CTO - CURSO GRATUITO DE TEOLOGIA ONLINE

CTO - CURSO GRATUITO DE TEOLOGIA ONLINE

FUNDO

ENTRE A FÉ E A LEI - Por Leonardo Dâmaso



TEXTO BASE: Gl 4.21-31


INTRODUÇÃO


      Paulo está na etapa final de toda sua premissa doutrinária acerca da justificação pela fé. O apóstolo de modo eloqüente, com sabedoria indizível e divinamente inspirado, descerra em praticamente toda a carta aos gálatas, com exceção na defesa do seu apostolado (1.1-5; 13-24), sua vigente defesa ao evangelho da graça (1.1-5-12; 2.1-21; 3.1-29; 4.1-20) que estava sendo atacado vorazmente pelo ardiloso falso evangelho (1.8-9).

     Não obstante, Paulo agora “está usando seu último argumento para provar a justificação pela graça mediante a fé, no lugar da salvação pelas obras. O contexto ainda mostra que o apóstolo está refutando os falsos mestres judaizantes que perturbavam a igreja e adulteravam a verdade”.1  

     Conforme podemos observar, a seção alume na qual vamos expor, se divide em 3 etapas interligadas que Paulo utilizou para elucidar veemente o contraste entre a vida cristã pela fé e pelas obras.

(1) A FASE HISTÓRICA – O apóstolo relembra os gálatas a história de Abraão, que teve dois filhos, a saber, Ismael, filho de uma mulher escrava, e Isaque, filho de uma mulher livre (Gn 16.1-4a; 11;15) (vs.22-23).

(2) A FASE ALEGÓRICA – Paulo sintetiza que estes dois filhos e estas duas mães representam duas religiões distintas (vs.24-27).

(3) A FASE APLICATIVA – Aqui a alegoria descrita por Paulo é aplicada aos gálatas e a nós, ou seja, os cristãos não são como Ismael escravos, mas como Isaque livres. E, por conseguinte, o apóstolo ressalta um alerta sobre o que devemos esperar por sermos um Cristão Isaque, a saber, perseguição (vs.28-31). 


NOTA:

1- Hernandes Dias Lopes. Gálatas, pág 197.


EXPLANAÇÃO

     Antes de Paulo expor o seu demolidor argumento que conclui toda a síntese da justificação pela fé nesta carta, o apóstolo com ousadia insofismável tece uma audaciosa introdução.

a) Um convite ao debate (vs.21a).

     Paulo aqui chama para o debate os seus opositores. Digam-me vocês, os que querem estar debaixo da lei. NVI ou Vocês que querem estar debaixo da lei, me digam uma coisa. NTLH

“Todos aqueles que se opunham ao seu ensino e queriam estar sob o jugo da lei, rejeitando o evangelho da graça”,2 o apóstolo os desafia. Como um exímio apologeta, Paulo empunha nas mãos a espada da verdade e com coragem inexorável, sai rumo à ferrenha batalha contra o falso evangelho e seus asseclas do engano.

     “Essas palavras de Paulo são endereçadas às pessoas cuja religião é legalista, que imaginam que o caminho de Deus é por meio de observância de certas regras. São indivíduos que transformam o evangelho em lei e supõe que o seu relacionamento com Deus depende de uma obediência restrita a regulamentos, tradições e cerimônias. São até crentes professos (alguns), mas que vivem escravizados por esses preceitos”.3

b) Um alerta aos opositores (vs.21b).

     Nesta segunda parte da passagem, Paulo lança agora sua objeção contra os falsos mestres judaizantes que propagavam o evangelho da salvação pelas obras com uma contundente e provocante pergunta: Acaso vocês não ouvem a lei? NVI ou Vocês que são vidrados na lei, já deram pelo menos uma olhada no que ela diz? Bíblia em Linguagem Contemporânea

     Paulo refuta os seus opositores frisando que se eles que se dizem conhecedores da lei, deveriam saber pelas escrituras o real significado dela, porque e os que fazem da lei o caminho que leva até a salvação, na verdade permeiam o caminho da servidão e da escravidão. “Isto porque a própria lei da qual querem ser servos se levantará como seu juiz para condená-los”,4 conforme o apóstolo já havia dito no (3.9; ver também em Tg 2.10)
     Todavia, a lei não foi dada para salvar, porém, os falsos mestres judaizantes e os gálatas até aquele momento não pensavam desta forma. De fato, esta má interpretação e aplicação da lei se deram devido a uma compreensão errônea de grande parte dos judeus referente ao seu vital papel. Basicamente, a lei foi dada para revelar o pecado, isto é, mostrar ao pecador o seu pecado (Rm 3.20b).


Lutero disse que “o uso e o fim correto da lei é, nos acusar e condenar como culpados quando vivemos em segurança, para que possamos ver a nós mesmos em perigo do pecado, ira e morte eterna”.5 E por conseguinte, como uma placa, a lei indica o caminho para a salvação em Cristo Jesus (Jo 14.6; 1Tm 2.5-6).

Greg L. Bahsen ressalta que “a lei neste aspecto de revelar o pecado, acusar e condenar, ajuda indiretamente na justificação, no fato de direcionar o homem para a promessa da graça”.6

Entretanto, o ponto crucial em que não somente os judeus e os falsos mestres judaizantes erravam a despeito da lei, mas também uma esmagadora parte da igreja evangélica hodierna erra é especificamente no seu uso e na sua aplicação. Como assim?

     Sobre o tema em pauta, Mauro Meister nos esclarece: “A revelação da lei de Deus, como expressão objetiva da sua vontade, encontra-se registrada nas escrituras. Esse registro, que começou nos tempos de Moisés, fala-nos da lei que Deus deu a Adão (Gn 1.26,28; 2.16-17) e também aos seus descendentes (Ex 20-1.17; Dt 5.32-33). Essa lei foi revelada ao longo do tempo. Dependendo das circunstâncias e da ocasião em que foi dada, possui diferentes aspectos, qualidades ou áreas sobre as quais legisla. Assim, é importante observar o contexto em que cada lei é dada, a quem é dada e qual o seu objetivo. Só assim poderemos saber a que estamos nos referindo quando falamos de lei”.7

      Senão vejamos os 3 aspectos da lei que predominava no AT.

(1) A LEI CERIMONIAL – “Esse tipo de lei era relacionado à adoração de Israel (Lv 1.1-13). Seu objetivo principal era apontar para Cristo. Portanto, ela não era mais necessária após a morte e ressurreição de Jesus. Embora não estejamos mais vinculados à lei cerimonial, os princípios espirituais nela contidos como a adoração a Deus ainda se aplicam atualmente”.8

(2) A LEI CIVIL – “Esse tipo de lei “representava a legislação dada a sociedade israelita que definia os crimes contra a propriedade e suas respectivas punições” (Dt 24.10-11)” 9, como também regia ordem na sociedade em geral.

(3) A LEI MORAL – Esse tipo de lei é constituído diretamente pelos 10 mandamentos de Deus, e “representa a vontade de Deus para o ser humano, no que diz respeito ao seu comportamento e aos seus principais deveres (Ex 20.1-17)”.10

     Não obstante, parte da lei judaica incluía estes paralelos encontrados no AT. Quando Paulo diz que os gentios não estão mais presos a observância da lei (ver At 15. 20-21; Lv 17;18; 1Cor 8.8-13; Rm 9.30-33), o apóstolo não está dizendo que a lei não se aplica a nós que estamos na dispensação da graça.
O que Paulo está dizendo é que certos preceitos da lei (usos e costumes, rituais e sacrifícios) não precisam mais ser aplicados a igreja devido ao seu contexto histórico restrito somente ao Israel antigo, enquanto que outros se cumpriram plenamente em Cristo e na sua obra redentora (Hb 8,9).

      Portanto, era neste ponto que muitos Judeus, falsos mestres e os gálatas falhavam na compreensão e erravam na interpretação e aplicação da lei, e, por conseguinte, a igreja evangélica hodierna na sua maioria também erra e perece no legalismo e no sincretismo devido ao entendimento e aplicação equivocados da lei.

A confissão de fé de Westminster no capitulo 19 sintetiza o verdadeiro objetivo da lei para a igreja de Cristo.

“Embora os verdadeiros crentes não estejam debaixo da lei como pacto de obras, para serem por ela justificados ou condenados, contudo, ela lhes serve de grande proveito, como aos outros; manifestando-lhes, como regra de vida, a vontade de Deus, e o dever que eles têm, ela os dirige e os obriga a andar segundo a retidão; descobre-lhes também as pecaminosas poluções da sua natureza, dos seus corações e das suas vidas, de maneira que eles, examinando-se por meio dela, alcançam mais profundas convicções do pecado, maior humilhação por causa deles e maior aversão a eles, e ao mesmo tempo lhes dá uma melhor apreciação da necessidade que têm de Cristo e da perfeição da obediência dele”.11

1- A FASE HISTÓRICA – OS DOIS FILHOS E AS DUAS MULHERES (vs.22-23)

        Paulo corrobora na introdução de sua premissa um convite aos falsos mestres para um debate teológico, para assim, provar definitivamente que a salvação está centrada no evangelho da graça e na vida cristã norteada pela fé e não pelas obras da lei.

O apóstolo agora começa a sua refutação tomando como base de seu argumento o AT para provar através da história de Abraão, dos seus dois filhos, e de suas duas mulheres a veracidade do seu ensino em conformidade com toda a escritura.

a) O filho e a mulher escravos (vs.22a-23a).

      No texto em tela, Paulo cita (Gn 16.15) aos seus opositores, onde é descrito que Abraão teve o seu primeiro filho chamado Ismael, porém, não com sua esposa Sara, mas com a serva (escrava) dela, uma mulher egípcia chamada Agar. “De acordo com o direito antigo, uma escrava sempre dava a luz para a escravidão, mesmo quando o pai era um homem livre”,12 no caso aqui Abraão.

Portanto, assim como sua mãe, Ismael também era um escravo. No entanto, como Sara era estéril, e tendo passado já 10 anos desde a promessa de Deus feita a Abraão de lhe dar um filho não se cumprira (Gn 12.4), Sara decidiu recorrer “ao costume da época o qual uma mulher estéril podia ter um filho por meio de sua serva (Gn 16.2)”.13
Sendo assim, coagido por sua esposa desesperada para ser mãe, Abraão concorda com esta pérfida idéia, e demonstra através desta atitude 3 reações entrelaçadas entre si:

(1) Memória curta – Naquele momento Abraão havia se esquecido da promessa de Deus e agiu precipitadamente. Ele não valorizou a palavra do Senhor e deixou o tempo ofuscar a sua esperança no impossível (Gn 15.1-6).

(2) Impaciência - Abraão não conseguiu mais esperar pela intervenção divina na sua vida. A impaciência pela esperança demorada enfraqueceu seu coração (Pv 13.12) e o levou a ansiedade, e a ansiedade o levou a próxima reação;

(3) Incredulidade – Aqui temos o retrato não do Abraão crente de (Gn 15.1-6; Rm 4.17-21), mas do Abraão descrente que apelou para os meios humanos recorrendo ao direito antigo de obter um filho mediante a serva da esposa. Abraão dependeu de si mesmo e não de Deus. Ele escorou na sua vã expectativa de que o filho com Hagar seria o da promessa.

     Donald Guthrie diz que “Ismael foi o resultado da confiança de Abraão no planejamento humano em vez da confiança na promessa de Deus”.14 William Hendriksen salienta que “quando Paulo afirma que Ismael nasceu segundo a carne, ele tem duas coisas em mente: que Ismael nasceu segundo um propósito carnal (Gn 16.2) e em virtude da capacidade física que Abraão e Agar tinham (Gn 16.4)”.15

      “Abraão e sara tentaram empurrar a aliança para a linhagem de Ismael, e é nesse sentido que agem segundo a carne, a saber, distantes de Deus” (Adolf Pohl).16

b) O filho e a mulher livres (vs.22b-23b).

      Prosseguindo a sua argumentação, Paulo enfatiza agora o segundo filho de Abraão e sua esposa Sara, e denota o contraste entre ambos. “Se Ismael nasceu de uma conjunção puramente carnal entre Abraão e Agar, Isaque porém, nasceu de uma intervenção sobrenatural de Deus. E isto por duas razões.

(1) Tanto Abraão (100 anos) como Sara (90 anos) já estavam avançados em idade e não poderiam mais gerar filhos naturalmente. (2) Sara era estéril, e por isso, não podia conceber”. 17

      Contudo, “Isaque nasceu como resultado da fé de Abraão direcionada para a promessa de Deus. O Senhor interveio milagrosamente como recompensa dessa fé e capacitou Abraão para que este pudesse gerar, e possibilitou Sara para que ela pudesse conceber. Assim, Isaque nasceu segundo o Espírito (vs.29), porquanto foi o Espírito Santo quem tornou a promessa realidade”.18
     Portanto, concluímos a fase histórica com as duas nuances acerca dos filhos e mulheres de Abraão. Ismael nasceu de uma mãe escrava e é escravo segundo a natureza, enquanto que Isaque nasceu livre doravante a promessa.


2- A FASE ALEGÓRICA – AS DUAS MULHERES E OS DOIS FILHOS (vs.24-27)

     Nesta segunda seção, Paulo vai elencar a fase alegórica dos dois filhos e das duas mulheres de Abraão. O apóstolo vai delinear através do modo indireto de uma alegoria, que é uma figura de linguagem cuja expressão transmite um ou mais sentidos que o da simples compreensão ao literal.  

Noutras palavras, o propósito da alegoria é ocultar o real significado de um texto com o intuito de extrair uma compreensão mais profunda dele. A alegoria é um método de interpretação das escrituras bem utilizado pelos judeus rabinos. Vicent Cheung diz que “Paulo emprega o mesmo método dos seus oponentes, os falsos mestres judeus de interpretar a Escritura contra eles próprios”.19  

    Embora o objetivo central da fase histórica neste contexto é expor apenas os fatos literais ocorridos na vida de Abraão, Sara, Agar, Ismael e Isaque, contudo, Paulo agora vai abrir as cortinas do entendimento e extrair desta história por meio da alegoria duas realidades espirituais. Senão vejamos:

a) A primeira realidade espiritual (vs.24-25).

     Estas duas mães aqui descritas, diz Paulo, representam duas alianças distintas. “Uma aliança é um acordo solene entre Deus e os homens, através do qual ele os transforma em seu povo e promete ser o seu Deus”.20 Não obstante, Agar é símbolo da antiga aliança baseada na lei de Moisés recebida no monte Sinai (Ex 19).

Os que vivem sob o jugo da lei são os seus filhos, isto é, a Jerusalém atual e terrena, o Israel incrédulo, carnal e escravo da religião legalista composto de judeus, fariseus, mestres da lei e religiosos que rejeitaram e rejeitam até os dias atuais Cristo e o evangelho da graça (3.23; 5.21).  

b) A segunda realidade espiritual (vs.26-27).

     Em contraste com a Jerusalém atual, a segunda mãe, sara, representa a nova aliança baseada no evangelho. Sara é a mãe dos crentes verdadeiros, daqueles que nasceram do alto, que são livres e que foram, são e serão salvos pela graça de Deus. “Dos que são cidadãos do céu, que estão se preparando para o céu e que irão para o céu. “se Hagar gera para a escravidão; sara gera para a liberdade e para a vida”.21

    Sobre a Jerusalém do alto, William Hendriksen escreve:

“O céu é a mãe da igreja, porque foi o céu que deu luz à seus filhos. O céu é a nossa pátria (Fp 3.20). Nossa vida é governada pelo céu. É no céu que estão assegurados nossos direitos e são promovidos nossos interesses. É para o céu que sobem nossas orações. É no céu que está a nossa esperança. O nosso salvador vive no céu. Alguns de nossos amigos já estão no céu. E em breve nós também estaremos no céu, onde receberemos a herança, da qual já temos o penhor”.22

     Por outro lado, ao citar (Is 54.1) no contexto de gálatas, Paulo não utilizando esta passagem como uma espécie de aplicação a sua premissa. John Stott ressalta o seguinte:

“O profeta Isaias aqui está se dirigindo aos exilados no cativeiro da Babilônia. Ele compara a sua condição no exílio, sob o juízo divino, à de uma mulher estéril finalmente abandonada por seu marido, e o seu estado futuro depois da restauração à de uma mulher fértil com mais filhos do que as outras. Noutras palavras, Deus promete que, depois do retorno, o seu povo será mais numeroso do que antes. Essa promessa recebeu cumprimento literal, ainda que parcial na restauração dos judeus na terra prometida. Mas o seu cumprimento espiritual, verdadeiro, diz Paulo, está no crescimento da igreja, uma vez que o povo cristão constitui a descendência de Abraão”.23

     Portanto, o que o apóstolo quer ensinar através desta citação de (Is 54.1)? Hernandes Dias Lopes responde: 

“Sara era estéril, mas seus filhos se multiplicaram como as estrelas do céu e as areias da terra. Seus filhos são todos aqueles, judeus e gentios que creram em Cristo e foram salvos dentre os povos, raças, tribos e nações. Com esse argumento, Paulo está dizendo que não basta apenas reivindicar a Abraão por nosso pai. O importante é considerar quem é nossa mãe.24

3- A FASE APLICATIVA – OS DOIS FILHOS (vs.28-31)

     Depois de expor os eventos históricos e interpretá-los através de alegoria. Nesta última etapa de toda sua argumentação, Paulo agora vai aplicar tanto aos gálatas como aos seus opositores legalistas, toda a síntese desenvolvida ao longo desta seção que encerra a sua inerrante e poderosa defesa da justificação pela fé centrada no evangelho da graça em contraste com a justificação pelas obras da lei.

a) Uma declaração enfática (vs.28).

     Paulo afirma categoricamente aos crentes da Gálacia que, embora seduzidos pelos falsos mestres e estarem entrelaçados na teia do falso evangelho, todavia, eles eram filhos da promessa como Isaque, e não filhos da escravidão como Ismael. Mesmo retornando a vida escrava aderindo à religião das obras, indubitavelmente os gálatas eram nascidos do Espírito e membros da família de Deus.
Assim também é a realidade de muitos cristãos verdadeiros hoje que, pela ignorância bíblica, perecem na escravidão do legalismo pregado a plenos pulmões por diversas seitas evangélicas.

 b) Uma plena convicção (vs.29).   

     Em (Gn 21.8-9) é descrito que depois que Isaque foi desmamado, Abraão fez uma grande festa para celebrar o acontecimento, porém, nessa mesma ocasião, Isamel também presente na festa, caçoou e zombou de seu irmão. Como Ismael redicularizara Isaque no passado, assim nós, seus descendentes espirituais, também seremos perseguidos e maltratados por aqueles cuja religião é legalista.

Concordo com John Stott quando ele diz que “a perseguição da verdadeira igreja, dos verdadeiros crentes nem sempre vem do mundo, de estranhos sem nenhuma relação conosco, mas de nossos próprios irmãos, da própria igreja que se diz cristã”.25 “Os legalistas sempre se levantaram, se levantam e se levantarão para perseguir a igreja de Deus. Essa tensão jamais deixou de existir. É uma trégua sem fim”.26

c) “Uma ordem expressa (vs.30)”.27

     Assim como Sara pediu a Abraão para retirar Hagar e Ismael de sua casa mandando-os embora, não obstante devemos também retirar de nossa vida espiritual mandando embora toda forma de legalismo carnal baseado em regras e preceitos humanos criados ao longo do tempo. Não existe harmonia entre a salvação pela fé e a salvação pelas obras. Entre o genuíno evangelho e o falso evangelho.

Warren Wiersbe com muita propriedade ressalta:

     “É impossível a Lei e a graça, a carne e o Espírito entrarem em acordo e conviverem. Deus não pediu a Agar e a Ismael que voltassem de vez em quando para fazer uma visita; foi um rompimento permanente. Os judaizantes do tempo de Paulo e de nossos dias tentam conciliar Sara com Agar e Isaque com Ismael, uma conciliação contrária à Palavra de Deus. É impossível misturar a Lei com a graça, a fé com as obras e a justificação que Deus concede com a tentativa humana de merecer sua justificação”.28

    Nesta passagem que os judeus interpretavam erroneamente como que Deus rejeitando os gentios, na verdade é a própria lei rejeitando a si mesma como o caminho da salvação. Paulo inverteu a ordem dos fatores e aplica esta rejeição da herança eterna da salvação não aos judeus por descendência, mas aos judeus incrédulos. Lightfoot diz que Paulo aqui deu o toque fúnebre para o judaísmo.   

d) Uma constatação irrefutável (vs.31).

     Paulo conclui de maneira inequívoca o seu demolidor argumento dizendo aos gálatas que eles e nós somos filhos não da lei, mas somos filhos da graça bendita de Deus em Cristo Jesus. Se somos livres, devemos agir como livres, não somente rejeitando o legalismo, mas em alguns casos abandonando também o sistema religioso legalista.


CONCLUSÃO
     

      Malcon Smith definiu o legalismo como um caldo mortífero. Quem dele se nutre adoece e morre. “Legalismo não significa determinar padrões espirituais; significa idolatrar esses padrões e pensar que somos espirituais porque lhes obedecemos. Também significa julgar outros cristãos com base nisso”.29  

“O legalismo é uma ameaça à igreja, pois dá mais valor à forma do que a essência, mais importância à tradição do que a verdade, valoriza mais os preceitos do que o amor. O legalismo veste-se com uma capa de ortodoxia, mas em última análise, não é a verdade de Deus que defende, mas seu tradicionalismo conveniente.

     O legalista é aquele que rotula como infiéis e hereges todos aqueles que discordam da sua posição. O legalista é impiedoso. Ele julga maldosamente com seu coração e fere implacavelmente com sua língua os irmãos. O legalismo não morreu. Ele ainda está vivo e presente na igreja. Ainda é uma ameaça à saúde espiritual do povo de Deus. Há muitas igrejas sob o jugo pesado do legalismo”.30

      Eu concluo esta exposição com estas palavras. O conhecimento do evangelho da graça pela fé é a chave que abre a porta da prisão onde a lei mantém cristãos livres aprisionados no legalismo evangélico.  

(2Cor 3.17) Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. ARA









 NOTAS:

2- Hernandes Dias Lopes. Gálatas, pág 198.
3- John Stott. A mensagem de Gálatas, pág 112-113.
4- Hernandes Dias Lopes. Gálatas, pág 198.
5- Greg L. bahsen citando Lutero. O tradicional Três usos da Lei.
6- Ibid.
7- Mauro Meister. Lei e Graça. Uma visão Reformada.
8- Bíblia de Estudo de Aplicação Pessoal. Notas de rodapé, pág 1637.
9- Mauro Meister. Lei e Graça. Uma visão Reformada.
10- Ibid.
11- Confissão de Fé de Westiminster, cap XIX. A Lei de Deus.
12- Hernandes Dias Lopes. Gálatas, pág 201.
13- Bíblia de Estudo Macarthur. Notas de rodapé, pág 37.
14- Donald Guthrie. Gálatas: Introdução e comentário, pág 157.
15- William Hendriksen. Gálatas, pág 216.
16- Adolf Pohl. Gálatas, pág 108.
17- Hernandes Dias Lopes. Gálatas, pág 203.
18- William Hendriksen. Gálatas, pág  217.
19-  Vicent Cheung. Comentário bíblico de Gálatas.
20- John Stott. A mensagem de Gálatas, pág 115.
21- Hernandes Dias Lopes. Gálatas, pág 208.
22- William Hendriksen. Gálatas, pág  220.
23- John Stott. A mensagem de Gálatas, pág 116.
24- Hernandes Dias Lopes. Gálatas, pág 209.
25- John Stott. A mensagem de Gálatas, pág 117.
26- Hernandes Dias Lopes. Gálatas, pág 211.
27- Ibid.
28- Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo do Novo Testamento, pág 930.
29- Ibid, pág 931.
30- Hernandes Dias Lopes. Palavra da verdade. Legalismo, um caldo mortífero.

OBSERVAÇÃO:
NEM TODAS AS POSTAGENS TRADUZEM, NECESSARIAMENTE, A OPINIÃO DO SITE MATÉRIAS DE TEOLOGIA

Soli Deo Gloria