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O PRÓLOGO DO EVANGELHO DE JOÃO - SPROUL

 
Central para a reflexão da Igreja quanto à nature­za de Cristo, durante os três primeiros séculos da história do cristianismo, foi o Prólogo do evangelho de João — João 1.1-18. O uso que João fez do conceito do Logos (Verbo) para referir-se a Cristo, cativou o pensamento dos teólogos. Encontramos ali o ensino mais abstrato e, talvez, o mais profundo de todo o Novo Testamento acer­ca de Jesus.


O evangelho de João começa com estas palavras:
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus (João 1.1,2).


Essas notáveis declarações foram feitas aqui por João, sobre o Verbo ou Palavra (no grego, o Logos). A primeira declaração foi que o Verbo estava "no princí­pio". João passa então a declarar que o Verbo esteve ativo na criação. No princípio refere-se ao tempo da criação e indica que o Verbo era anterior ao tempo da criação de todas as coisas. Ou seja, o Logos já existia antes da cria­ção do universo. Quando os teólogos falam sobre a "preexistência" de Cristo, é isso que eles querem dizer. Normalmente, a teologia cristã vincula a preexistência de Cristo com a eternidade. Ou seja, ao confessar a plena deidade de Cristo, a Igreja não somente afirma que Jesus já existia antes do universo, mas também que ele existia por toda a eternidade.


Os mórmons e as Testemunhas de Jeová concor­dam que Jesus era preexistente, mas negam sua eternida­de. Visto que a Bíblia chama Cristo de "primogênito da criação" e de "gerado", esses grupos argumentam que Jesus foi a primeira criatura criada pelo Pai. Jesus, pois, subseqüentemente, teria participado na criação do uni­verso.


João, porém, afirma mais ainda do que a pré-existência do Logos, Ele diz que o Verbo estava com Deus.


Existem dois importantes aspectos nessa afirmação. Em primeiro lugar, notemos o uso da palavra com. No idio­ma grego existem três vocábulos que podem ser traduzi­dos pela palavra portuguesa com. A primeira dessas pala­vras é sun, da qual derivamos nosso prefixo sin (como em síntese, sinagoga, sincronizar). Quando sincronizamos nossos relógios, ajustamos o horário marcado por eles, um relógio com o outro. A palavra sinagoga usa também esse prefixo para indicar um lugar onde as pessoas se reúnem umas com as outras.


A segunda palavra grega é meta. Essa usualmente é traduzida para indicar "com" no sentido de estar "ao lado de". Quando caminho na rua, ao lado de minha es­posa, segurando a mão dela, eu estou com ela no sentido de meta.


A terceira palavra é a mais íntima das três. É a palavra pros. Essa pequena palavra serve de base para uma outra palavra maior, no grego, ou seja, prosopon, que significa "face". O sentido implícito de pros é estar com alguém em uma relação de face a face. Foi essa a palavra grega que João usou no prólogo do evangelho de João. Quando João asseverou que o Logos estava "com Deus", no princípio, a idéia transmitida era que o Logos desfrutava de uma relação chegada, íntima, pessoal com Deus.


A segunda importante característica dessa decla­ração é que nessa frase João distinguiu claramente entre o Logos e Deus. Essa é a principal razão pela qual devemos estabelecer distinções dentro da deidade. A Bíblia distin­gue claramente entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O primeiro capitulo do evangelho de João é a exibição A dessa distinção.


Entretanto, é a terceira assertiva de João que cha­ma nossa atenção de maneira mais enfática. João não des­cansa meramente ao dizer que o Verbo estava com Deus. Ele continua a fim de dizer: "E o Verbo era Deus".


Encontramos aqui a mais clara e menos ambígua asserção da deidade de Cristo nas páginas do Novo Testa­mento. Se na primeira declaração, João distinguira entre o Logos e Deus, agora ele declara a identidade entre o Logos e Deus, usando uma forma do verbo "ser". Vemos aqui uma identificação entre o ser do Logos e o ser de Deus.
Essa é uma das principais razões pelas quais a Igre­ja, ao buscar ser fiel à Bíblia, foi compelida a insistir sobre a unidade de ser entre os membros da Trindade. A Bíblia declara com clareza a identidade de ser entre o Logos e Deus. Os dois são um só em ser ou essência.


Não obstante, ainda devemos honrar a distinção existente entre o Logos e Deus. Duas coisas tornam-se claras nessa passagem: 1. Devemos manter a unidade de ser entre o Logos e Deus. 2. Devemos distinguir entre o Logos e Deus, sem fazer violência à unidade essencial entre eles. Embora o Logos deva ser distinguido de Deus, a distinção não deve ser uma distinção ou separação es­sencial.


Os mórmons e as Testemunhas de Jeová fazem uma incrível ginástica de linguagem para tentar evitar o ensino claro deste texto. De falo, eles torturam o texto para poderem defender seus pontos-de-vista diante desse texto. Por exemplo, a Bíblia publicada pelas Testemu­nhas de Jeová traduz o texto da seguinte maneira:

E o Verbo era um deus.

A justificação para tanto, usada pelas Testemunhas de Jeová é uma justificação lingüística errada. Nesse texto, no original grego, o artigo definido masculino "o" é omitido. Ora, o idioma grego, por sua vez, não tem artigo indefinido.


Quando um substantivo aparece, no original gre­go, sem o artigo definido, na tradução para o português o artigo indefinido "um" precisa ser acrescentado, se o con­texto apoia tal coisa. Mas se há um contexto que proíbe essa inserção, é o contexto deste versículo. Se os mórmons e as Testemunhas de Jeová querem inserir o artigo indefi­nido "um", aqui, eles escorregam para o mais baixo nível de politeísmo. Se o Logos é "um" Deus, e não "o" Deus, então cabe-nos fazer a pergunta óbvia: Quantos Deuses existem? Ora, se sabemos qualquer coisa sobre o autor do evangelho de João, sabemos que ele era simplesmente monoteísta.


A maioria dos mórmons e das Testemunhas de Jeová concordariam com esse parecer sobre João. Eles se defendem à base de uma linha mais sutil. Eles chamam a nossa atenção para uma linha obscura, saída dos lábios de Jesus. No contexto de um debate com seus detratores, os judeus tinham dito a Jesus:

Não é por obra boa que te apedrejamos, e, sim, por causa da blasfêmia, pois sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo. Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses? Se ele chamou deuses àqueles a quem foi dirigida a palavra de Deus, e a Escritura não pode falhar, então daquele a quem o Pai santificou e en­viou ao mundo, dizeis: Tu blasfemas, porque declarei: Sou Filho de Deus? Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis; mas, se faço, e não me credes, crede nas obras; para que possais saber e compreender que o Pai está em mim, e eu estou no Pai (João 10.33-38).

Os mórmons e as Testemunhas de Jeová, pois, valem-se desse texto para justificar a tradução deles de João 1.1: "e o Verbo era um deus". Aqui Jesus cita uma referência, extraída de Salmos 82, na qual a palavra deus é usada com referência a seres mortais. Assim sendo, os mórmons e as Testemunhas de Jeová contendem que quan­do João declarou que o Logos era "um" deus, não signi­fica que o propósito dele, no Prólogo do evangelho de João, era afirmar que o Logos era o verdadeiro Deus.


Se, entretanto, examinarmos criteriosamente o tex­to do capítulo dez do evangelho de João, veremos que nesse incidente de Jesus com os judeus que o acusavam de blasfêmia, o Senhor Jesus não estava negando a sua dei­dade. Longe disso. O texto, na realidade, envolve uma definida afirmação de sua deidade.


Nesse debate, Jesus estava respondendo à acusa­ção de blasfêmia. Seus adversários saltaram sobre a sua reivindicação de ser o Filho de Deus. Eles o acusaram de blasfemai porque, conforme disseram: "... sendo tu ho­mem, te fazes Deus a ti mesmo". Aqui os judeus pelo menos compreenderam o que os mórmons e as Testemunhas de Jeová não apreendem que Jesus, na realidade, afirmava se Deus.


A sutileza da resposta de Jesus deve ser compre­endida dentro do contexto do método de debate que ele empregou. Temos aqui um caso clássico da forma de ar­gumento chamado ad hominem. De acordo com esse mé­todo ad hominem, o argumentador usa seu argumento em relação "ao homem". Ou seja, a pessoa adota momenta­neamente a posição de seu oponente e leva a coisa à sua conclusão lógica, demonstrando o absurdo do argumento (Esse método também é chamado de reductio ad absurdum).

Os mormons e as Testemunhas de Jeová interpre­tam Jesus a dizer algo semelhante a isto: "Vocês estão me acusando de blasfêmia porque eu chamei a mim mesmo de Filho de Deus? Ouçam. Não quero dizer mais do que o salmista quis dizer. Não sou mais divino do que aquelas criaturas que foram chamadas de 'deuses' no Antigo Tes­tamento ".


Conforme essa interpretação do capítulo dez do evangelho de João, Jesus estaria escapando à acusação de blasfêmia, à base do argumento que a palavra deus, por si mesma, não indica, necessariamente, a deidade.


Mas não foi esse o ponto que Jesus destacou no seu debate. O sentido das observações de Jesus, pelo con­trário, foi algo como isto: "Se não foi blasfêmia o salmista dizer: 'Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo' (Sal­mos 82.6), então muito menos blasfemo é usar a palavra Deus para referir-se ao Filho unigénito do Pai. Em outras palavras, se, em um sentido secundário, todos os filhos de Israel foram chamados filhos de Deus, sem com isso estar havendo qualquer blasfêmia, muito menos blasfê­mia é chamar de Deus àquele que ocupa a posição ímpar de Filho de Deus".


Nessa mesma passagem, Jesus refere-se a ter sido enviado ao mundo pelo Pai, para, em seguida, declarar sua unidade com o Pai: "O Pai está em mim, e eu estou no Pai".


Quando voltamos de novo a João 1.1, vemos ou­tra razão compelidora para não traduzirmos esse versículo como "E o Verbo era um deus". Se seguirmos o raciocí­nio dos mórmons e das Testemunhas de Jeová seríamos levados a concluir que, de uma vez só, João se tornou culpado do pior tipo de equívoco quanto ao sentido. A falácia lógica de equívoco ocorre quando, no decurso de um argumento ou processo de raciocínio, muda o sentido dos termos nas premissas. João escreveu:


No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.


Com ou sem o artigo definido, para que João racioci­nasse com consistência, a palavra Deus deveria reter seu sentido através da passagem inteira. Se, na primeira pre­missa, a palavra Deus aponta para o verdadeiro Deus, então a menos que João tivesse caído numa falácia lógica, o mesmo sentido deveria ser aplicado à segunda cláusula. Se seguirmos o argumento dos mórmons e das Testemu­nhas de Jeová, teríamos que atribuir sentidos radicalmente diferentes para a palavra Deus em uma e mesma sentença.


E quando adicionamos a isso que imediatamente depois dessa declaração João declara que todas as coisas foram feitas através do Logos, já não pode haver dúvidas de que João estava identificando o Logos com o Deus Criador.


Concluímos, portanto, que João 1.1 demanda que vejamos tanto uma distinção entre o Logos e Deus, em um sentido, como uma identidade entre eles, em outro sentido.

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