roma sob prisão domiciliar.28 Indubitavelmente Pedro conhecia as cartas de Paulo e as considerava como parte das sagradas Escrituras (veja 2 Pe 3.16).
    
      John Macarthur salienta que a primeira carta de Pedro foi escrita pouco antes de julho, no ano 64 d.C., quando Roma foi queimada tendo, portanto, uma data de escritura de 64-65 d.C.29 Robert Grundy, um estudioso do Novo Testamento, diz que o tema da perseguição aos cristãos, que percorre toda essa epístola, sugere que Pedro a escreveu por volta do ano 63 d.C.30 Em vista disso, a data mais plausível em que a primeira carta de Pedro tenha sido escrita foi por volta do ano 63 ou no início do ano 64 d.C.

7. O LOCAL EM QUE A CARTA FOI ESCRITA

       Pedro escreveu a sua primeira carta na Babilônia conforme está descrito na própria carta (5.13). Na época do apóstolo, havia três cidades com o nome Babilônia. Sendo assim, nos deparamos com esta dificuldade: Em qual Babilônia Pedro escreveu a sua primeira carta?

       A primeira Babilônia era uma pequena cidade localizada no norte do Egito onde havia um posto avançado do exército romano e uma comunidade de judeus e alguns cristãos. Todavia, por este lugar ser muito obscuro, é improvável que Pedro tenha visitado ou estivesse lá quando escreveu a sua primeira carta. A segunda Babilônia era localizada no Oriente na Mesopotâmia. Nesta cidade havia uma comunidade de judeus e também cristãos. Porém, apesar de ser pequena e muito distante, é impossível que Pedro, juntamente com seus companheiros Marcos e Silvano estivesse nessa cidade quando escreveu esta primeira carta. Por fim, a terceira Babilônia era a cidade de Roma.
     Babilônia era uma espécie de código secreto usado por Pedro para se referir à cidade de Roma. “Em tempos de perseguição, os escritores eram mais cuidadosos do que o normal para não pôr em perigo os cristãos ao identifica-los”.31 O intuito de Pedro era proteger os seus leitores bem como a igreja em todo o império romano que esta primeira carta alcançaria posteriormente. Simon Kistemaker acentua:     

     Tomando como referência o livro de Apocalipse e escritos judaicos, vemos que era comum chamar Roma de Babilônia. Os escritores judeus o faziam por causa da semelhança entre os babilônios, que destruíram o templo de Salomão em 586 a.C., e os romanos, que destruíram Jerusalém em 70 d.C. Em Apocalipse, Roma é Babilônia não porque havia destruído a cidade santa, mas por ser mãe de meretrizes e abominações 32 (veja Ap 14.8; 16.9; 17.5; 18.2, 10, 21).  

     Os pais da igreja, assim como a maioria dos estudiosos atuais, afirmam que Pedro escreveu a sua primeira carta de Roma e entendem que Babilônia era uma referência à própria cidade. Por fim, diz à tradição, que o apóstolo viveu os seus últimos anos em Roma e foi martirizado nos seus arredores juntamente com sua esposa, por volta do ano 67-68 d.C.. É dito também que Pedro teve de assistir a crucificação de sua esposa, que provavelmente o acompanhava no ministério (Mc 1.29-31; 1 Cor 9.5). Porém, nos últimos momentos de vida de sua esposa, ele a encorajou dizendo: Lembra-te do Senhor! Contudo, quando chegou a sua vez de ser crucificado, ele disse que não era digno de ser crucificado como o seu Senhor (Jesus) e pediu que fosse crucificado de cabeça para baixo. 


NOTAS:

22- Edmund Clowney. The menssage of 1 Peter, pág 20. 
23- Bíblia de Estudo Macarthur. Introdução à 1 Pedro, pág 1727.
24- William Barclay. 1 Pedro, pág 42. 
25- Ênio Mueller. 1 Pedro- Introdução e comentário, pág 30-31.
26- William Barclay. 1 Pedro, pág 41.
27- Hernandes Dias Lopes. 1 Pedro, pág 15.
28- Referências de 1 Pedro a carta aos Romanos, Efésios e Colossenses: Rm 1.1-3; 2.5; 4.24; 12.1-2; Ef 1.1-3, 7, 14; 2.18, 21-22; 5.22-25; Cl 3.1-6; 22.
29- Bíblia de Estudo Macarthur. Introdução à 1 Pedro, pág 1726.
30- Robert Gundry. Panorama do Novo Testamento Vida Nova, 1978, pág 390.
31- Bíblia de Estudo Macarthur. Introdução à 1 Pedro, pág 1727.
32- Simon Kistemaker. Epístolas de Pedro e Judas, pág 31.



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