CTO - CURSO GRATUITO DE TEOLOGIA ONLINE

CTO - CURSO GRATUITO DE TEOLOGIA ONLINE

FUNDO


Visões de Jesus Cristo teologia e arte através da história
por
Alderi Souza de Matos



Os primeiros cristãos herdaram dos judeus uma grande hesitação em fazer representações materiais das realidades transcendentes. É verdade que o templo de Jerusalém era rico em suas preocupações estéticas e em seu conteúdo artístico. Nele foram utilizados os melhores e mais preciosos materiais disponíveis na época: madeiras, tecidos e metais nobres. Havia também belíssimas representações de elementos da natureza, tais como flores, frutos e animais. O Primeiro Livro dos Reis menciona, entre os elementos decorativos do templo, colocíntidas, flores abertas, palmeiras, romãs, lírios, leões, bois e até mesmo querubins (6.18, 23, 29, 32; 7.20, 22, 24-26, 29, 36, 42). Todavia, quando se tratava do Ser Divino, eram vedadas todas e quaisquer representações materiais (Êx 20.4, 5; Lv 26.1; Dt 4.15-18). Essas proibições foram observadas de modo particularmente rigoroso após a Diáspora e influenciaram a igreja primitiva, que se caracterizava por um culto simples e uma liturgia despojada, quase inteiramente isenta de símbolos materiais.

Nos primeiros séculos do cristianismo, a pobreza da maior parte dos cristãos, a situação de marginalidade do novo movimento e as limitações impostas pela sociedade e pelo Estado foram alguns fatores, entre outros, que inibiram manifestações significativas de arte sacra especificamente cristã. Todavia, apesar das restrições bíblicas apontadas acima, faziam parte das convicções desses cristãos alguns elementos que, no devido tempo, iriam frutificar em ricas e variadas expressões artísticas. Um desses elementos era a doutrina da criação — o entendimento de que o mundo físico, com toda a sua beleza e complexidade, era obra das mãos de Deus e refletia os seus atributos de poder, sabedoria e bondade. Em particular, as Escrituras davam ênfase ao ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, e ao corpo humano, transformado em morada do Deus encarnado e redimido para uma vida de comunhão com o Criador. Além disso, a Bíblia estava repleta de histórias, milagres e símbolos vívidos que apelavam fortemente à imaginação e à sensibilidade, e mais cedo ou mais tarde encontrariam expressão em muitas formas visuais e artísticas.



Cristo no imaginário da igreja primitiva

A centralidade da pessoa de Jesus Cristo para a nova fé fez com que os cristãos desde uma época remota se defrontassem com a propriedade ou não de representá-lo visualmente. A realidade concreta e poderosa da encarnação legitimou, para muitos cristãos, a representação visual da pessoa do Redentor. Inicialmente, essas representações foram apenas simbólicas e não tinham pretensões artísticas deliberadas. Tratava-se de desenhos simples, às vezes até rudimentares, na forma de afrescos e mosaicos, feitos em residências particulares ou em catacumbas. Jesus Cristo podia ser representado visualmente por um peixe, por uma âncora ou pelas letras gregas “alfa” e “ômega”. O peixe era um símbolo especialmente atraente, não só em função das histórias dos evangelhos, mas porque a palavra equivalente em grego ( ichthus ) formava o acróstico de uma vibrante declaração de fé: “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”.

Eventualmente, surgiram representações humanas mais explícitas, sendo que um dos temas mais freqüentes foi a figura do Bom Pastor, sob a influência de João 10. Curiosamente, até o início do quarto século praticamente não ocorriam representações artísticas da cruz e da crucificação. Os primeiros cristãos pareciam pouco inclinados a destacar visualmente a morte servil e degradante imposta ao seu Senhor, preferindo conceber a salvação nos termos suaves da amizade com Cristo, o Bom Pastor. Um belo exemplo pode ser encontrado num afresco da catacumba de Marcelino e Pedro, martirizados em Roma, durante a perseguição movida pelo imperador Diocleciano (303-305).



O triunfalismo da igreja imperial

A partir do imperador Constantino (313), o cristianismo começou a influenciar diretamente a arte ocidental, em todas as suas expressões. O crescente poderio da igreja passou a ser traduzido em manifestações artísticas cada vez mais ricas e sofisticadas. Se nos primeiros séculos predominaram os temas da filantropia e da amizade com Cristo, representados pela figura do Bom Pastor, a partir da união da igreja com o Estado romano entra em cena uma temática que pode ser designada como triunfal e gloriosa. Cristo passa a ser representado como o Senhor glorioso e o Juiz eterno, que reina supremo à destra de Deus. Um exemplo sugestivo é uma pintura da catacumba de Comodila, ao sul de Roma, datada do quarto século, em que Cristo, tendo a cabeça envolta por um halo, está ladeado pelo alfa e o ômega, o princípio e o fim, simbolizando o seu poder eterno.

As controvérsias trinitárias e cristológicas do quarto e quinto séculos, nas quais Jesus Cristo foi formalmente definido pelos primeiros concílios ecumênicos como consubstancial com o Pai, bem como plenamente divino e humano, fizeram com que, durante toda a Idade Média, essa ênfase triunfal se acentuasse nas diferentes manifestações da arte sacra. Obviamente, nesse aspecto, um dos temas prediletos dos artistas foi a cena da ressurreição, da qual existem exemplos magníficos em muitas partes da Europa e do Oriente Médio. Um deles se encontra na igreja de Cora (hoje uma mesquita), em Constantinopla ou Istambul, em que um mural datado de mais ou menos 1320 mostra o Salvador ressurreto e vitorioso sobre a morte, pisoteando os portões despedaçados do hades e ressuscitando Adão e Eva. A Catedral de Monreale, na Sicília, possui na abóbada acima do altar um estupendo mosaico bizantino de Cristo Pantocrátor (“governante de tudo”). Curiosamente, até mesmo algumas representações da crucificação podem ter esse tom triunfal, visto simbolizarem a vitória de Cristo sobre Satanás e o pecado.

Mesmo depois que as representações materiais de Cristo já estavam bem estabelecidas na arte sacra cristã, persistiram dúvidas na mente de muitas pessoas quanto à propriedade das imagens de Jesus. Entre o final do século sétimo e meados do século nono, ocorreu, no Império Bizantino (o império romano oriental ou grego), o célebre “movimento iconoclasta”, em que vários imperadores se opuseram tenazmente à veneração dessas imagens, considerando-a idolatria. Isso resultou, em grande parte, de pressões externas: as imagens eram obstáculos na controvérsia com os monofisitas (que se concentravam na natureza divina de Cristo), com os maniqueístas (que consideravam má toda a matéria) e com os muçulmanos (que rejeitavam representações da forma humana). Depois de um conflito longo e por vezes violento, chegou-se a uma solução intermediária: seriam admissíveis somente quadros ou pinturas de Cristo, Maria e dos santos (ícones), e não estátuas dos mesmos. A justificativa para tanto foi a encarnação – visto que Deus se tornou humano em Jesus Cristo, Ele assumiu todas as características humanas, inclusive a visibilidade. Os ícones da igreja ortodoxa estão entre as mais belas manifestações da arte religiosa cristã.



Idade Média, renascimento e Reforma

A arte do Ocidente medieval foi a expressão de um sistema coerente de valores e de uma visão cristã da vida. Seu objetivo era indicar as realidades espirituais subjacentes ao mundo material e para isso os artistas da época utilizaram amplamente o simbolismo e a alegoria. Foi criado um sistema sofisticado de símbolos em que, por exemplo, o cordeiro representava Cristo. Num período em que muitas pessoas não sabiam ler, essas ricas e variadas representações visuais, repletas de temas e alusões bíblicos, serviam como Bíblia para os incultos. No final da Idade Média, a religião tornou-se mais pessoal e individual, e a arte sacra exprimiu essa mudança de rumo. O Cristo sofredor substituiu o juiz severo. Seu coração traspassado e sangrento tornou-se, com maior freqüência, um motivo inspirador dos artistas religiosos.

Ao lado dos temas da amizade e do triunfo, surge assim um terceiro motivo na arte cristã: a dor e o sofrimento. Matthias Grünewald pintou em 1515-1516 uma lancinante cena da crucificação para o altar-mor de Isenheim, refletindo a profunda devoção mística do movimento conhecido como “Devoção Moderna”. É interessante que, no século anterior, até mesmo uma cena da ressurreição transmitia uma sensação de dor. Num quadro pintado por Piero Della Francesca, por volta de 1462-1464, Cristo ressuscita com sua bandeira de vitória, os soldados dormem a seus pés, as árvores florescem ao fundo, simbolizando a renovação do mundo, mas os olhos tristes e fixos do Senhor refletem toda a memória da dor da crucificação. Os artistas da renascença criaram uma profusão de primorosas obras de arte relacionadas com Cristo que até hoje encantam e enlevam as pessoas.

O protestantismo, apesar do seu caráter de contestação do catolicismo e de suas ocasionais tendências iconoclásticas, também apresentou em sua fase inicial extraordinárias manifestações de arte religiosa, que encontraram sua expressão suprema na pintura. Alguns nomes famosos são os dos pintores alemães Albrecht Dürer, Lucas Cranach e Hans Holbein, e dos holandeses Jan Vermeer e Rembrandt van Rijn. É muito conhecido o auto-retrato de Dürer, em que ele se identifica com Cristo como o Varão de Dores, porém de uma maneira serena, sem as angústias do imaginário místico medieval. Rembrandt foi o grande artista do discipulado cristão diário, representando a vida de Jesus de um modo que atrai o espectador para uma auto-identificação com o Senhor. Um belo exemplo é o seu “Cristo em Emaús”, cujo tema é o reconhecimento, o encontro face a face entre Cristo e o crente. Com isso, esses artistas davam expressão às suas novas convicções, “pregando” com a sua arte.

A Contra-Reforma, na sua luta pela reafirmação dos valores católicos diante da ameaça protestante, também teve uma exuberante e fecunda manifestação artística, que foi o barroco. Esse movimento expressou-se principalmente nos templos com fachadas e interiores elaborados e decorados de maneira jamais vista anteriormente. O triunfalismo da Contra-Reforma é belamente exemplificado pelo quadro “A glorificação do nome de Jesus” (1672-1685), pintado no majestoso teto da igreja de Il Gesù, por Baciccia, aluno de Bernini e o último grande pintor barroco de Roma. Todavia, com maior freqüência, a arte barroca deu ênfase à exaltação de Maria, considerada a rainha do céu.

Durante os séculos, quer nas catacumbas, pequenas capelas ou grandiosas catedrais, quer em murais, afrescos, mosaicos, vitrais, telas, marfim, metal, tecido ou esculturas, os cristãos têm expressado as suas convicções a respeito de Cristo e a sua devoção a Ele. A intensidade de sentimentos evocada pelo fundador do cristianismo é tão grande que até mesmo artistas não-cristãos têm produzido obras religiosas de grande valor estético e apelo místico. Essas manifestações artísticas correspondem a uma grande variedade de motivações, pessoais e sociais, teológicas e culturais, porém, intencionalmente ou não, sempre comunicam, com maior ou menor eficácia, a sublime declaração bíblica de que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14). 


Sobre o autor: Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil.
Fonte: Revista Ultimato

0 comentários :

Postar um comentário

OBSERVAÇÃO:
NEM TODAS AS POSTAGENS TRADUZEM, NECESSARIAMENTE, A OPINIÃO DO SITE MATÉRIAS DE TEOLOGIA

Soli Deo Gloria