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O GRANDE HINO CRISTOLÓGICO DE EFÉSIOS - ISALTINO G.C.FILHO [PARTE 1]

jesus cristo

          O texto de Efésios 1.3-13 é a maior sentença gramatical da Bíblia. O ponto final aparece no versículo 13 (Bíblias antigas) ou no 14 (Bíblias novas). São 203 palavras no texto grego. Após a saudação habitual em suas cartas, Paulo prorrompe em louvor de maneira tão entusiástica que custa a parar. Encadeia os pensamentos um após o outro e fica até difícil captar o sentido do que ele está a dizer.
         
Mas não é apenas longo. É um texto riquíssimo este que abre a carta, que é chamada de “rainha das epístolas”. Efésios é onde o gênio de Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, mais fulge. É também onde encontramos o mais alto conceito de igreja na Bíblia. Todas as igrejas deveriam estudá-la com seriedade, para entenderem o que são e para terem uma visão correta do seu propósito neste mundo. Segundo MacKay, em Efésios temos “a essência destilada do cristianismo, o compêndio mais autorizado e completo da nossa fé cristã”. Lloyd-Jones disse que “é difícil falar dela de maneira comedida por causa de sua grandeza e sublimidade”. Colleridge a avaliou como “a composição mais divina da raça humana”. Ela mostra todo o propósito de Deus para a raça. Sintetiza de maneira brilhante o propósito divino para a humanidade, mostrando o que ele espera não apenas da igreja, mas da família e da sociedade.

UM HINO DE LOUVOR
          Este brilhante escrito começa com um hino.  Não um hino comum, mas um brilhante hino cristológico, repleto de afirmações teológicas de profundidade ímpar. Ele nos mostra que o louvor não precisa ser raso, superficial. Pode trazer grandes ensinos. Não é passatempo. Faz parte do processo da pedagogia das verdades cristãs. Embora seja chamado de “hino cristológico”, o texto mostra a harmonia das pessoas da Trindade, trabalhando juntas. No versículo 3 o foco é o Pai. No versículo 5, é o Filho. E no versículo 13, é o Espírito. É um hino que mostra a obra da Trindade. Uma boa pista para nós. Nossos hinos podem e devem ensinar as grandes verdades da fé cristã, e não apenas experiência humana. Devem ser inspirativos (quem negará a inspiração de Efésios 1.3-14?), mas devem ser pedagógicos. Cânticos cristãos não podem ser entretenimento. Devem ser ensino e mensagem.
          O aspecto do louvor fica bem claro no texto. Há um refrão que surge três vezes: “para o louvor da sua glória” (vv. 6, 12 e 14). O louvor é para a glória de Deus. Quando aprenderemos isto, a diferença entre o importante e o essencial? É importante que o povo de Deus seja edificado, que receba força espiritual no culto, que seja instruído e firmado na sua fé. Mas é essencial que o louvor glorifique a Deus. E, de maneira que não podemos explicar porque é ação exclusiva do Espírito Santo, quando Deus é glorificado, seu povo (seu povo mesmo, e não os aderentes, como a massa que saiu do Egito com Israel e só lhe criou problemas) é edificado e confortado. O crente é fortalecido espiritualmente na mesma proporção em que Deus é glorificado no culto que ele presta. Ponha-se o foco em Deus que ele nos comunica sua graça e seu poder.

 BENDITO SEJA O DEUS E PAI DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO – O PAI COMO REFERENCIAL   
        “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. A primeira palavra é “Bendito”, no grego eulógetos, que só se emprega para Deus. Só ele deve ser louvado e bendito. Paulo toma uma antiga oração rabínica que era a segunda bênção ministrada pelo dirigente da sinagoga, antes da recitação do shemá (Dt 6.4), e que termina com esta expressão: “Bendito sejas tu, o Senhor que escolheste teu povo Israel no amor”. O texto de Efésios 1.3-4 é quase um eco desta bênção: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo… nos elegeu nele… em amor” . Paulo adapta a liturgia da sinagoga para ser a bênção inicial de sua carta. Se, como desejam vários eruditos, Efésios era, na realidade, uma carta circular enviada às igrejas, a questão se torna mais profunda. Paulo está saudando os cristãos com uma bênção da liturgia judaica, cristianizando-a. A expressão está inserida num cântico de louvor. E que riqueza teológica! O trato de Deus agora é com a Igreja. Ela é o povo de Deus. Ela canta sua eleição e os propósitos divinos para ela. Louvor não é mero misticismo, mas uma declaração de que temos um novo relacionamento com Deus.
         A modificação tem sentido teológico. A nação era o canal das bênçãos aos homens. Por isso, seu Deus e Pai devia ser bendito. Jesus Cristo é o novo canal de bênçãos. “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. A expressão reconhece que é em Cristo que estão as bênçãos divinas, e que Jesus Cristo é o Senhor. Este é o valor cristológico deste hino. E é para nós uma forte recomendação.  Cânticos com teologia sadia expressarão a bondade de Deus em nos abençoar e apregoarão Jesus Cristo como Senhor e como canal de bênçãos para nós. Muitos de nossos cânticos, principalmente alguns baseados nos salmos, caberiam numa sinagoga. Nada falam da segunda e terceira pessoas da Trindade. Mas nós não somos judeus. Somos cristãos e cantamos Jesus Cristo. Reconheço que não é a simples menção do nome de Jesus que dará conteúdo cristológico a um cântico. O competente Verner Geier, na metrificação do salmo 142 que nos rendeu o hino 380 do HCC, não colocou lá o nome de Jesus. Mas não é um hino genérico. Verner conseguiu dar um conteúdo cristão ao hino. O que lá está é cristão. Bem diferente de “Quero subir o monte santo de Sião”. O cântico cristão comunica a mensagem cristã e mostra o cuidado divino pelo seu povo, a Igreja.

NO FILHO, PELO FILHO, PARA O FILHO – O FILHO COMO REFERENCIAL
     
            O hino não bendiz o Filho (não há um eulógetos para ele), mas exalta sua pessoa. O elemento gramatical mais repetido é a preposição grega  en (en), correspondente ao nosso “em”, seguida do dativo. Ela vem com o pronome pessoal (“nele”), ou com um nome (“em Cristo”, “no Amado”). A preposição aparece dez vezes, sendo que em nove vezes se aplica a Cristo e em oito à obra mediadora de Cristo. A teologia do hino se centra na pessoa e obra de Cristo e faz dele o referencial teológico.
             O hino nos direciona para Cristo no sentido de que nele as bênçãos de Deus foram dadas e transmitidas aos fiéis. Pela união com o Filho passamos a pertencer ao Pai (v. 4). Ele nos tornou seus filhos em Cristo (v. 5). A morte de Cristo na cruz nos trouxe o perdão dos pecados (v. 7). No tempo certo, o Pai unirá todas as coisas, no céu e na terra, sob a autoridade de Cristo. A morte de Cristo na cruz é o eixo da argumentação. Basta ver que fica quase no meio da argumentação (v. 7) e que se torna o referencial argumentativo do apóstolo.
             O culto cristão precisa ter uma forte ênfase cristológica. Como professor de Antigo Testamento e Homilética por mais de três décadas, este autor tem uma tendência a pregar no Antigo Testamento. Evita cristianizar o texto veterotestamentário, a não ser que este seja messiânico. Mas reconhece que mesmo pregado no Antigo Testamento, um sermão cristão tem que culminar na pessoa e obra de Cristo. A recomendação paulina “Nós pregamos a Cristo crucificado” (embora ele pregasse muitos outros temas) deve ter uma correspondente para músicos cristãos: “Nós cantamos o Cristo crucificado”. Não podemos esquecer de cantar a cruz de Jesus Cristo! O Cristo crucificado é o canal de bênçãos para o mundo.

 UM HINO DE FÉ PESSOAL E DE TESTEMUNHO – AS TRÊS GRANDES SEÇÕES DO TEXTO     
           Os verbos, neste texto, estão no indicativo, com uma variação de sujeitos. São três seções, como o canadense Gourgues bem apontou:
           A primeira seção está nos versículos 3 a 6, onde os verbos (“ele nos escolheu”, v. 4, e “ele nos deu”, v. 6) se referem a Deus. Esta seção se chama ELE.
            A segunda seção está nos versículos 7 a 12, onde os verbos (“temos”, v. 7, e “sermos” e “havíamos”, v. 12) se referem aos cristãos. Esta seção se chama NÓS.
            A terceira seção está nos versículos 13 e 14, mais breve que as anteriores. A idéia central é “fostes selados” (v. 13). Esta seção se chama VÓS.
           Ele, nós e vós são os sujeitos de cada seção. E cada um delas termina com a expressão “para o louvor da sua glória”. O que está sendo dito é fácil de compreender. Ele age para sua glória. Nós existimos para sua glória. Ele age na vida de todos, o nós e o vós, para a sua glória. Citando Gourgues: “Esta formulação se liga àqueles convites para bendizer e louvar Iahweh os quais se encontram no Antigo Testamento, nas passagens narrativas das intervenções e maravilhas de Deus”. Os efésios são chamados, e nós com eles, a louvar a Deus pelos seus atos em favor dos homens. É um testemunho de seu poder que opera por nós. A glória é para ele. Mais à frente, o apóstolo dirá num momento também de louvor: “Ora, àquele que é poderoso para fazer muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse seja glória na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém” (Ef 3.19-20).
            O louvor em Efésios é pelo poder de Deus que opera pelo seu povo. Por aquilo que ele fez por nós. Tudo na igreja, e deve ser assim muito mais no culto, deve ser para o louvor da glória de Deus. Que sua glória brilhe, e não a dos homens!

 CONCLUSÃO     
            O grande hino cristológico de Efésios não pode ser esgotado em um estudo. A ele voltaremos na próxima edição da revista, vendo seu conteúdo. É importante que isto seja feito, para podermos saber o que os primeiros cristãos cantavam. Mas hoje já podemos ver algumas questões. Cantamos que somos o povo de Deus, que ele tem um propósito para nós, que ele e só ele deve ser bendito, que Jesus Cristo é o canal de bênçãos para este mundo. Que tudo que fazemos é para o louvor da sua glória.  Por tudo isto, que não haja estrelismo nem banalidade no nosso culto. Ele deve ser uma profunda reflexão sobre o agir de Deus em seu propósito eterno. Ele tem um plano para o mundo. Nós, sua Igreja, fazemos parte deste propósito e por isso o louvamos.
            Nossos cultos precisam ter uma visão do atacado, não apenas do varejo. Não é apenas o que Deus faz por mim, mas o que Deus faz em nível histórico, ao longo dos tempos, conduzindo tudo para submissão a Cristo. A Igreja celebra esta verdade: a história está nas mãos de Deus e ela serve a este Deus poderoso que engendrou seu plano “antes da fundação do mundo” (1.4). Que maravilha servir e adorar a este Deus!

Isaltino Gomes Coelho Filho é pastor titular da Igreja Batista do Cambuí, em
Campinas-SP (http://www.ibcambui.org.br/ibc/).
Fonte:
http://www.isaltino.com.br

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