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PRECISA-SE CORAGEM COM MODERAÇÃO - A.W.TOZER


O pecado fez um ótimo trabalho, arruinando-nos por completo, e o processo de restauração é longo e vagaroso.

As obras da graça na vida de cada um talvez nunca venham a ser claras e definidas, mas trata-se sem dúvida da obra de um Deus, a fim de levar de volta à semelhança divina o coração decaído. Isto pode ser visto perfeitamente na dificuldade que experimentamos em conseguir simetria espiritual em nossa vida. A incapacidade, até mesmo das almas mais piedosas, de manifestar as virtudes cristãs em igual proporção e sem qualquer mistura de atributos não-cristãos tem sido fonte de muita tristeza para grande número de crentes.


As virtudes da coragem e moderação, quando mantidas na pro­porção exata, tornam a vida bem equilibrada e útil no reino de Deus. Quando falta uma delas ou sua presença é reduzida, o resultado é desastroso, não existe equilíbrio e poderes são desperdiçados.


Quase tudo que se escreve com sinceridade, quando examinado de perto, percebe-se ser autobiográfico. Nós conhecemos melhor aquilo que experimentamos. Este artigo não é uma exceção. Devo admitir francamente que  se  trata de autobiografia,  pois  o  leitor  perspicaz descobrira a verdade por mais que eu tente escondê-la.

Em resumo, poucas vezes fui chamado de covarde, mesmo pelos meus inimigos mais cordiais, mas minha falta de moderação já foi causa  de  sofrimento  a  meus   amigos  mais  chegados.  Um  temperamento extremado é difícil de dominar e a tentação de fazer uso de métodos drásticos, imoderados, no serviço do Senhor, é quase irresistível. Essa tentação é ainda fortalecida pelo conhecimento de ser praticamente impossível encostar um pregador na parede e fazê-lo engolir as suas palavras. Existe uma espécie de imunidade minis­terial conferida ao homem de Deus que pode levar Boanerges a fazer uso de uma linguagem extravagante e irresponsável, a não ser que empregue medidas heróicas para colocar a sua natureza sob o con­trole do espírito do amor. Falhei algumas vezes nisto e sempre em meu detrimento.

O contraste entre os caminhos de Deus e os do homem é visto novamente aqui. Em separado da sabedoria que a experiência pe­nosa pode fornecer, tendemos a alcançar nossos fins mediante o ata­que direto, invadindo o campo inimigo e ganhando a luta com um ataque de surpresa. Foi essa a atitude de Sansão, e ela funcionou bem exceto por um pequeno descuido: destruiu o vencedor junta­mente com os vencidos! Existe sabedoria no ataque pelo flanco, mas o espírito impetuoso geralmente a rejeita.

Foi dito a respeito de Cristo:   "Não contenderá, nem gritará nem alguém ouvirá nas praças a sua voz. Não esmagará a cana que brada, nem apagará a torcida que fumega, até que faça vencedor juízo" (Mt 12:20). Ele alcançou seus tremendos objetivos sem esforço físico excessivo e praticamente sem violência. Toda a sua vida foi marcada pela moderação: todavia, foi dentre todos os homens o mais corajoso, ousando enviar esta mensagem a Herodes que o ameaçava: "Ide dizer a essa raposa que hoje e amanhã expulso demônios e curo enfermos, e no terceiro dia terminarei". Existe nisso coragem consu­mada, mas não desafio, nenhum sinal de desprezo, nenhuma extra­vagância em atos ou palavras. Ele possuía coragem com moderação.

A falha em alcançar um equilíbrio entre essas virtudes já provo­cou muitos males na igreja no correr do tempo, e o prejuízo é tanto maior quando os líderes da mesma se envolvem neles. A falta de co­ragem é um defeito grave s pode ser um verdadeiro pecado quando leva à transigência na doutrina ou na prática. Ficar parado, a fim de manter a paz a todo custo, permitindo que o inimigo fuja com os vasos sagrados do templo jamais pode ser o comportamento do verdadeiro homem de Deus. A moderação levada ao extremo no que se refere às coisas santas não é certamente uma virtude; mas a belicosidade não vence as batalhas celestiais. A fúria do homem não exalta a glória de Deus. Existe um modo correto de fazer as coisas, e ele jamais inclui a violência. Os gregos possuíam um ditado fa­moso:  "A moderação é o melhor caminho"; e o provérbio simples do agricultor americano:  "devagar se vai longe", contém uma rica e profunda filosofia.

Deus tem usado e certamente continuará usando os homens ape­sar de sua falha em possuir tais virtudes em equilíbrio adequado. Elias era homem corajoso; ninguém poderia duvidar disso, mas tam­bém não se poderia afirmar ser ele homem paciente e moderado. Vencia a batalha de assalto, pela provocação e não desprezava o uso da sátira e da ofensa, quando pensava que isso poderia ajudar. Mas depois de confundir o inimigo ele passava para o extremo oposto e caía no mais profundo desespero. É isso que acontece com as natu­rezas extremadas, o homem de coragem sem moderação.

Eli, por outro lado, era homem prudente. Não sabia dizer "não" nem mesmo para os de sua própria família. Apreciava a paz sem fundamentos e a tragédia mais negra foi o preço pago pela sua co­vardia. Ambos, Elias e Eli, eram homens bons, mas não souberam encontrar o meio-termo ideal. Dos dois, o ardente Elias foi com certeza o maior. É penoso imaginar o que Eli teria feito na posição de Elias. E eu teria piedade até de Ofni e Finéias caso Elias fosse pai deles!

Isto nos leva logicamente a pensar em Paulo, o apóstolo. Ele parece ter tido uma coragem praticamente perfeita, juntamente com uma disposição paciente e uma tolerância realmente divinas. O que ele poderia ter sido em separado da graça é visto na breve descrição dada a seu respeito antes da conversão. Depois de ter ajudado a apedrejar Estêvão até a morte, saiu perseguindo os cristãos, "respi­rando ainda ameaças e morte". Mesmo depois de convertido fazia juízos sumários quando entrava em discussão sobre alguma coisa. Sua rejeição de Marcos, por este ter abandonado o trabalho em meio, foi um exemplo de como tratava os homens quando perdia a con­fiança neles. Mas o tempo, os sofrimentos e uma intimidade cres­cente com o paciente Salvador parecem ter curado esta falha no homem de Deus. Seus últimos dias foram cheios de amor, tolerân­cia e caridade. E isso deve acontecer com todos nós.

É significativo o fato de a Bíblia não mencionar a cura de qual­quer covarde. Nenhuma "alma tímida" jamais se transformou em homem corajoso, Pedro é algumas vezes citado como uma exceção, mas nada existe em seu registro que faça ver nele uma pessoa tímida antes ou depois do Pentecoste. Ele chegou a tocar a fronteira uma ou duas vezes, mas na maior parte do tempo mostrou-se homem tão co­rajoso que sempre estava cm apuros por causa de sua ousadia.

Como a igreja precisa desesperadamente de homens de cora?em neste momento é sabido demais para que haja necessidade de repeti-lo. O medo paira sobre a igreja como uma maldição antiga. Medo de viver, de perder o emprego ou a popularidade, medo uns dos outros: esses são os fantasmas que assombram os homens, os líderes da igreja moderna. Muitos deles, porém, ganham reputação de co­rajosos repetindo coisas prudentes, seguras e batidas com ousadia cômica.

A coragem consciente não é entretanto a cura. Cultivar o hábi­to de falar francamente, pode simplesmente resultar em nos tornar­mos inconvenientes e causar muitos prejuízos. O ideal parece ser uma coragem tranqüila que não percebe sequer a sua própria pre­sença. Ela extrai sua força a cada momento do Espírito interior e dificilmente se apercebe do "eu". Uma coragem assim será também paciente, bem equilibrada e livre de extremismos. Possa Deus bati­zar-nos com essa espécie de coragem.

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