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FUNDO

O MILÊNIO E O JULGAMENTO FINAL - Por Leonardo Dâmaso






 TEXTO BASE: Ap 20.1-15

INTRODUÇÃO

     O capítulo 20 de Apocalipse é indubitavelmente o mais complexo e o mais polêmico de todo o livro. Não há unanimidade entre os estudiosos acerca da sua real interpretação. Existem pelo menos cerca de cinco linhas de interpretação para este capítulo.

Temos o amilenismo, o pós-milenismo e o pré-milenismo, que é dividido em duas linhas distintas de interpretação, a saber – o pré-milenismo histórico e o pré-milenismo dispensacionalista. Estas cinco linhas de interpretação serão vistas posteriormente na explanação do texto.


    Não obstante, o capítulo 19 denota o final da história que culmina no dia do julgamento final, em contrapartida, o capítulo 20 não segue a ordem dos fatos de modo seqüencial, antes, ele retorna ao princípio da atual dispensação em que estamos.     

      William Hendriksen elucida:

      A conexão entre os capítulos 19 e 20 é semelhante à que existe entre os capítulos 11 e 12. (11.18) anuncia o tempo dos mortos, para que sejam julgados. O fim é chegado. Todavia, no capítulo 12, nós voltamos ao início do período do Novo Testamento, pois o (12.5) descreve o nascimento, a ascensão e a coroação de nosso Senhor. Desse modo, no capítulo 20 voltamos de novo. Uma vez vista esta ordem de eventos ou programa da história, não é difícil de entender o capítulo 20.1   

       Por conseguinte, o capítulo 20 pode ser dividido em 4 seções:

      A primeira seção descreve a prisão de Satanás por mil anos (vs.1-3); a segunda seção pinta o reinado dos salvos no céu e a primeira ressurreição (vs.4-6); a terceira seção enfatiza o fim de Satanás (vs.7-10); e por fim, a quarta seção alude o julgamento final (vs.11-15). 

      Existem quatro cenas neste capítulo que diferem entre si, mas que estão intrinsecamente relacionadas. A primeira e a segunda cena ocorrem atualmente com a prisão de Satanás e o reinado dos salvos no céu com Cristo; a terceira e a quarta cena seguem seqüencialmente com a libertação de satanás, o seu fim e o julgamento final.   

EXPLANÇÃO

1- A PRISÃO DE SATANÁS POR MIL ANOS (20.1-3)

a) As características da prisão de Satanás (vs.1-3)

      Conforme é dito na passagem, João tem uma visão. O apóstolo vê um anjo descendo do céu que tinha na sua mão a chave do abismo e uma grande corrente. Este abismo, segundo os capítulos (9.1, 11; 11.7; 20.1-3) é um poço que tem uma tampa (9.1) que pode ser aberta (9.2), fechada e selada (20.3).   

      Simultaneamente, é visto por João que o anjo não tinha somente a chave que abre e fecha este poço, mas também uma corrente. Note que este fato faz alusão e nos remete ao evento da derrota e queda de Satanás e seus anjos na terra após o nascimento, obra e ascensão de Jesus (veja 12.7-9).

Por conseguinte, agora, nesta cena, o anjo do Senhor dominou e prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, facilmente sem nenhuma resistência e o lançou no abismo, fechando e selando-o, para que ele não pudesse mais enganar as nações até que se completassem os mil anos. Sendo assim, o que significa a prisão de Satanás juntamente com todas as suas características?

     O abismo que foi aberto pelo anjo que tinha a chave em suas mãos, e a grande corrente na qual ele prendeu Satanás lançando-o no abismo, fechando e selando-o não deve ser entendido literalmente. O verbo prendeu no grego ekpátnoev significa “exercer poder, tomar em custódia”1

Este verbo possui várias aplicações em sentido literal ou figurado dependendo do contexto.2 Portanto, aqui em Apocalipse, o sentido da prisão de Satanás é figurado. Satanás não está preso no abismo. Ambos os termos – prendeu, fechou, selou e o abismo significa limitação. Ou seja, denotam o poder limitado que satanás tem para agir.     
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1- Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave Lingüística do Novo Testamento Grego, pág 636.
2- Dicionário do Novo Testamento Grego. James Strong, pág 2137.    

b) A natureza da prisão de Satanás (vs.3a)

     Se a prisão de Satanás no abismo acorrentado não é literal, mas simbólica, como então entender a natureza desta prisão?

     A prisão de Satanás é um evento que ocorreu na primeira vinda de Cristo. Vejamos algumas passagens que comprovam este fato:

(Mt 12.29) Ou como alguém pode entrar na casa do homem forte (Satanás) e levar dali seus bens (pessoas), sem antes amarrá-lo (restringir a sua ação)? Só então poderá roubar a casa dele (libertar pessoas do seu domínio). NVI

(Lc 10.17-18) E os setenta e dois voltaram alegres, dizendo: Senhor, até os demônios se submetem a nós em teu nome. Ele lhes disse: Eu vi Satanás cair do céu como um raio. Almeida Século 21

(Jo 12.31-32) Chegou a hora de ser julgado este mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo (derrota de Satanás). Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim. NVI

(Cl 2.15) E, tendo despojado os principados e poderes (Satanás e os seus demônios), os expôs em público e na mesma cruz triunfou sobre eles. Almeida Século 21 

    Em resumo, estas passagens sintetizam de maneira inequívoca a derrota pertinente de Satanás! O nascimento, o ministério, a morte de cruz e a ascensão de Cristo restringiram a autoridade e o poder de Satanás. Esta é a sua prisão! Contudo, a prisão de Satanás não significa que ele está inerte ou fora de cena.

Satanás ainda opera disseminando o mal no mundo, porém, ele está na corrente de Deus. Satanás agora está preso no limite de Deus. Ele não pode mais enganar os eleitos de todas as nações impedindo que eles se convertam ao Senhor. Satanás não pode destruir a igreja (veja Mt 16.18; Ap 12.5-17).

      Acerca da prisão de Satanás, Simon Kistemaker escreve:

      Por toda a era veterotestamentária, somente a nação de Israel recebeu revelação de Deus (Rm 3.2). Embora nomes de indivíduos não judeus fossem inscritos nos registros divinos e adotados em sua família (Sl 87.4-6), as nações gentílicas estavam destituídas de sua Palavra. Mas tudo isso mudou depois que Cristo ressurgiu, quando instruiu seus seguidores a fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.19-20). Desde a ascensão de Jesus, a Satanás se tornou impossível deter o avanço do evangelho da salvação. Ele tem estado preso e destituído de autoridade, enquanto as nações do mundo ao redor do globo têm recebido as alegres boas novas. O filho de Deus tomou posse dessas nações (Sl 2.7-8) e privou Satanás de desencaminhá-las durante esta era evangélica. Cristo está atraindo para Si pessoas de todas as nações, e dentre elas os eleitos de Deus serão salvos e atraídos ao Seu reino.3  
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3- Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 673.

c) O tempo da prisão de Satanás (vs.2b-3a)

     Via de regra, Satanás está preso no que tange a sua limitação e incapacidade de impedir o progresso e expansão da igreja alcançando os eleitos do mundo inteiro. É nesse sentido que ele não pode enganar as nações. Todavia, a sua prisão tem um tempo determinado; ou seja – mil anos. É durante este período que Satanás fica impossibilitado de agir com total liberdade.

     Não obstante, chegamos à cena mais obscura de todo o livro do Apocalipse.
Não há unanimidade entre os estudiosos sobre se os mil anos, o tempo da prisão de Satanás é literal ou simbólico. Conforme vimos a guisa de introdução, existem cinco linhas de interpretação acerca deste tempo – os mil anos ou milênio. Senão vejamos:

     O amilenismo, que é a linha de interpretação abraçada pelos pais da igreja e pelos reformadores na sua maioria, não acredita num milênio literal, mas simbólico. Os mil anos da prisão de Satanás é um período indeterminado que começa a partir da primeira vinda de Cristo e vai até segunda vinda.

O pós-milenismo assim como o amilenismo, concordam que o milênio não é literal, mas simbólico. Porém, o milênio, no entendimento pós-milenista, será um longo período de tempo antes da segunda vinda de Cristo.

O mundo inteiro experimentará um tipo de reavivamento onde todos praticamente se converterão a Cristo. Sendo assim, o mundo estará caminhando progressivamente para um tempo de paz e harmonia que culminará na segunda vinda de Cristo.

     Já o pré-milenismo é dividido em duas linhas distintas de interpretação – a saber – o pré-milenismo histórico e o pré-milenismo dispensacionalista. O pré-milenismo histórico entende que o milênio ocorrerá depois da segunda vinda de Cristo e que a igreja passará pela grande tribulação sendo arrebatada aos céus no dia final.

Porém, este período no qual a igreja reinará com Cristo, segundo os pré-milenistas históricos, será um período de mil anos literais.   

     Por fim, o pré-milenismo dispensacionalista, em concordância com o pré-milenismo histórico, acredita que a segunda vinda de Cristo precede o milênio, isto é, que o milênio terá início após a segunda vinda de Cristo.

No entanto, em discordância com o pré-milenismo histórico e com o amilenismo, o dispensacionalismo afirma que a igreja não passará pela grande tribulação, pois haverá um arrebatamento secreto antes da segunda vinda de Cristo.

     Em resumo – a visão dispensacionalista afirma que durante o tempo da tribulação, que é a segunda metade dos três anos e meio, a igreja já estará no céu com Cristo nas bodas do cordeiro.

Todavia, após os sete anos, que é a totalidade do período de três anos e meio de falsa paz e três anos e meio de tribulação, a igreja desce com Cristo para a batalha do armagedom e o estabelecimento do milênio, também interpretado como mil anos literais pelos dispensacionalistas.

    Via de regra, o livro de Apocalipse é um livro repleto de símbolos. Portanto, no capítulo 20 não é diferente. Conforme vimos, o abismo, a grande corrente, a prisão, e também o milênio são símbolos.

Interpretar todas as figuras do Apocalipse simbolicamente, e o milênio literalmente é uma contradição de termos e um obstáculo intransponível, além de ser também um erro grotesco!4 Contudo, a melhor interpretação para o milênio não é entendê-lo como mil anos literais, mas simbolicamente representando um período de tempo indeterminado.

Esta é a interpretação da linha amilenista abraçada pela maioria dos reformadores.  

      Antony Hoekema com muita propriedade escreve:

     Sabemos que o número dez significa plenitude, e visto que mil é dez elevado à terceira potência, podemos pensar que a expressão “mil anos” é uma representação de um período completo, um período muito longo, de duração indeterminada. Podemos chegar à conclusão que este período de mil anos se extende desde a primeira vinda de Cristo até muito pouco tempo antes da segunda vinda.5  

     Martin Lloyd Jones acentua que os mil anos “é uma figura simbólica com o intuito de indicar a perfeita extensão do tempo, conhecida de Deus, e unicamente de Deus, entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. Não são mil anos literais, mas a totalidade do período enquanto Cristo está reinando até que seus inimigos sejam feitos estrado de seus pés e Ele regresse para o juízo final.6 

Este período do milênio é antes do julgamento final, e o julgamento final, de acordo com as Escrituras, ocorrerá simultaneamente à segunda vinda de Cristo (veja Mt 25.31-33). Portanto, os mil anos que enfatiza a prisão de Satanás, começaram a partir da primeira vinda de Cristo.

A prisão de Satanás durante mil anos está acontecendo no presente momento desde que Cristo o venceu na cruz e ascendeu aos céus coroado de glória.  
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4- Algumas dificuldades são encontradas na interpretação de um milênio literal.

1- Não encontramos essa idéia de um milênio terreno após a segunda vinda de Cristo nos Evangelhos e nas Epístolas paulinas e gerais.
2- O Novo Testamento ensina uma única volta de Cristo e não duas.
3- O milênio fala de Cristo reinando fisicamente aqui neste mundo, enquanto o seu ensino mostra que o seu reino é espiritual.
4- A idéia de um milênio na terra e a posição de preeminência dos judeus reintroduz aquela distinção entre judeus e gentios já abolida (Cl 3.11; Ef 2.14,19). Só existe uma igreja e uma noiva, formada de judeus e gentios.
5- A idéia do milênio terreno ensina que haverá pelo menos duas ressurreições, uma de crentes antes do milênio e outra de ímpios depois do milênio e isto está em oposição ao que restante da Bíblia ensina (Jo 5.28-29; Jo 6.39,40, 44,54).
6- A idéia do milênio cria a grande dificuldade da convivência do Cristo glorificado com os santos glorificados vivendo com homens ainda na carne (Fp 3.21).
7- Como conceber a idéia de que as nações estarão sob o reinado de Cristo mil anos e depois elas se rebelam totalmente contra ele? (Ap 20.7-9)?
8- Todo o ensino do NT é que o juízo é universal e segue imediatamente à segunda vinda, mas a crença no milênio terreno, o juízo acontece mil anos depois da segunda vinda e só para os incrédulos (Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 343-344).
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5- Martin Lloyd Jones. A igreja e as Ultimas coisas, pág 273.
6- Antony Hoekema. A Bíblia e o Futuro, pág 257.

d) A libertação de satanás (vs.3b)

      Conforme vimos anteriormente, Satanás foi preso por mil anos, sendo impedido pela determinação divina de enganar as nações. Todavia, depois de se completarem estes mil anos, Satanás será liberto da sua prisão por pouco tempo apenas, pois é necessário que isso aconteça.

No entanto, o que significa este pouco tempo em que Satanás será solto da sua prisão depois do milênio?

     William Hendriksen diz que esse pouco tempo retrata o mesmo período da grande tribulação, a apostasia e o reinado do anticristo. Esse é o tempo que antecede à segunda vinda de Cristo.7  

      É no auge da grande tribulação que Satanás será liberto da sua prisão, isto é, a limitação do seu poder será retirada pelo decreto soberano de Deus, onde ele terá plena liberdade para agir na terra; e juntamente com os seus asseclas ­– anticristo e falso profeta irão perseguir implacavelmente a igreja matando todos quantos lhe forem permitidos. Satanás pode até matar a igreja, mas não pode destruir a igreja!
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7- William Hendriksen. Op. Cit. 1988, pág 137.  

2- O REINADO DOS SALVOS NO CÉU E A PRIMEIRA RESSURREIÇÃO (20.4-6)

     Depois de vermos na primeira seção acerca do milênio na terra, que começou a partir da primeira vinda de Cristo e que está acontecendo atualmente (vs.1-3); todavia, vemos agora um outro aspecto do milênio, isto é, o milênio na esfera celeste (vs.4-6).

Enquanto Cristo está reinando na presente era, os salvos também estão reinando no céu com Cristo. Ou seja – estes dois aspectos, o reinado de Cristo com a prisão de Satanás, e o reinado dos salvos estão intimamente relacionados nesta segunda seção. Senão vejamos:     

a) A natureza desse reinado (vs.4)

     No texto alume, João diz que viu tronos em que se assentaram aqueles a quem havia sido dada autoridade para julgar. NVI O apóstolo também viu as almas dos que foram decapitados (mortos) por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus. NVI

Em seguida, ele enfatiza que os mártires não tinham adorado a besta nem a sua imagem, e não tinham recebido a sua marca na testa nem nas mãos. Eles ressuscitaram e reinaram com Cristo durante mil anos. NVI

       Diante disso, onde estão estes tronos?

     A palavra tronos aparece 67 vezes no Novo Testamento e 47 vezes no Apocalipse. Apenas três vezes o trono está na terra e sempre se fala do trono de Satanás e do anticristo (2.13; 13.2; 16.10). Sempre que a palavra aparece em Apocalipse, esse trono está no céu. Ou seja – o trono de Cristo e da igreja em Apocalipse está sempre no céu.8

      Por outro lado, quem são as pessoas que se assentaram nestes tronos para julgar e qual a natureza desse julgamento?

     As pessoas que se assentaram nos tronos e receberam autoridade para julgar são os crentes de todas as eras que sofreram perseguição e morreram, tanto martirizados, como de morte natural por serem fieis a Cristo e ao evangelho, e que agora estão reinando no céu com Cristo (veja o paralelo no 6.9).

Quanto à natureza desse julgamento, a missão dos salvos é:

 1- JULGAR AS DOZE TRIBOS DE ISRAEL

(Mt 19.28) Jesus lhes disse (aos discípulos ou apóstolos): "Digo-lhes a verdade: Por ocasião da regeneração de todas as coisas, quando o Filho do homem se assentar em seu trono glorioso, vocês que me seguiram também se assentarão em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel. NVI

2- JULGAR O MUNDO

(1 Cor 6.2) Vocês não sabem que os santos hão de julgar o mundo? Se vocês hão de julgar o mundo, acaso não são capazes de julgar as causas de menor importância? NVI

3- JULGAR OS ANJOS CAÍDOS OS DEMÔNIOS

(1 Cor 6.3a) Vocês não sabem que haveremos (os santos) de julgar os anjos? NVI
 
      Por fim, a passagem termina dizendo que eles (os salvos) ressuscitaram e reinaram com Cristo durante mil anos. Conforme vimos anteriormente, os mil anos representam um período indeterminado de tempo onde Cristo reina na terra como também reina no céu com os salvos. Sendo assim, onde está Cristo então?

     Ao mesmo tempo em que a trindade bendita (Pai, filho e Espírito Santo) é onipresente e está em toda parte do universo, assim como também habita no coração de cada crente; todavia, Cristo está no céu (através da sua natureza humana) e de lá ele governa soberanamente.

      Simon Kistemaker afirma que Cristo está no céu, onde se acha sentado no trono e governa; toda a autoridade para governar, no céu e na terra, lhe foi dada (Mt 28.18). E os santos redimidos do pecado e da morte estão sentados em tronos celestiais e desfrutam do privilégio de governar como reis com Cristo no céu.9   
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8- Antony Hoekema. A Bíblia e o Futuro, pág 257.
9- Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 678.

b) O significado da primeira ressurreição (vs.5b-6)

      Apocalipse é um livro saturado de contrastes. Vemos o contraste entre o bem e o mal, entre o santo e o profano, e entre a vida e a morte. Nesta passagem, vemos mais um contraste, porém, entre os salvos que estão reinando com Cristo no céu desfrutando da vida eterna com o restante dos homens que morreram sem Cristo.

Note que a ênfase de João recai inteiramente sobre os salvos (vs.4, 6). O apóstolo dá mais atenção aqui aos salvos do que aos não salvos. Por que isso? Para que possamos compreender de fato o significado desta passagem. Observe o que o texto diz: (o restante dos mortos não voltou a viver até que se completassem os mil anos). Esta é a primeira ressurreição. NVI

      Os mortos mencionados por João aqui são os homens não salvos de todas as eras. Estes homens, contudo, não tornarão a viver até que o período indeterminado do milênio termine. Ou seja – esta passagem declara enfaticamente que não haverá ressurreição para estes homens que morreram no estado de incredulidade após o fim do milênio. 

       Sendo assim, o que é a primeira ressurreição?

      A primeira ressurreição é uma ressurreição espiritual em linha com a segunda morte, que é espiritual. 10 Aqueles que nascem somente uma vez, pelo nascimento físico (os incrédulos), morrem duas vezes, uma física e outra eternamente. Os que nascem duas vezes, morrem somente uma vez, pela morte física. Estes últimos são os crentes.11  

      Portanto, a primeira ressurreição descreve o novo homem. A primeira ressurreição é o novo Nascimento! Todos quantos nasceram do Espírito ressuscitaram com Cristo.

(Ef 2.6-7) Deus nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus, para mostrar, nas eras que hão de vir, a incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em sua bondade para conosco em Cristo Jesus. NVI

(Jo 5.24) Eu lhes asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida. NVI

(Jo 11.25) Disse-lhe Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente. NVI
 
    Quem não passa por essa ressurreição espiritual, morre tanto fisicamente como eternamente e não ressuscitará (fisicamente tendo a glorificação do corpo) para a vida eterna com Cristo. Certamente, esta é a segunda ressurreição na qual João omitiu nesta passagem, que é de caráter físico.  
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10- Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 679.       
11- Loraine Boettner. La Inmortalidad. Tell. Grands Rapids Michigan, pág 26.

3- O FIM DE SATANÁS (20.7-10)

a) A libertação de Satanás (vs.7)

      Após completar o tempo da prisão de Satanás, isto é, os mil anos, ele será libertado da sua restrição. Será no tempo da grande tribulação em que Satanás terá plena liberdade concedida por Deus para agir na terra disseminando com veemência o engano e executar os seus planos malignos e finais contra a igreja.

Satanás, juntamente com os seus asseclas – anticristo e falso profeta, sabendo que pouco tempo lhe resta antes de ser lançado no lago, fará o possível para oprimir, perseguir e matar todos os crentes que puder (vs.10).  

b) A batalha final (vs.8)

      Além de oprimir, perseguir e matar muitos crentes no período da grande tribulação, satanás também irá enganar as nações de todo o mundo, Gogue e Magogue, pois seu intuito é reuni-las para a grande batalha contra igreja. Por conseguinte, o número de pessoas que se reunirão para este evento final será como a areia do mar.

      Satanás irá enganar e reunir para a batalha final os exércitos do mundo inteiro. Satanás será o general e irá controlar o seu numeroso exército maligno no ataque contra a igreja. “Todo o mundo iníquo vai perseguir a igreja. A perseguição será mundial. É o ultimo ataque do dragão contra a igreja”.12  

Gogue e Magogue são termos extraídos de (Ez 38, 39) que dão ênfase a um poderoso exército que saiu do Norte para invadir Israel. A expressão como a areia do mar significa um grande número de pessoas.

      Esta batalha mencionada aqui é a mesma descrita no (19.19-21). João aqui está apenas mostrando outros detalhes da mesma batalha, porém numa outra cena. Esta batalha final é chamada de Armagedom, que também não deve ser entendido literalmente como um lugar específico, mas como um símbolo que denota o livramento de Deus para o seu povo em meio às prementes batalhas contra os seus inimigos. 

      Via de regra, o Armagedom é descrito em outras duas cenas além desta. Primeiro, no derramar das sete taças da ira de Deus (16.14-21); e em segundo, na queda da Babilônia (19.19-21). Entretanto, essas não são três batalhas distintas. Nas três cenas anteriores a batalha é a mesma.

     Embora o Armagedom esteja descrito em cenas diferentes, todavia, é num mesmo evento que os inimigos de Deus (satanás, anticristo, falso profeta, ímpios e a morte) são derrotados. As sete taças da ira de Deus derramadas, a queda da Babilônia e o julgamento final acorrem simultaneamente, mesmo que as descrições sejam em cenas diferentes.
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12- Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 352.

c) A derrota de Satanás (vs.9)

    Depois de Satanás reunir as nações do mundo inteiro contra a igreja, o seu exército cerca o acampamento dos santos, que é a cidade amada. O acampamento e a cidade não são lugares literais, antes, eles representam os santos que enfrentam oposição dos inimigos espirituais diariamente sobre a terra.

Simon Kistemaker ressalta que acampamento é um termo militar, como o acampamento dos israelitas no deserto (Nm 5.1-4; Dt 23.14). Aqui, porém, acampamento dos santos inclui os cristãos verdadeiros dentre todos os povos, nações, línguas e raças. A referência é à Igreja, que enfrenta a inimizade espiritual do exército de Satanás.13 

      A cidade amada também se refere à igreja, isto é, aos crentes em que o Espírito Santo habita. Jesus chama os vencedores de a cidade do meu Deus em (3.12). A cidade amada é a casa espiritual dos crentes.  

      Depois de cercarem por todos os lados o povo de Deus, quando parecia não haver mais saída a não ser sucumbido por Satanás e o seu exército, Deus intervém poderosamente fazendo descer fogo do céu que destruiu todos os seus inimigos livrando o seu povo.  
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13- Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 683.

d) O destino final de satanás (vs.10)

    Após a sua derrota, o destino final de Satanás será o lago de fogo. Não somente Satanás, mas o anticristo e o falso profeta serão também lançados vivos ao mesmo tempo no lago de fogo e serão atormentados eternamente. O fogo aqui não é literal, mas é símbolo de intensa dor e sofrimento. O lago de fogo é um lugar de sofrimento premente tanto para o corpo como para alma!  

      Haja vista que Satanás não é o rei do inferno conforme muitos acreditam. O lago de fogo foi preparado para ele e os demônios serem castigados eternamente pelos seus pecados contra Deus (veja Mt 25.41).

CONCLUSÃO

4- O JULGAMENTO FINAL (20.11-15)

a) O juiz do julgamento (vs.11)

    Quem será o juiz no julgamento final? “O trono branco fala da santidade e da justiça do juiz e do julgamento. Diante dele (do juiz) o próprio universo se encolhe. Jesus é o juiz de quem todos vão comparecer”.14 

(At 17.31) Pois estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou (Jesus Cristo). E deu provas disso a todos, ressuscitando-o dentre os mortos. NVI

(Jo 5.22, 27) Além disso, o Pai a ninguém julga, mas confiou todo julgamento ao Filho; E deu-lhe autoridade para julgar, porque é o Filho do homem. NVI
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14- Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 354.

b) A natureza do julgamento (vs.12-13)

      João agora recebe a visão do julgamento final. No texto bíblico é dito que ele viu mortos, grandes e pequenos de pé diante do trono, e livros foram abertos. Outro livro foi aberto, o livro da vida. Os mortos foram julgados de acordo com o que tinham feito, segundo o que estava registrado nos livros. NVI

      “Aqui não se trata apenas dos mortos ímpios, mas de todos os mortos, de todos os tempos de todos os lugares. Aqui é a ressurreição geral de todos os mortos, de todos os tempos, que acontece no último dia”.15  

(At 24.15) e tenho em Deus (Paulo diante o tribunal do governador Félix) a mesma esperança desses homens (os judeus): de que haverá ressurreição tanto de justos como de injustos. NVI

(Dn 12.2) Multidões que dormem no pó da terra acordarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha, para o desprezo eterno. NVI

(Jo 6.39-40, 44, 54) E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Porque a vontade de meu Pai é que todo o que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia. Todo o que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. NVI
 
    O julgamento será universal e também individual. Um por um será julgado segundo as suas obras. Ninguém escapará.16 De modo semelhante, os salvos também serão julgados de acordo com as suas obras, porém, não para a condenação como os ímpios, mas para o recebimento de galardão.

(2 Cor 5.10) Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más. NVI
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15- Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 354
16- Ibid, pág 355.

c) A sentença final para os que não foram inscritos no livro da vida (vs.14-15)

      Como parte do julgamento final de Deus, vemos descrito que a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. O lago de fogo é a segunda morte. NVI  

      Sobre este episódio, Simon Kistemaker escreve:

      A morte é um estado e Hades um lugar. O Hades, como o lugar onde as almas dos incrédulos são mantidas, não deve ser identificado como sendo o túmulo no qual os corpos de ambos – crentes e incrédulos estão. Á guisa de contraste, o inferno é o lugar de sofrimento infindável. Quando a morte e o Hades são lançados no lago de fogo, chega ao fim também a autoridade que exerciam no tempo. 16
      Em contrapartida, se a morte e o Hades são lançados no lago de fogo, o que significa então a segunda morte?

      O lago de fogo é tanto um estado como um lugar onde todos aqueles que rejeitaram a Cristo viverão sofrendo eternamente a ira justa de Deus como penalidade pelos seus pecados. A segunda morte é a morte eterna. É a morte tanto física como espiritual!

      Na ressurreição do julgamento final, assim como os salvos que morreram, os incrédulos também irão ressuscitar fisicamente, todavia, depois da sentença de Deus, eles serão banidos para o lago de fogo (vivos) para sofrerem a condenação eterna, ao mesmo tempo em que estarão (mortos), isto é, desprovidos da vida eterna com Cristo Jesus no céu. 
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 16- Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 690.

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